quarta-feira, maio 20, 2026

CEC 68º/41º - 8- Texto

 

 

Leonor descobriu que era adoptada por causa de um desenho.

Tinha sete anos e estava sentada no chão da sala, rodeada de lápis partidos e folhas amarrotadas. Na escola tinham pedido uma árvore genealógica. Ela desenhara a mãe com cabelo encaracolado, o pai muito alto e um cão que parecia uma nuvem com patas.

— E eu? — perguntou, franzindo a testa. — Pareço com quem?

A pergunta ficou suspensa no ar como roupa esquecida no estendal.

Nessa noite, os pais chamaram-na para a cozinha. Havia chá a arrefecer nas chávenas e uma chuva miudinha contra os vidros.

— Há crianças que nascem da barriga — disse a mãe devagar. — E outras que nascem no coração.

Leonor ficou séria, porque as frases bonitas lhe pareciam às vezes perigosas.

O pai sorriu.

— Tu demoraste um bocadinho mais a chegar até nós.

Contaram-lhe então sobre viagens longas, papéis intermináveis e o dia em que a viram pela primeira vez: uma bebé furiosa, enrolada numa manta verde, a chorar como quem protestava contra o mundo inteiro.

— E vocês escolheram-me? — perguntou.

— Não — respondeu a mãe. — Foi mais estranho do que isso. Quando te pegámos ao colo, sentimos que já eras nossa antes mesmo de te conhecermos.

Leonor pensou um pouco. Depois correu até ao quarto e voltou com o desenho da árvore genealógica.

Pegou num lápis vermelho e desenhou raízes enormes debaixo das figuras.

— Assim fica melhor — disse.

Nessa noite, adormeceu tranquila. Pela primeira vez, percebeu que pertencer a uma família não tinha a ver com ser parecida. Tinha a ver com o lugar onde o coração descansava sem medo.

 

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