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quarta-feira, junho 03, 2026

CEC 68/41 - Texto 10º

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São 22h59.

O telemóvel vibra pela última vez. Não há sirenes, nem trombetas, nem fogo a rasgar o céu. Apenas uma notificação enviada para todos os países, em todas as línguas:

“Às 23h59, o mundo terminará.”

Miguel lê a frase três vezes, como quem espera encontrar um erro ortográfico que salve a humanidade.

Clara lê-a sentada num banco de jardim. Depois olha em volta, desconfiada, mas a noite continua azul-escura e as árvores continuam a derramar folhas sobre os carros.

Há roupa esquecida nos estendais a respirar o vento. Um semáforo permanece vermelho para carros que já não conhecerão amanhã.

A mãe de Miguel telefona.

— Vens cá?

Ele quase responde “amanhã”, mas a palavra morreu primeiro.

Sai para a rua. Há pessoas a correr para algum lado e outras completamente imóveis, como estátuas cansadas. Um grupo canta na praça. Vê casais abraçados como náufragos. Um rapaz rouba flores de um jardim para as oferecer a desconhecidos.

Clara decide caminhar até ao mar. Sempre acreditou que os finais pertencem à água.

O mar aparece enfim diante dela: negro, imenso, respirando devagar. Clara pensa em todas as coisas pequenas que nunca salvou — cartas por enviar, beijos adiados, domingos desperdiçados.

Às 23h32, Miguel chega a casa da mãe. Ela fez arroz-doce.

Comem devagar. Pela primeira vez em anos, conversam sem pressa. Falam do pai, dos verões antigos, da chávena partida que nenhum dos dois deitou fora.

Às 23h58, a eletricidade falha. A cidade mergulha numa escuridão mansa. Miguel segura a mão da mãe. Clara senta-se na areia molhada.

Então, algures, alguém começa a tocar piano. Mais longe, alguém bate palmas.

O mundo inteiro prende a respiração.

E o planeta, condenado e belo, termina como uma canção que não queria acabar — estranhamente menos assustador no fim do que algumas vezes pareceu no princípio. 


CNEC 68/41 - 9º Texto

 

Quando acordou, o quarto estava cheio de neve.

Tomás ficou imóvel debaixo dos cobertores, a olhar para o chão branco, para a secretária branca, para o armário que parecia feito de gelo. Piscou os olhos muitas vezes. Talvez ainda estivesse a sonhar. Na noite anterior adormecera a ouvir chuva bater na janela; agora havia flocos a cair lentamente dentro do quarto, silenciosos como penas.

— Mãe? — chamou, com a voz pequena.

Ninguém respondeu.

Levantou-se devagar. O frio mordia-lhe os pés. Na parede, os desenhos que fizera tinham desaparecido. O sol amarelo, o cão torto, o barco vermelho: tudo coberto por neve espessa. Até as fotografias estavam brancas.

Tomás sentiu um aperto estranho no peito. Correu para a cozinha.

A mãe estava sentada à mesa, de casaco vestido, as mãos em volta de uma chávena vazia. Tinha os olhos cansados.

— Mãe… o que aconteceu?

Ela demorou a responder.

— O teu avô morreu esta noite.

Tomás não compreendeu logo. As palavras ficaram no ar, suspensas, como os flocos que continuavam a cair dentro de casa. O avô tinha prometido levá-lo ao rio no domingo. Tinha prometido ensinar-lhe a assobiar com uma folha de oliveira.

— Não — disse Tomás, abanando a cabeça. — Não pode.

Então percebeu. A neve não estava realmente no quarto. Estava dentro dele.

Sentou-se ao colo da mãe e ficou quieto, a ouvir o silêncio enorme da casa. Lá fora, a chuva continuava a cair, mas Tomás jurava que o mundo inteiro tinha ficado branco naquela manhã.

 

quarta-feira, maio 20, 2026

CEC 68º/41º - 8- Texto

 

 

Leonor descobriu que era adoptada por causa de um desenho.

Tinha sete anos e estava sentada no chão da sala, rodeada de lápis partidos e folhas amarrotadas. Na escola tinham pedido uma árvore genealógica. Ela desenhara a mãe com cabelo encaracolado, o pai muito alto e um cão que parecia uma nuvem com patas.

— E eu? — perguntou, franzindo a testa. — Pareço com quem?

A pergunta ficou suspensa no ar como roupa esquecida no estendal.

Nessa noite, os pais chamaram-na para a cozinha. Havia chá a arrefecer nas chávenas e uma chuva miudinha contra os vidros.

— Há crianças que nascem da barriga — disse a mãe devagar. — E outras que nascem no coração.

Leonor ficou séria, porque as frases bonitas lhe pareciam às vezes perigosas.

O pai sorriu.

— Tu demoraste um bocadinho mais a chegar até nós.

