Despediu-se
dela numa estação pequena, onde os comboios passavam como animais cansados e
deixavam no ar um cheiro metálico de distância. Não houve promessas. Apenas
aquele abraço demorado de quem tenta decorar o corpo do outro antes da ausência.
— Volto
antes do verão — disse ele.
Ela sorriu
como sorri quem já conhece o peso das mentiras involuntárias.
Durante
semanas, viveram de chamadas breves e fotografias desfocadas enviadas ao fim da
noite. Depois veio o silêncio. Primeiro discreto, quase tímido. Mais tarde,
absoluto.
Ela começou
a procurá-lo nos lugares improváveis: nos cafés onde costumavam sentar‑se, nas
músicas antigas do carro, nas janelas iluminadas dos prédios ao entardecer. Mas
havia pessoas que desapareciam devagar, como barcos afastando-se da costa até
se confundirem com o nevoeiro.
Meses
depois, no último dia de agosto, ela voltou sozinha ao litoral.
A praia
estava quase vazia. O vento dobrava os chapéus esquecidos na areia e o mar
tinha aquela cor escura das coisas que escondem segredos.
Caminhou
junto à água até avistar um homem sentado perto das rochas, de costas para ela.
Sabia que
não era ele, mas o coração começou a bater com uma lentidão estranha, como se
tivesse medo da verdade.
Lembrou as
palavras duras ali trocadas quando ele anunciou a partida.
Então
reparou nas marcas antigas na areia endurecida, nas algas presas entre as pedras,
no silêncio pesado daquele lugar. E compreendeu, com uma clareza dolorosa, que
não fora na estação que o perdera.
Há
despedidas que acontecem muito antes das pessoas partirem.
No meio da
praia, sem testemunhas além das ondas, foi onde tudo aconteceu.
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