quarta-feira, abril 29, 2026

CEC - 68/41 - 5º Texto - Relógio esquecido à entrada da Igreja

 

 

O relógio ficou esquecido no degrau de pedra à entrada da igreja, como um pequeno erro num dia que devia ser perfeito. Antigo, de bolso, com a corrente solta e o vidro marcado pelo tempo, tinha parado às 10:11 — a hora em que tudo deixou de ser o que era suposto.

Dizem que foi o noivo quem o deixou cair. Ou talvez o tenha largado sem perceber, quando o murmúrio começou a crescer dentro da igreja, como vento antes da tempestade.

A noiva entrou vestida de negro.

Não de branco, como mandava a tradição, mas de negro profundo, como se levasse o luto de algo que ainda ninguém entendia. O tecido arrastava-se pelo chão em silêncio, e cada passo parecia apagar uma expectativa. Não havia flores no cabelo. Não havia sorriso. Apenas uma calma estranha, quase luminosa.

O relógio parou nesse instante.

Ninguém soube o que aconteceu depois com clareza. Uns dizem que ela chegou ao altar e nada disse. Outros juram que sorriu — um sorriso breve, indecifrável — antes de se virar e sair, deixando tudo suspenso no ar, como uma frase interrompida.

O noivo não a seguiu.

Ficou imóvel, como o relógio.

Desde então, o objeto permanece ali, à entrada, como um vestígio desse momento que ninguém consegue terminar de contar. Durante o dia, é só um relógio esquecido. Mas à noite, quando a igreja respira o silêncio, há quem diga que ele ainda guarda aquele instante.

Se alguém o abrir, talvez veja um véu escuro a atravessar a luz.

Ou talvez sinta apenas isto: nem todos os começos pedem branco.

E há promessas que só existem quando não se cumprem.

 

2 comentários:

  1. Bemmmm...!
    Espetacular!
    E, sim. Há promessas assim.

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  2. Promessas por cumprir é o que mais há! 😀
    Narrativa muito expectante.
    Afinal havia outra ou outro?

    Abraço

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