
"Quem tropeça é sempre alguém que se distrai a olhar para as estrelas" Vladimir Nabokov (nome do blogue veio do livro para crianças de Virgínia de Castro e Almeida)
Natal
Num tempo em que o Natal não era o
que é hoje (embora o que é hoje não o seja para todos) o que reunia as famílias
à mesa era celebrar um nascimento.
No hoje, trocam-se prendas, enchem-se
as ceias com polvo ou bacalhau, aletria ou arroz doce, filhoses e rabanadas, os
dias mais curtos são iluminados pelas decorações nas casas e nas ruas, corre-se
antes e depois, nas preparações, trocas e promoções.
Para as crianças mais pequenas o Natal
deveria chegar com calor, comida e presentes, mesmo às casas sem chaminé onde
um Pai Natal não caberia, e para elas deveria haver sempre alguém que fosse
casa.
E no fundo todos sabemos que o
importante é estar com aqueles de quem gostamos.
Era noite de Natal e estavam já
mais do lado de lá do que de cá - Pais, marido, um dos filhos, as suas amigas
de infância - restava a filha preterida e a filha desta, as duas fechadas e caladas.
No final de contas eram três mulheres
solitárias, em três idades da vida, a encontrarem-se numa casa velha pelo peso
de uma tradição vazia ou por não terem encontrado uma alternativa.
Havia comida, prendas em dinheiro
para a neta, nada de decorações, que ali não havia crianças, e para ela, o peso
da assombração da memórias de natais passados, a falta e a saudade daqueles que
lhe morreram.
A filha começou a falar dos planos que
tinha para a empresa. A neta mergulhada no telemóvel, consolava-se com a ideia
do que iria passar o dia 25 com o pai e a nova madrasta e poderia depois era
estar com os amigos em planos para a passagem do ano.
A voz monocórdica da filha e a
pouca luz da sala começaram a ensoná-la.
Não queria dar parte de fraca e esforçava-se
por permanecer acordada quando um relâmpago e um estrondo do lado da lareira a
despertaram. À frente delas abria-se um portal.
Soube com uma certeza inexplicável
que podiam passar para o outro lado.
Apesar de mais ágil e aventureira
recuou a neta agarrada às suas perspetivas -
na passagem do ano ia finalmente assumir a relação com o Flávio, o outro
lado nebuloso e desconhecido nada lhe prometia.
A filha cética e ocupada com os
negócios queria era fechar aquele buraco estranho que não compreendia.
Só ela, com o vagar que as suas articulações
lhe permitiam, se levantou na poltrona onde quase dormitara e avançou na
direção da lareira.
O portal aumentara para as
dimensões de uma porta, do lado de lá ondulavam cores, mas nada de nítido se via
ou percebia. Talvez fosse a sua morte, talvez reencontrasse os pais, ou a si
numa outra idade, ou se tratasse de um outro mundo.
Ainda conseguiu dar três passos
quando sentiu que a filha e a neta a agarravam. Queria que a largassem, ouviu
as suas vozes alarmadas, “mãe” e “avó”, chamavam por ela. Não queriam que atravessasse
para o outro lado, não queriam perdê-la. E não era para a contrariarem, mas por
gostarem dela.
Conseguiram trazê-la de volta para
o sofá, viu que portal se encerrava e desaparecia,
cansada pelo esforço, quase luta que perdera, fechou os olhos por instantes.
Quando voltou a abri-los, voltara a
filha a falar da empresa e a neta a mergulhar no telemóvel. Representavam que
nada se passara. Ainda meio dececionada resolveu desculpá-las porque afinal tinham agido por amor e era Natal.
E
A
Loja dos Natais Esquecidos
Naquela rua estreita, onde as lojas fechavam cada vez mais cedo e os vizinhos quase já não se cumprimentavam, existia uma pequena loja de antiguidades que parecia ter ficado esquecida no tempo.
Chamava-se
«O Tempo das Coisas» e pertencia a Gabriel, um homem de sessenta anos que
afirmava não vender objectos, mas histórias. Tinha relógios que já não marcavam
as horas, molduras ornamentadas sem fotografias, bonecas de porcelana, brinquedos
de corda e caixas de madeira cujo conteúdo ninguém conhecia.
Na
véspera de Natal, tinha já fechado a loja, quando ouviu três pancadas na porta.
Do
lado de fora não estava ninguém. Apenas uma pequena caixa de madeira, pousada
no degrau da entrada, coberta por uma fina camada de neve. Gabriel olhou para a
rua. Não se lembrava de alguma vez ter nevado naquela cidade.
