quarta-feira, maio 13, 2026

CNEC 68 - 41 - 7º Texto

 

 

Despediu-se dela numa estação pequena, onde os comboios passavam como animais cansados e deixavam no ar um cheiro metálico de distância. Não houve promessas. Apenas aquele abraço demorado de quem tenta decorar o corpo do outro antes da ausência.

— Volto antes do verão — disse ele.

Ela sorriu como sorri quem já conhece o peso das mentiras involuntárias.

Durante semanas, viveram de chamadas breves e fotografias desfocadas enviadas ao fim da noite. Depois veio o silêncio. Primeiro discreto, quase tímido. Mais tarde, absoluto.

Ela começou a procurá-lo nos lugares improváveis: nos cafés onde costumavam sentar‑se, nas músicas antigas do carro, nas janelas iluminadas dos prédios ao entardecer. Mas havia pessoas que desapareciam devagar, como barcos afastando-se da costa até se confundirem com o nevoeiro.

Meses depois, no último dia de agosto, ela voltou sozinha ao litoral.

A praia estava quase vazia. O vento dobrava os chapéus esquecidos na areia e o mar tinha aquela cor escura das coisas que escondem segredos.

Caminhou junto à água até avistar um homem sentado perto das rochas, de costas para ela.

Sabia que não era ele, mas o coração começou a bater com uma lentidão estranha, como se tivesse medo da verdade.

Lembrou as palavras duras ali trocadas quando ele anunciou a partida.

Então reparou nas marcas antigas na areia endurecida, nas algas presas entre as pedras, no silêncio pesado daquele lugar. E compreendeu, com uma clareza dolorosa, que não fora na estação que o perdera.

Há despedidas que acontecem muito antes das pessoas partirem.

No meio da praia, sem testemunhas além das ondas, foi onde tudo aconteceu.

 

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