Contaram-lhe então sobre viagens longas, papéis intermináveis e o dia em que a viram pela primeira vez: uma bebé furiosa, enrolada numa manta verde, a chorar como quem protestava contra o mundo inteiro.

— E vocês escolheram-me? — perguntou.

— Não — respondeu a mãe. — Foi mais estranho do que isso. Quando te pegámos ao colo, sentimos que já eras nossa antes mesmo de te conhecermos.

Leonor pensou um pouco. Depois correu até ao quarto e voltou com o desenho da árvore genealógica.

Pegou num lápis vermelho e desenhou raízes enormes debaixo das figuras.

— Assim fica melhor — disse.

Nessa noite, adormeceu tranquila. Pela primeira vez, percebeu que pertencer a uma família não tinha a ver com ser parecida. Tinha a ver com o lugar onde o coração descansava sem medo.

 

quarta-feira, maio 13, 2026

CNEC 68 - 41 - 7º Texto

 

 

Despediu-se dela numa estação pequena, onde os comboios passavam como animais cansados e deixavam no ar um cheiro metálico de distância. Não houve promessas. Apenas aquele abraço demorado de quem tenta decorar o corpo do outro antes da ausência.

— Volto antes do verão — disse ele.

Ela sorriu como sorri quem já conhece o peso das mentiras involuntárias.

Durante semanas, viveram de chamadas breves e fotografias desfocadas enviadas ao fim da noite. Depois veio o silêncio. Primeiro discreto, quase tímido. Mais tarde, absoluto.

Ela começou a procurá-lo nos lugares improváveis: nos cafés onde costumavam sentar‑se, nas músicas antigas do carro, nas janelas iluminadas dos prédios ao entardecer. Mas havia pessoas que desapareciam devagar, como barcos afastando-se da costa até se confundirem com o nevoeiro.

Meses depois, no último dia de agosto, ela voltou sozinha ao litoral.

A praia estava quase vazia. O vento dobrava os chapéus esquecidos na areia e o mar tinha aquela cor escura das coisas que escondem segredos.

Caminhou junto à água até avistar um homem sentado perto das rochas, de costas para ela.

Sabia que não era ele, mas o coração começou a bater com uma lentidão estranha, como se tivesse medo da verdade.

Lembrou as palavras duras ali trocadas quando ele anunciou a partida.

Então reparou nas marcas antigas na areia endurecida, nas algas presas entre as pedras, no silêncio pesado daquele lugar. E compreendeu, com uma clareza dolorosa, que não fora na estação que o perdera.

Há despedidas que acontecem muito antes das pessoas partirem.

No meio da praia, sem testemunhas além das ondas, foi onde tudo aconteceu.

 

sábado, maio 09, 2026

CNEC 68/41 - 6º Tema - Mulher acorda de repente o marido a meio da noite

 

Marta acordou o marido aos abanões.

— Bruno! Bruno, acorda!

Ele abriu um olho apenas.

— O prédio está a arder?

— Pior.

Isso acordou-o imediatamente.

— Pior que um incêndio?

Ela apontou para o corredor com ar dramático.

— Está alguém cá em casa.

Bruno suspirou. Com quinze anos de casamento, aprendera que “alguém cá em casa” podia significar um ladrão… ou um gato na varanda a olhar de forma suspeita.

Levantou-se da cama e procurou algo que pudesse servir de arma. Encontrou um guarda-chuva.

— Vais combatê-lo à chuva? — murmurou ela.

— É psicológico. — e avançou corredor fora em cuecas e meias.

A casa estava silenciosa.

Então ouviu-se um som vindo da cozinha.

Tin. Tin. Clac.

Bruno gelou.

— Estás a ouvir? — sussurrou Marta atrás dele.

— Estou.

Outro barulho.

Clac.

Ele respirou fundo e entrou na cozinha preparado para enfrentar o criminoso.

Acendeu a luz.

Silêncio.

Depois olhou para baixo.

O aspirador robô atravessava calmamente o chão, enrolado numa fita de presente vermelha que arrastava atrás de si como uma cauda.

Marta piscou os olhos.

— O que é que ele está a fazer acordado?

Bruno passou a mão pelo rosto.

— Acho que programaste a limpeza automática.

— Às três da manhã?!

O aspirador bateu contra uma cadeira, fez um bip agressivo e mudou de direção como um animal ofendido.

Bruno começou a rir. Primeiro baixinho. Depois sem conseguir parar.

Marta tentou manter a dignidade durante três segundos antes de se rir também.

Nesse instante, o aspirador avançou diretamente contra os pés de Bruno, que deu um salto tão exagerado que caiu sentado no chão.

O aparelho continuou o seu percurso triunfal pela cozinha.

Marta limpou as lágrimas do riso.

— Sabes uma coisa?

— O quê?