Pegou
na caixa e levou-a para o balcão. Não tinha fechadura, nem inscrição, nem
qualquer sinal de quem a pudesse ter deixado. Quando levantou a tampa,
encontrou uma pequena chave dourada e um cartão onde se lia:
«Para
aquele que ainda acredita que o tempo pode ser visitado.»
Gabriel
ficou só um pouco surpreendido - quando do trespasse da loja o anterior dono,
um senhor de idade com um ar distinto e misterioso, dissera-lhe que a chave
iria aparecer quando não contasse com ela.
Dirigiu-se
à parede do fundo, afastou uma velha tapeçaria e revelou uma porta que ninguém,
nem mesmo os clientes mais antigos, alguma vez tinha visto.
Não
ligara à falta da chave porque a porta ali não fazia sentido – dava para a
parede de separação de outro prédio, uma barbearia antiga onde já entrara para confirmar que daquele
lado não havia porta alguma.
Introduziu a chave na fechadura. Ouviu-se um
estalido, seguido de um ruído profundo, semelhante ao de um comboio a
atravessar um túnel.
Quando
abriu a porta, a loja desapareceu.
Do
outro lado estendia-se uma praça iluminada por milhares de lanternas. As casas
tinham telhados cobertos de neve, as janelas brilhavam com luz de velas e, ao
longe, uma enorme árvore de Natal parecia tocar as estrelas. Havia música,
gargalhadas e o cheiro inconfundível de bolos acabados de cozer.
Gabriel
passou pela porta.
Não
era apenas outro lugar. Era outro tempo.
No
centro da praça estava um relógio gigantesco, cujos ponteiros giravam em todas
as direções. Por baixo, uma inscrição explicava: «Aqui, todos os Natais existem
ao mesmo tempo. Basta saber qual procurar.»
Naquele
mundo encontravam-se os Natais que tinham desaparecido da memória das pessoas:
o Natal de uma família que nunca mais voltou a reunir-se, o de um homem que
perdera a capacidade de sonhar, o de uma mulher que nunca chegara a conhecer a
mãe e até o de alguém que passara a vida inteira convencido de que não gostava
do Natal.
Cada
porta que se abria na praça conduzia a uma recordação diferente.
Gabriel
caminhou até encontrar uma pequena casa com uma janela iluminada. Lá dentro
estava uma criança sentada junto à lareira, a desembrulhar um presente.
Reconheceu imediatamente o rapaz: era ele próprio, com dez anos, no último
Natal que passara com os pais.
Ficou
a observá-lo durante muito tempo. Lembrava-se daquele dia, mas tinha esquecido
o som da voz do pai, o riso da mãe e a sensação de segurança que sentia quando
os três estavam juntos.
Uma
mulher aproximou-se dele e tinha o vestido de flores que ele quase esquecera e os
olhos que ele procurara em tantas fotografias antigas.
—
Demoraste a chegar, meu filho — disse ela.
Gabriel
não conseguiu responder.
Abraçaram-se.
Não houve perguntas sobre os anos passados, nem explicações sobre a estranha
viagem. Apenas aquele abraço que a vida lhe tinha negado durante tanto tempo.
—
Posso ficar? — perguntou ele.
A
mãe acariciou-lhe o rosto.
—
Podes voltar sempre que quiseres. Mas não te esqueças de que o teu tempo ainda
não terminou.
Quando
regressou à loja, o relógio da parede marcava exactamente a mesma hora de
quando saíra. Sobre o balcão estava a pequena caixa de madeira, agora vazia.
Gabriel
sentou-se na sua velha cadeira. Pela primeira vez em muitos anos, não se sentia
sozinho.
Na
manhã de Natal, encontrou à porta um envelope sem remetente. Dentro havia uma
fotografia da praça iluminada e uma frase escrita numa letra desconhecida:
«Os
lugares mágicos não desaparecem. Esperam apenas que alguém se lembre deles.»
A
partir desse dia, nunca mais fechou a loja na véspera de Natal.
E,
curiosamente, nesse dia, começou a receber visitas de pessoas que não
procuravam antiguidades, relógios ou brinquedos antigos. Procuravam qualquer
coisa que tinham perdido, mesmo sem saberem exactamente o quê.
Gabriel
nunca lhes explicava o segredo da loja. Limitava-se a perguntar:
—
Se pudesse visitar um Natal da sua vida, qual escolheria?
