Marta acordou o marido aos abanões.
— Paulo! Paulo, acorda!
Ele abriu um olho apenas.
— O prédio está a arder?
— Pior.
Isso acordou-o imediatamente.
— Pior que um incêndio?
Ela apontou para o corredor com ar dramático.
— Está alguém cá em casa.
Paulo suspirou. Com quinze anos de casamento, aprendera que “alguém cá em
casa” podia significar um ladrão… ou um gato na varanda a olhar de forma
suspeita.
Levantou-se
da cama e procurou algo que pudesse servir de arma. Encontrou um guarda-chuva.
— Vais combatê-lo
à chuva? — murmurou ela.
— É psicológico. — e avançou corredor fora em cuecas e meias.
A casa estava silenciosa.
Então ouviu-se um som vindo da cozinha.
Tin. Tin. Clac.
Paulo gelou.
— Estás a ouvir? — sussurrou Marta atrás dele.
— Estou.
Outro barulho.
Clac.
Ele respirou fundo e entrou na cozinha preparado para enfrentar o criminoso.
Acendeu a luz.
Silêncio.
Depois olhou para baixo.
O aspirador robô atravessava calmamente o chão, enrolado numa fita de
presente vermelha que arrastava atrás de si como uma cauda.
Marta piscou os olhos.
— O que é que ele está a fazer acordado?
Paulo passou a mão pelo rosto.
— Acho que programaste a limpeza automática.
— Às três da manhã?!
O aspirador bateu contra uma cadeira, fez um bip agressivo e mudou de
direção como um animal ofendido.
Paulo começou a rir. Primeiro baixinho. Depois sem conseguir parar.
Marta tentou manter a dignidade durante três segundos antes de se rir
também.
Nesse instante, o aspirador avançou diretamente contra os pés de Paulo, que
deu um salto tão exagerado que caiu sentado no chão.
O aparelho continuou o seu percurso triunfal pela cozinha.
Marta limpou as lágrimas do riso.
— Sabes uma coisa?
— O quê?
— Se um dia formos assassinados por eletrodomésticos, vai ser merecido.
Sem comentários:
Enviar um comentário