— Se um dia formos assassinados por eletrodomésticos, vai ser merecido.

quarta-feira, abril 29, 2026

CEC - 68/41 - 5º Texto - Relógio esquecido à entrada da Igreja

 

 

O relógio ficou esquecido no degrau de pedra à entrada da igreja, como um pequeno erro num dia que devia ser perfeito. Antigo, de bolso, com a corrente solta e o vidro marcado pelo tempo, tinha parado às 10:11 — a hora em que tudo deixou de ser o que era suposto.

Dizem que foi o noivo quem o deixou cair. Ou talvez o tenha largado sem perceber, quando o murmúrio começou a crescer dentro da igreja, como vento antes da tempestade.

A noiva entrou vestida de negro.

Não de branco, como mandava a tradição, mas de negro profundo, como se levasse o luto de algo que ainda ninguém entendia. O tecido arrastava-se pelo chão em silêncio, e cada passo parecia apagar uma expectativa. Não havia flores no cabelo. Não havia sorriso. Apenas uma calma estranha, quase luminosa.

O relógio parou nesse instante.

Ninguém soube o que aconteceu depois com clareza. Uns dizem que ela chegou ao altar e nada disse. Outros juram que sorriu — um sorriso breve, indecifrável — antes de se virar e sair, deixando tudo suspenso no ar, como uma frase interrompida.

O noivo não a seguiu.

Ficou imóvel, como o relógio.

Desde então, o objeto permanece ali, à entrada, como um vestígio desse momento que ninguém consegue terminar de contar. Durante o dia, é só um relógio esquecido. Mas à noite, quando a igreja respira o silêncio, há quem diga que ele ainda guarda aquele instante.

Se alguém o abrir, talvez veja um véu escuro a atravessar a luz.

Ou talvez sinta apenas isto: nem todos os começos pedem branco.

E há promessas que só existem quando não se cumprem.

 

quarta-feira, abril 22, 2026

CEC 68/41 - 4 - Um carro numa rua deserta

O carro avançava lentamente pela estrada deserta, como se hesitasse a cada metro percorrido. De um lado, campos secos e do outro, uma linha interminável de árvores retorcidas.

À medida que a noite caía, a estrada tornava-se ainda mais estreita, como se quisesse engolir o carro. Os faróis iluminavam apenas alguns metros à frente, revelando curvas inesperadas e sombras que pareciam mover-se por conta própria.

Foi então que o rádio começou a chiar sem motivo e uma voz atravessou a estática, baixa e irregular, como se falasse de muito longe.

“Se estás a ouvir isto, não pares.”

Ele franziu o sobrolho, ajustou o volume. A estrada permanecia vazia.

Pensou em desligar, mas a voz voltou.

“Já passaste por mim.”

Um arrepio subiu-lhe pela nuca. Olhou pelo retrovisor. Nada. Apenas o rasto escuro da estrada e a poeira suspensa, como um eco físico do movimento.

Continuou a conduzir.

Os quilómetros repetiam-se, indistintos, até que viu algo à frente: um carro parado na berma. Aproximou-se devagar. Era igual ao seu. Mesma cor, mesmo modelo.

Parou, contra o aviso da voz.

O motor desligou-se com um suspiro. Saiu, o silêncio caiu pesado à sua volta. Aproximou-se do outro carro. A porta estava entreaberta.

“Não devias ter parado.”

A voz agora vinha de trás dele.

Virou-se depressa, mas não havia ninguém. Só o seu carro… com o motor novamente ligado.

E alguém lá dentro.

A figura ao volante tinha o seu rosto, imóvel, olhando em frente como quem espera um sinal. O rádio crepitava.

Ele recuou, o coração descompassado, sem saber qual dos dois era o erro.

Então, o carro — o seu carro — arrancou sozinho, desaparecendo pela estrada como se nunca tivesse hesitado.

Ficou ali, ao lado da cópia silenciosa, com a sensação inquietante de que a viagem continuava.

Só que sem ele.

CEC - 68/41 - 3 - Quarto fechado

 

 

A casa veio na herança dos tios avós.

Era velha, mas sólida.

Hesitaram só um pouco, até optarem por deixar o pequeno apartamento arrendado na cidade. A casa ficava mais longe, mas compensava a distância com o espaço. A mudança foi rápida e só depois de instalados é que começaram a descobrir todos os cantos.

Na cave havia um quarto fechado. Aparentava estar assim há anos, talvez mesmo décadas.

Não havia chave, apenas histórias. De vizinhos e parente mais velhos ouviram que o quarto guardava riquezas esquecidas, segredos de família ou até algo perigoso demais para ser revelado. Com o passar dos anos, o mistério tinha crescido mais do que a própria casa.

Quando finalmente decidiram arrombá-la, o silêncio que antecedeu o estalo da madeira foi quase solene. A poeira levantou-se no ar enquanto a porta cedia lentamente.

Todos prenderam a respiração, preparados para encontrar qualquer coisa — exceto o que realmente estava lá dentro.