Depois,
acendia a pequena lanterna, abria a porta do fundo e deixava que o tempo
fizesse o resto.
Porque,
naquela loja, os objectos não envelheciam, os Natais não acabavam e até o
impossível tinha uma morada.
E
talvez fosse o único lugar do mundo onde o passado oferecia presentes.
" Trata-se de um omikuji (おみくじ), uma previsão tradicional japonesa da sorte, neste caso o número 48.
A classificação é 吉 (Kichi), que significa boa sorte ou sorte favorável.
1. Poema inicial
O poema diz, aproximadamente:
«A chuva de verão passa diante dos olhos e o céu volta a abrir. As copas das árvores ficam frescas e as cigarras começam a cantar.»
É uma imagem de tranquilidade, de renovação e de melhoria depois de um período menos favorável.
(...)
Há uma ideia muito bonita neste papel: a felicidade está a aproximar-se, mas é preciso saber esperar e não agir precipitadamente.
Não é uma previsão de sorte extraordinária ou de sucesso imediato. É antes uma mensagem de esperança, prudência e confiança no futuro.
A imagem da chuva de verão que termina e deixa as árvores frescas é particularmente simbólica: depois de uma fase de inquietação, chega a serenidade.
A minha interpretação: é um bom presságio. Diz que as coisas poderão correr bem, desde que haja paciência, ponderação e serenidade.
E há uma frase que me parece resumir muito bem todo o papel: não apresses aquilo que o tempo ainda está a preparar. 😊"
No site da Bertrand:
Anne Carson (21 de junho de 1950) é uma poeta, ensaísta, tradutora e professora de clássicos canadiana. Carson viveu em Montreal vários anos e lecionou na Universidade McGill, na Universidade de Michigan e na Universidade de Princeton, de 1980 a 1987. Foi bolsista do Guggenheim em 1998 e, em 2000, recebeu uma bolsa da MacArthur. Também ganhou um prémio literário Lannan.Em 1986, Carson publicou o seu primeiro livro, Eros the Bittersweet. Nomeado um dos 100 melhores livros de não-ficção de todos os tempos pela Biblioteca Moderna, o livro traça o conceito de "eros" na Grécia antiga através das suas representações na poesia da época. Carson considera seriamente como os desejos triangulares e miméticos foram representados na poesia de Safo, bem como a relação de Eros com a solidão. Famosamente, Carson analisa o Fragmento 31 de Safo como representando "eros como adiado, desafiado, obstruído, com fome, organizado em torno de uma ausência radiante - para representar eros como falta".
Magia e Sedução - Segredos de Família/Practical Magic 2
baseado no livro de Alice Hoffman, "The book of Magic" de Susanne Bier com Nicole Kidman e Sandra Bullock
O Rei Lobo de Lauren Palphreyman
Homem Aranha - Um Novo Dia/ Spider-Man: Brand New Day, de Destin Daniel Cretton, com Tom Holland, Zendaya, Sadie Sink, Jacob Batalon, Jon Bernthal, Tramell Tillman e Mark Ruffalo.

Rei dos Perdidos de Nikki St. Crowe
Como o AR de Ada D' Adamo (gostei muito deste livro embora seja triste, pela forma como está escrito e pelo que conta, a escritora e a filha surgem-nos como muito reais e é imensamnte injusto que tenha morrido tão jovem e que a filha tenha por isso ficado sem ela)
No site da Bertrand:
Ada d’Adamo foi uma escritora italiana. Nasceu em Ortona, em 1967, e formou-se na Accademia Nazionale di Danza. Escreveu múltiplos ensaios sobre dança e teatro.
Em 2023, a poucos dias de ver o seu romance nomeado para o Prémio Strega Giovani e para o Prémio Strega, Ada d’Adamo faleceu em Roma, vítima de doença prolongada. Como o Ar foi o vencedor de ambos os galardões.
O destino de Daria, a filha, começa a escrever-se quando um diagnóstico inesperado vem ensombrar o seu nascimento. A vida de Ada, a mãe, sofre um enorme sobressalto quando, quase aos cinquenta anos, descobre que uma doença grave lhe consome o corpo e encurta os dias. Mais do que sentença de morte, o cancro que lhe vai roubando as forças torna-se uma oportunidade para se dirigir à filha e contar-lhe a sua história.
