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São 22h59.
O telemóvel
vibra pela última vez. Não há sirenes, nem trombetas, nem fogo a rasgar o céu.
Apenas uma notificação enviada para todos os países, em todas as línguas:
“Às 23h59, o
mundo terminará.”
Miguel lê a
frase três vezes, como quem espera encontrar um erro ortográfico que salve a
humanidade.
Clara lê-a
sentada num banco de jardim. Depois
olha em volta, desconfiada, mas a noite continua azul-escura e as árvores
continuam a derramar folhas sobre os carros.
Há roupa
esquecida nos estendais a respirar o vento. Um semáforo permanece vermelho para
carros que já não conhecerão amanhã.
A mãe de
Miguel telefona.
— Vens cá?
Ele quase
responde “amanhã”, mas a palavra morreu primeiro.
Sai para a
rua. Há pessoas a correr para algum lado e outras completamente imóveis, como
estátuas cansadas. Um grupo canta na praça. Vê casais abraçados como náufragos.
Um rapaz rouba flores de um jardim para as oferecer a desconhecidos.
Clara decide
caminhar até ao mar. Sempre acreditou que os finais pertencem à água.
O mar aparece enfim diante dela: negro,
imenso, respirando devagar. Clara pensa em todas as coisas pequenas que nunca
salvou — cartas por enviar, beijos adiados, domingos desperdiçados.
Às 23h32,
Miguel chega a casa da mãe. Ela fez arroz-doce.
Comem
devagar. Pela primeira vez em anos, conversam sem pressa. Falam do pai, dos
verões antigos, da chávena partida que nenhum dos dois deitou fora.
Às 23h58, a
eletricidade falha. A cidade mergulha numa escuridão mansa. Miguel segura a mão
da mãe. Clara senta-se na areia molhada.
Então,
algures, alguém começa a tocar piano. Mais longe, alguém bate palmas.
O mundo
inteiro prende a respiração.
E o planeta, condenado e belo, termina como uma canção que não queria acabar — estranhamente menos assustador no fim do que algumas vezes pareceu no princípio.