O quarto estava vazio.

Nenhum móvel, nenhum baú, nenhum vestígio de algo extraordinário. Apenas paredes nuas, marcadas pelo tempo. No chão, nada além de um leve desenho no pó, como se alguém tivesse caminhado ali há muito tempo.

A decepção espalhou-se primeiro, seguida de confusão. Como podia um espaço tão guardado não conter nada? Mas, à medida que o silêncio voltava, uma sensação diferente surgiu — algo quase inquietante.

Talvez o segredo nunca tenha sido o que estava dentro do quarto, mas o próprio ato de mantê-lo fechado. O vazio parecia carregar um peso invisível, como se todas as expectativas, medos e histórias criadas ao longo dos anos ainda habitassem aquele espaço.

E, naquele instante, perceberam: o quarto não estava vazio.

Estava cheio de tudo aquilo que nunca chegou a existir.

 

 

CEC 68/41 - 2 - Diálogo em que não dizem o que mais importa

 

Chegou antes da hora marcada pelo silêncio.
— Não havia trânsito — disse, como se a cidade tivesse aberto caminho para a ver partir mais depressa.

(Pousou as chaves. O som é pequeno, mas ficou a ecoar na mesa, como se algo tivesse sido decidido ali.)

Olhou à volta (mas não para mim)

(O relógio não marca o tempo — fere-o, segundo a segundo. Eu endireito a chávena só para tocar em alguma coisa que não doa.)

— Queres café?
— Se já estiver feito.
— Está.

 (Mas nada está pronto. Nem o café, nem nós.)

— A casa está… diferente.
— Mudei pouca coisa.
— Nota-se — disse, olhando para tudo menos para onde fomos deixados.

— E tu?
— O que tem?
— Estás… bem?
— Estou.

(Mentimos com a delicadeza de quem já treinou.)

— Recebeste a minha mensagem?
— Recebi.
— E?
— Li.

(Os meus dedos percorrem a chávena como se fosse possível ler o futuro na porcelana. Sentes isso, eu sei. Desvias o olhar.)

— Pensei que talvez…
— Não.

(A palavra cai inteira, sem piedade.)

— Certo.

(Um carro passa lá fora — leva consigo tudo o que não fomos capazes de dizer.)

— Ficas muito tempo?
— Não.
— Tens para onde ir?
— Tenho.

(Aceno. Um gesto mínimo, quase invisível — como tudo o que ainda nos resta.)

— Ainda funciona?
— O quê?
— Aquilo… que éramos.

(Olho-te, finalmente. E nesse instante, tudo volta — intacto e inútil.)

— Nunca deixou de funcionar.

(Sorris, mas falta-te metade — a parte que ficou comigo, talvez.)

— Então porquê—
— O café vai arrefecer.

(O silêncio regressa. Mais denso. Mais honesto.)

— Eu posso aquecer.
— Eu sei.

(Pego na chávena. Não bebo. Não há calor que resolva isto.)

 (O relógio continua a insistir naquilo que já acabou.)

— Bem…
— Pois.

Não voltou a pegar nas chaves.

— Adeus.
— Até logo.

(Nenhum de nós acredita.)

(E as palavras, essas, mentem por nós — com uma suavidade que quase parece verdade.)

 

 

terça-feira, abril 07, 2026

E regressou o Campeonato de Escrita Criativa CNEC 68-41 1ª Jornada Mensagem

 1º Texto


 

Foram dias estranhos com céus cinzentos escondendo sinais.

Primeiro ano na faculdade e longe de casa.

Pais ocupados com os seus trabalhos, confiando que seria igual ao irmão e logo teria um diploma.

Havia uma amiga, ou conhecida? Não tinham muito em comum. Marta, era esse o seu nome, queria deixar para trás a pessoa que fora no liceu, não lhe dava jeito nenhum que ela aparecesse a lembrar que as duas eram o inverso de populares, e se escondiam no fundo da sala e nas sombras do recreio. Marta mudara. Tanto que não eram mais as duas em nada.

Foi-lhe concedida a graça ou castigo da invisibilidade. Passava entre colegas e professores, e ninguém a via. Ouvia alguns em conversas e risos que não entendia.

Não participava nas aulas práticas, quase faltou às frequências e as notas nem lhe permitiam ir às orais. Mas disse aos pais que estava tudo bem, que como contavam, passaria de ano. Os dias iam passando e se nada sucedesse, iram saber que chumbava sem fazer nem uma cadeira.

Leu numa revista que o benuron podia matar. Um sinal também de que era o caminho certo.

Achou que seria mais fácil com álcool, embora não estivesse habituada a beber.

Faltava a mensagem, a mensagem que seria a última.

Tremia-lhe a caneta entre os dedos enquanto olhava para a folha em branco. Não sabia o que dizer.

Acabou por escrever apenas

Desculpem.

Engoliu os comprimidos, todos da caixa, com o vinho.