Tudo passa pelos corpos de Ada e Daria: as lutas quotidianas, a raiva, os segredos, mas também as alegrias inesperadas e os momentos de uma ternura infinita. Dilacerantes, as palavras que a mãe oferece à filha atravessam o tempo – passado e presente entrelaçam-se numa dança que parece eterna.
Vencedor do prestigiado Prémio Strega 2023, Como o Ar é um romance de extraordinária força. Relato do inabalável amor entre mãe e filha, é também uma história de coragem em que cada momento é oferecido ao leitor como uma dádiva.
Concerto Candlelight
Vivaldi, Bach, Mozart, Beethoven, Tchaikovsky, Debussy e Ravel
.
São 22h59.
O telemóvel
vibra pela última vez. Não há sirenes, nem trombetas, nem fogo a rasgar o céu.
Apenas uma notificação enviada para todos os países, em todas as línguas:
“Às 23h59, o
mundo terminará.”
Miguel lê a
frase três vezes, como quem espera encontrar um erro ortográfico que salve a
humanidade.
Clara lê-a
sentada num banco de jardim. Depois
olha em volta, desconfiada, mas a noite continua azul-escura e as árvores
continuam a derramar folhas sobre os carros.
Há roupa
esquecida nos estendais a respirar o vento. Um semáforo permanece vermelho para
carros que já não conhecerão amanhã.
A mãe de
Miguel telefona.
— Vens cá?
Ele quase
responde “amanhã”, mas a palavra morreu primeiro.
Sai para a
rua. Há pessoas a correr para algum lado e outras completamente imóveis, como
estátuas cansadas. Um grupo canta na praça. Vê casais abraçados como náufragos.
Um rapaz rouba flores de um jardim para as oferecer a desconhecidos.
Clara decide
caminhar até ao mar. Sempre acreditou que os finais pertencem à água.
O mar aparece enfim diante dela: negro,
imenso, respirando devagar. Clara pensa em todas as coisas pequenas que nunca
salvou — cartas por enviar, beijos adiados, domingos desperdiçados.
Às 23h32,
Miguel chega a casa da mãe. Ela fez arroz-doce.
Comem
devagar. Pela primeira vez em anos, conversam sem pressa. Falam do pai, dos
verões antigos, da chávena partida que nenhum dos dois deitou fora.
Às 23h58, a
eletricidade falha. A cidade mergulha numa escuridão mansa. Miguel segura a mão
da mãe. Clara senta-se na areia molhada.
Então,
algures, alguém começa a tocar piano. Mais longe, alguém bate palmas.
O mundo
inteiro prende a respiração.
E o planeta, condenado e belo, termina como uma canção que não queria acabar — estranhamente menos assustador no fim do que algumas vezes pareceu no princípio.
Quando acordou, o quarto estava cheio de
neve.
Tomás ficou imóvel debaixo dos cobertores, a
olhar para o chão branco, para a secretária branca, para o armário que parecia
feito de gelo. Piscou os olhos muitas vezes. Talvez ainda estivesse a sonhar.
Na noite anterior adormecera a ouvir chuva bater na janela; agora havia flocos
a cair lentamente dentro do quarto, silenciosos como penas.
— Mãe? — chamou, com a voz pequena.
Ninguém respondeu.
Levantou-se devagar. O frio mordia-lhe os
pés. Na parede, os desenhos que fizera tinham desaparecido. O sol amarelo, o
cão torto, o barco vermelho: tudo coberto por neve espessa. Até as fotografias
estavam brancas.
Tomás sentiu um aperto estranho no peito.
Correu para a cozinha.
A mãe estava sentada à mesa, de casaco vestido,
as mãos em volta de uma chávena vazia. Tinha os olhos cansados.
— Mãe… o que aconteceu?
Ela demorou a responder.
— O teu avô morreu esta noite.
Tomás não compreendeu logo. As palavras
ficaram no ar, suspensas, como os flocos que continuavam a cair dentro de casa.
O avô tinha prometido levá-lo ao rio no domingo. Tinha prometido ensinar-lhe a
assobiar com uma folha de oliveira.
— Não — disse Tomás, abanando a cabeça. — Não
pode.
Então percebeu. A neve não estava realmente
no quarto. Estava dentro dele.
Sentou-se ao colo da mãe e ficou quieto, a
ouvir o silêncio enorme da casa. Lá fora, a chuva continuava a cair, mas Tomás
jurava que o mundo inteiro tinha ficado branco naquela manhã.
Só mesmo para isso, e assim passar despercebido há quanto tempo iniciei este blogue e como continuo igual