sábado, maio 09, 2026

CNEC 68/41 - 6º Tema - Mulher acorda de repente o marido a meio da noite

 

Marta acordou o marido aos abanões.

— Paulo! Paulo, acorda!

Ele abriu um olho apenas.

— O prédio está a arder?

— Pior.

Isso acordou-o imediatamente.

— Pior que um incêndio?

Ela apontou para o corredor com ar dramático.

— Está alguém cá em casa.

Paulo suspirou. Com quinze anos de casamento, aprendera que “alguém cá em casa” podia significar um ladrão… ou um gato na varanda a olhar de forma suspeita.

Levantou-se da cama e procurou algo que pudesse servir de arma. Encontrou um guarda-chuva.

— Vais combatê-lo à chuva? — murmurou ela.

— É psicológico. — e avançou corredor fora em cuecas e meias.

A casa estava silenciosa.

Então ouviu-se um som vindo da cozinha.

Tin. Tin. Clac.

Paulo gelou.

— Estás a ouvir? — sussurrou Marta atrás dele.

— Estou.

Outro barulho.

Clac.

Ele respirou fundo e entrou na cozinha preparado para enfrentar o criminoso.

Acendeu a luz.

Silêncio.

Depois olhou para baixo.

O aspirador robô atravessava calmamente o chão, enrolado numa fita de presente vermelha que arrastava atrás de si como uma cauda.

Marta piscou os olhos.

— O que é que ele está a fazer acordado?

Paulo passou a mão pelo rosto.

— Acho que programaste a limpeza automática.

— Às três da manhã?!

O aspirador bateu contra uma cadeira, fez um bip agressivo e mudou de direção como um animal ofendido.

Paulo começou a rir. Primeiro baixinho. Depois sem conseguir parar.

Marta tentou manter a dignidade durante três segundos antes de se rir também.

Nesse instante, o aspirador avançou diretamente contra os pés de Paulo, que deu um salto tão exagerado que caiu sentado no chão.

O aparelho continuou o seu percurso triunfal pela cozinha.

Marta limpou as lágrimas do riso.

— Sabes uma coisa?

— O quê?

— Se um dia formos assassinados por eletrodomésticos, vai ser merecido.

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