Pouco depois sentiu-se tão mal que achou que morria.

Vomitou.

E para cima da carta que ficou destruída.

Ainda pensou que a última mensagem acabar assim teria algum significado.

Mas por sorte nos dias que se seguiram, no resto da sua vida, deixou de ver sinais nos céus cinzentos.


quarta-feira, maio 29, 2024

CNEC 68/40 - 6/10

 

Antigamente teria sido um edifício imponente. O velho Silo alojara lojas no rés-do-chão e os vários andares serviam de parque.

Com o tempo fecharam as lojas e anunciava-se a sua demolição.

Eram poucos os que ali vinham e praticamente todos evitavam o velho elevador preferindo as escadas. Tinham havido um ou dois acidentes com aquele e desaparecimentos inexplicáveis.

Seria o seu ar desarranjado ou a sombra desses boatos que o deixavam parado, mas ele tinha fome e aguardava que algum solitário o chamasse.

Numa tarde de chuva um casal de idade levou para ali o carro. O senhor andava devagar agarrado à sua dignidade, a senhora recorria já a uma bengala. Seria para eles difícil ir pelas escadas e chamaram o elevador. Ruidosamente subiu da cave até eles, abriu a porta e deixou-os entrar.

Ouviu-se então um “segurem o elevador” e a senhora com a bengala impediu a porta de fechar, para que entrasse um casal jovem de dois rapazes enamorados. Juntos desafiavam o mundo felizes na sua paixão recente.

Queria o elevador devorar os primeiros convencido que nenhuma falta faziam, mas um acidente que envolvesse também o novo par, podia até precipitar a destruição do prédio. Hesitou e parou com um estremecimento entre dois andares.

Querem ver que isto parou? Comentou um dos rapazes, enquanto pressionava o botão de alarme, sem que alguma resposta obtivesse.

O outro sofria de claustrofobia. A senhora apercebendo-se, agarrou na mão dele e disse-lhe com uma voz doce: serão só uns minutos de certeza.

O marido puxou do telemóvel para pedir ajuda e para que se acalmassem resolveu contar como sobrevivera a um quase acidente de avião.

A história não fazia sentido e prolongou-se mais de uma hora até que mesmo o elevador se entediou.

Vagarosamente levou-os ao rés-do chão e deixou-os sair ilesos.

 

quarta-feira, maio 22, 2024

CNEC 68/40 - 5/10

  

Namoravam há três anos e Romeu não tinha qualquer dúvida que era com Eva que queria passar o resto da sua vida, mas para ele estava tudo bem como estava. Moravam juntos, mas podia escapulir-se a chatices e jantares com a família dela e ir ficar antes com os seus amigos. Afinal, não eram casados.

Já Eva sonhava com a festa, e queria ter filhos, mas depois de casada.

Todavia, não queria ser ela a declarar-se. Queria o quadro completo, em que ele até dobrasse um joelho e lhe oferecesse um anel.

Se lhe mostrava fotografias de vestidos ou cerimónias ele parecia nem as ver. Tinham ido a dois ou três casamentos de amigos comuns e ele saíra-se com piadinhas sem graça sobre os enforcados.

Eva preparou então um plano infalível. Para lhe causar ciúmes, inventou um colega do trabalho, o João. Face ao desinteresse de Romeu, foi exagerando nas qualidades e no interesse que aquele lhe votava, até que a certa altura conseguiu que desconfiasse de alguma coisa. Quando aguardava que a insegurança o conduzisse finalmente ao acto mais esperado, Romeu disse-lhe que queria conhecer o João.

Foi preciso arranjar um João. Felizmente a empresa onde estava era bem grande e trabalhava lá o primo do cunhado de uma amiga que por coincidência se chamava mesmo João.

Tiveram de encontrar-se algumas vezes para que o preparasse sobre tudo de maravilhoso que o João tinha dito e feito. Ele foi super simpático e disponível, aderindo ao que ela lhe pediu.

Chegou finalmente o dia para o apresentar ao Romeu.

Este foi muito desagradável para com o João. Eva sentiu-se envergonhada. Não gostou dos ares de posse que Romeu então lhe demonstrou.

Dias depois, convidou-a para um jantar especial. Adivinhou que ele se ia declarar, mas antes fugiu com o João.

quarta-feira, maio 15, 2024

CNEC 68/40 - 4/10

 

Perfilavam-se orgulhosos cientes da sua importância.

Logo seriam escolhidos.

 

Tinha só uma pequena ideia do que o esperava.

Rumores e boatos seriam mais de mil, mas fosse como fosse, estaria à altura dos acontecimentos.

Chegara ali com alguns dos seus colegas num transporte fechado.

