Leonor descobriu que era adoptada por causa de um desenho.
Tinha sete anos e estava sentada no chão da sala, rodeada de lápis partidos
e folhas amarrotadas. Na escola tinham pedido uma árvore genealógica. Ela
desenhara a mãe com cabelo encaracolado, o pai muito alto e um cão que parecia
uma nuvem com patas.
— E eu? — perguntou, franzindo a testa. — Pareço com quem?
A pergunta ficou suspensa no ar como roupa esquecida no estendal.
Nessa noite, os pais chamaram-na para a cozinha. Havia chá a arrefecer nas
chávenas e uma chuva miudinha contra os vidros.
— Há crianças que nascem da barriga — disse a mãe devagar. — E outras que
nascem no coração.
Leonor ficou séria, porque as frases bonitas lhe pareciam às vezes
perigosas.
O pai sorriu.
— Tu demoraste um bocadinho mais a chegar até nós.
Contaram-lhe então sobre viagens longas, papéis intermináveis e o dia em que
a viram pela primeira vez: uma bebé furiosa, enrolada numa manta verde, a
chorar como quem protestava contra o mundo inteiro.
— E vocês escolheram-me? — perguntou.
— Não — respondeu a mãe. — Foi mais estranho do que isso. Quando te pegámos
ao colo, sentimos que já eras nossa antes mesmo de te conhecermos.
Leonor pensou um pouco. Depois correu até ao quarto e voltou com o desenho
da árvore genealógica.
Pegou num lápis vermelho e desenhou raízes enormes debaixo das figuras.
— Assim fica melhor — disse.
Nessa noite, adormeceu tranquila. Pela primeira vez, percebeu que pertencer
a uma família não tinha a ver com ser parecida. Tinha a ver com o lugar onde o
coração descansava sem medo.
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