Quando dera por si, vira-se num espaço pouco iluminado e barulhento, rodeado pelo cheiro delicioso a pipocas. Sabia que iria acolhê-las, com sal ou açúcar e seria ele a levá-las depois. Viu tal suceder com os primeiros da fila. Bípedes chegavam até, lá esperavam em linha, recebiam os primeiros das filas, com diversos tamanhos, já a envolverem as pipocas e seguiam em direção ao mundo.

Ao chegar a sua vez, viu-se qualificado como pequeno (de certeza que não pensava assim de si próprio, ao ver-se como único e tão especial como todos ou outros) logo o esqueceu ao ver-se preenchido pelas pipocas doces. Sentia o seu calor morno e o cheiro do açúcar. Firmemente agarrado por quem o escolhera para transportar as pipocas, percebeu que afinal seguiam para outra sala mais escura, que pouco a pouco se enchia de bípedes iguais a ele, talvez sacerdotes, que de forma organizada se foram sentando, todos voltados para o altar.

Cedo este incendiou-se. Seria talvez uma janela para o mundo? Cores intensas sucederam-se, acompanhadas de sons diferenciados, às vezes ensurdecedores. Alguns dos bípedes riam, outros proferiam expressões de espanto ou adoração. Enquanto isso o seu bípede começou a devorar as pipocas.

Quando não restava mais nenhuma, o altar apagou-se. Desfeita a ordem todos se precipitavam para a saída.

Foi então que, horror dos horrores, o bípede que o trouxera ali, o dobrou e amachucou e o lançou para um balde escuro.

Terminaria ali a sua vida se não fosse salvo pela reciclagem…

 

quinta-feira, maio 09, 2024

CNEC 68/40 - 3/10

Meu Caro Mundo

 

Escrevo esta carta como uma expressão de admiração por sua constante inquietação. Devo confessar que observar a sua agitação é um deleite para mim, pois vejo as sementes da tentação florescendo em cada esquina da sua existência.

Você e eu, estamos entrelaçados em uma dança eterna. Onde há luz, eu lanço sombras. Onde há esperança, sussurro dúvidas. É uma relação fascinante, não acha?

Você, Mundo, é um terreno fértil para meus planos. Sua busca incessante por poder, riqueza e prazer é um convite aberto para minha influência. Suas guerras, suas injustiças, suas ambições desenfreadas – todas elas são notas em uma sintonia da qual eu sou o maestro invisível.

Você me fascina com sua capacidade de autodestruição disfarçada de progresso. Suas tecnologias que aproximam as pessoas também as afastam. Seus ideais de liberdade muitas vezes se transformam em correntes mais apertadas. Cada passo adiante parece ser seguido por dois passos para trás.

Mas não me interprete mal. Não estou aqui apenas para criticar. Na verdade, sou um catalisador do seu livre-arbítrio. A escolha foi sempre sua. A liberdade de decidir entre o certo e o errado é o que torna nossa relação tão intrigante.

Enquanto você luta com suas contradições, suas guerras internas e suas buscas intermináveis, estarei aqui, observando e, às vezes, dando um pequeno empurrão. Minha presença é constante, mas minha influência depende de suas próprias escolhas.

Portanto, Mundo, continue com sua jornada tumultuosa. Continue a desvendar os mistérios do universo. Saiba que estarei ao seu lado, presente em cada beco escuro da sua existência, desafiando sua moralidade e testando sua força.

Com ardente curiosidade

O Diabo

quarta-feira, abril 24, 2024

CNEC 68/40 - 2/10

 

 

Pouco se lembrava da tia-avó. Vinha-lhe à ideia uma senhora magrinha e baixinha, que pouco falava, mas parecia bondosa.

Teria estado presente em festas dos avós até que estes morreram.

Não sabia sequer que ainda era viva, até ser confrontado com a notícia de que tinha morrido e que ele era o único herdeiro.

Havia um valor depositado no Banco, “o poucochinho que ela poupou”, disse-lhe o Notário com um ar triste e sério.

Era preciso entregar a casa arrendada ao senhorio. Entrou lá pela primeira vez para escolher o que era para dar - praticamente tudo, móveis e roupas velhos. No entanto, descobriu também num guarda-fatos, um álbum de fotografias.

Apesar de não saber bem o que fazer com ele, resolveu trazê-lo consigo.

Na sua casa e com mais tempo pegou nele. As fotografias eram bem antigas. A preto e branco, mais amarelo que branco, pela acção do tempo, chegaram até ele imagens de desconhecidos, em fatos domingueiros e poses rígidas. Seriam da sua família? Pais, avós ou tios da tia-avó? Seria ela a criança que a mãe forçava a estar na cadeira? Via-se a mão direita da senhora de vestido comprido e de corpete a prender pelo ombro a menina que não olhava para ele, mas para o lado. Quereria fugir dali ou descobrir o que ficava além?

Até que na penúltima página se viu a si próprio. Tinha um corte de cabelo diferente e as mesmas roupas e pose dos demais, mas o olhar era diferente de todos os outros. Dir‑se‑ia que sorria e lhe ia piscar o olho.

Por essa fotografia, não deitou o álbum fora. Queria descobrir quem era aquele homem, tão parecido consigo.

Descobri-lo fê-lo também sentir que algo o ligava aos fotografados, a razão para ter sido o álbum precioso para a tia-avó.

 

 

quarta-feira, abril 17, 2024

CNEC 68/40 - 1/10

 

É louca.

Espreitou-a pela janela fechada.

Dançava na rua descalça, não parecia sentir os pés feridos pelas pedras nem a chuva gelada.

Pareceu-lhe que ria, julgou ouvir o seu riso.

É louca.

Porquê avó, porquê tia?

Não é conversa para crianças, vai brincar com a tua boneca.

Mas ouvia-as a falar, a avó, a tia e outras mulheres.

Até fora boa rapariga, mas fraca da cabeça.

Não o dizia, mas pensava, porquê?

Uma prima mais velha contou-lhe um dia, como vez após vez o seu ventre não segurava os bebes que perdia. O homem dela largou-a e passou a fingir barrigas.

É louca.

Terminadas as férias voltou para casa da mãe. Não voltou à aldeia, em férias divididas pelo divórcio dos pais.

Não soube o que aconteceu àquela mulher, a louca. Se se curou ou morreu e não pensava nela há anos.

Mas ali, lembrou-se.

Depois de consultas e esperas em salas cheias de grávidas, confirmando-se que o tempo o permitia, deram-lhe um comprimido.

Não hesitou. A decisão estava tomada. Não era programado ou desejado, ninguém o queria, não havia tempo nem dinheiro. Tão fácil assassinar um filho que não o seria. Avisaram-na das contrações para expelir o feto.

Foi até lá só

e regressou

sozinha.

No seu carro, antes de ligar o motor, pensou, está feito.

Lembrou-se então da louca, a dançar à chuva, louca pelos bebes que perdera e queria. Por instantes, pareceu-lhe que fora certo e com sentido, algo devia marcar que tinham existido, que não eram nada.

Depois enfiou essas ideias e memórias na gaveta fechada das mágoas adiadas para que a vida siga.

Até um dia.

quarta-feira, março 20, 2024

CNEC 67/39 - 10/10

 

 

Estávamos no Verão, mas o céu era de azul carregado e o sol nunca parecera tão distante e indiferente ao que se passa na Terra.

Pouco dormira naquela noite e quando me levantei tudo me pesava.

Estacionei o carro não muito perto, mas apesar dos meus passos arrastados, era como que puxado para aquele edifício cinzento. Nenhum cataclismo me iria impedir de lá chegar, nenhum motivo surgira para o postergar.

Reparei então na jovem à minha frente. Dir-se-ia que saltitava e quase não acreditei quando percebi que íamos para o mesmo local.

Vi como sorria à funcionária que lhe veio abrir a porta e desaparecia lá dentro.

Pouco depois fui eu que cheguei à porta e tive de entrar.

Era a minha primeira vez ali. Respondi às questões em falta para completar a minha ficha e sentei-me à espera.

Parecia impossível como lá fora a vida continuava. Ali dentro tudo parecia ter parado. Cada vez mais distante do antes, não conseguia sequer sonhar com o depois, tanto me preocupava o durante.

A funcionária veio dizer que era a minha vez e fiquei em choque. Não vira a jovem saltitante sair. Não percebia como podia ter passado por mim sem que eu reparasse nela, e sem assistir à sua saída não tivera mais alguns necessários segundos para me preparar para a minha iminente entrada.

A funcionária conduziu-me à sala, indicou-me a cadeira onde me sentei, senti o cheiro do desinfectante, vi-me rodeada de brocas e instrumentos parecidos próprios daquela sala de horror.

Veio então a Srª Drª e nela reconheci a jovem saltitante. Estava desvendado o mistério, como conseguia ela sorrir assim.

Sem queixas, nem cáries, não foi tão demorado o durante.

Lá fora o mundo mudara e esperava-me um dia bom, mesmo que chovesse, haveria sol leve, quente e brilhante.

quinta-feira, março 14, 2024

CNEC 67/39 - 9/10

 

 

 

Durante anos ele marcou a passagem do tempo, sem se enganar ou se atrasar um segundo que fosse, sublinhou todas as horas, “dong, dong, dong”, um som melodioso e audível, companhia de todos os dias

Tinha o seu lugar na sala de estar, pendurado na parede, entre os quadros de molduras douradas e paisagens bucólicas. Espreitou as visitas que se sentavam nos sofás. Reparou como foram rareando, assim como o tom do tecido rosa dos sofás ia ficando esbatido e os cortinados menos transparentes.

O Rique, filho do casal, foi estudar para fora, formou-se doutor, passou a morar longe.

Ao Sr. Doutor que pouco parava em casa, a reforma caiu mal, também ele desapareceu.

Ficou só a Dona Ema. Era ela que lhe dava corda, cada dia, pelas três da tarde, logo a seguir ao “dong, dong, dong” com que a saudava. Ouvia os seus passos leves, via-a a olhar para si, sentia as suas mãos suaves a trazerem-lhe força para continuar sempre, sem se atrasar.

Até àquele dia.

A humidade infiltrara-se pela parede, escondida pelo papel de parede rosa e pela estante, foi corroendo o estuque do parafuso que o suportava. Antes das quinze horas, e a casa no maior silêncio, viu-se a cair no chão desemparado, com estrondo.

A Dona Ema queria socorre-lo, mas já não andava muito bem. Não ligara aos suores frios, à dor no braço. Estava tão frágil que o inesperado foi suficiente para a fazer cair sobre o sofá. Quem iria valer-lhes aos dois?

Por sorte vivia ao lado uma amiga. Mais que o estrondo, estranhou a falta do “dong, dong, dong”. Ligou à Dona Ema e ao 112.

O médico disse depois à D. Ema que por pouco que se salvara, mais uns dias, seria tarde demais.

O relógio avariado foi também concertado.

 

quinta-feira, março 07, 2024

CNEC 67/39 - 8/10

 

De manhã o pai disse:

- Vamos à praia!

Tivera uma pequenina esperança que no fim-de-semana a pudessem deixar tranquila no seu canto.

Havia sol, mas estava ainda fresco e podia levantar-se a nortada. Se assim fosse, não poderiam estar lá muito tempo. Ao menos isso.

Na cozinha a mãe preparava parte da merenda, sumo de laranja e sandes de paio. Jaime, o mais novo de sete anos que detestava a escola e era sempre difícil arrancar da cama, saltou como se tivesse uma mola. Rique dois anos mais velho também aderiu ao plano. Só ela pelos vistos preferiria ficar em casa. Se ao menos se esquecessem dela.

Tralhas enfiadas no carro, o Rique fez questão de a ir buscar e de que no carro ficasse entre ele e o Jaime.

O pai, no lugar do condutor, olhou para eles do espelho retrovisor para confirmar que estavam todos e ligou o motor.

Apanharam filas de trânsito e calor, mas nada de vento e conseguiram um bom lugar no estacionamento. Jaime e Rique empurraram-na praia abaixo, enquanto os pais traziam as toalhas, guarda-sol e merenda.

Os miúdos quiseram ir molhar os pés, o pai foi com eles, e esqueceram-se dela na areia, ao lado da mãe que ficou a estender as toalhas.

Talvez pudesse dormitar um pouco debaixo do sol.

Foi então que ouviu ladrar e cada vez mais perto. Um monstro peludo veio até ela e, horror dos horrores, mordeu-a!

“Ai quem me salva, estou perdida”

Veio a mãe em seu socorro:

- Cão mau, larga a bola! E ele largou-a.

Estava meio rebentada, mas iam concertá-la disse o pai.

Talvez não fosse tão mau andar a correr antes com os miúdos, mesmo que a pontapeassem, pelo menos não a mordiam.

quinta-feira, fevereiro 29, 2024

CNEC 67/39 - 7/10

 

Talvez não jogassem grande coisa.

Talvez fossem um pouco chatos a pedir para que os deixassem jogar.

Mas ainda assim, tinha sido uma grande injustiça!

Disseram-lhes que estavam fora, que tinham de ir embora, não os queriam ali a pedinchar, como se eles pedinchassem, e expulsaram-nos do recinto.

Ficaram de fora.

Grandes estacas de madeira contornavam todo o campo e do velho portão de ferro não tinham vista, ficava demasiado longe e de lado para lhes permitir ver alguma coisa.

Do lado das estacas mais próximo, conseguiam ouvir gritos de passa a bola, imaginavam a poeira levantada pelos chutes de rapazes na bola e nas canelas uns dos outros, os empurrões, a animação quando algum se aproximava da baliza, os gritos de festejo “golo”, “golo”.

Queriam estar lá. Se não a jogar, pelo menos a ver, a torcer e a participar.

Foi então que o Jaime reparou em dois buracos nas estacas, ao mais alto não chegavam, ao mais baixo tinham de se pôr de gatas. Foi o que experimentaram fazer e de quase irmãos, solidários na expulsão, quase passavam a inimigos, porque o buraco não dava para que por ele espreitassem ao mesmo tempo.

O Jaime teve então uma ideia e para compensar um último empurrão mais forte, ofereceu-se para ser ele a ficar primeiro de gatas. Subiu-lhe para as costas e sentiu-se um rei. Via o campo todo. Enfim podiam os dois ver o campo todo, à vez, de cima ou de baixo. Não os tinham vencido, ele o Jaime é que ganharam a todos eles, hoje viam o jogo, e amanhã talvez conseguissem jogar.