
"Quem tropeça é sempre alguém que se distrai a olhar para as estrelas" Vladimir Nabokov (nome do blogue veio do livro para crianças de Virgínia de Castro e Almeida)
No site da Bertrand:
Anne Carson (21 de junho de 1950) é uma poeta, ensaísta, tradutora e professora de clássicos canadiana. Carson viveu em Montreal vários anos e lecionou na Universidade McGill, na Universidade de Michigan e na Universidade de Princeton, de 1980 a 1987. Foi bolsista do Guggenheim em 1998 e, em 2000, recebeu uma bolsa da MacArthur. Também ganhou um prémio literário Lannan.Em 1986, Carson publicou o seu primeiro livro, Eros the Bittersweet. Nomeado um dos 100 melhores livros de não-ficção de todos os tempos pela Biblioteca Moderna, o livro traça o conceito de "eros" na Grécia antiga através das suas representações na poesia da época. Carson considera seriamente como os desejos triangulares e miméticos foram representados na poesia de Safo, bem como a relação de Eros com a solidão. Famosamente, Carson analisa o Fragmento 31 de Safo como representando "eros como adiado, desafiado, obstruído, com fome, organizado em torno de uma ausência radiante - para representar eros como falta".
Magia e Sedução - Segredos de Família/Practical Magic 2
baseado no livro de Alice Hoffman, "The book of Magic" de Susanne Bier com Nicole Kidman e Sandra Bullock
O Rei Lobo de Lauren Palphreyman
Homem Aranha - Um Novo Dia/ Spider-Man: Brand New Day, de Destin Daniel Cretton, com Tom Holland, Zendaya, Sadie Sink, Jacob Batalon, Jon Bernthal, Tramell Tillman e Mark Ruffalo.

Rei dos Perdidos de Nikki St. Crowe
Como o AR de Ada D' Adamo (gostei muito deste livro embora seja triste, pela forma como está escrito e pelo que conta, a escritora e a filha surgem-nos como muito reais e é imensamnte injusto que tenha morrido tão jovem e que a filha tenha por isso ficado sem ela)
No site da Bertrand:
Ada d’Adamo foi uma escritora italiana. Nasceu em Ortona, em 1967, e formou-se na Accademia Nazionale di Danza. Escreveu múltiplos ensaios sobre dança e teatro.
Em 2023, a poucos dias de ver o seu romance nomeado para o Prémio Strega Giovani e para o Prémio Strega, Ada d’Adamo faleceu em Roma, vítima de doença prolongada. Como o Ar foi o vencedor de ambos os galardões.
O destino de Daria, a filha, começa a escrever-se quando um diagnóstico inesperado vem ensombrar o seu nascimento. A vida de Ada, a mãe, sofre um enorme sobressalto quando, quase aos cinquenta anos, descobre que uma doença grave lhe consome o corpo e encurta os dias. Mais do que sentença de morte, o cancro que lhe vai roubando as forças torna-se uma oportunidade para se dirigir à filha e contar-lhe a sua história.
Tudo passa pelos corpos de Ada e Daria: as lutas quotidianas, a raiva, os segredos, mas também as alegrias inesperadas e os momentos de uma ternura infinita. Dilacerantes, as palavras que a mãe oferece à filha atravessam o tempo – passado e presente entrelaçam-se numa dança que parece eterna.
Vencedor do prestigiado Prémio Strega 2023, Como o Ar é um romance de extraordinária força. Relato do inabalável amor entre mãe e filha, é também uma história de coragem em que cada momento é oferecido ao leitor como uma dádiva.
Concerto Candlelight
Vivaldi, Bach, Mozart, Beethoven, Tchaikovsky, Debussy e Ravel
.
São 22h59.
O telemóvel
vibra pela última vez. Não há sirenes, nem trombetas, nem fogo a rasgar o céu.
Apenas uma notificação enviada para todos os países, em todas as línguas:
“Às 23h59, o
mundo terminará.”
Miguel lê a
frase três vezes, como quem espera encontrar um erro ortográfico que salve a
humanidade.
Clara lê-a
sentada num banco de jardim. Depois
olha em volta, desconfiada, mas a noite continua azul-escura e as árvores
continuam a derramar folhas sobre os carros.
Há roupa
esquecida nos estendais a respirar o vento. Um semáforo permanece vermelho para
carros que já não conhecerão amanhã.
A mãe de
Miguel telefona.
— Vens cá?
Ele quase
responde “amanhã”, mas a palavra morreu primeiro.
Sai para a
rua. Há pessoas a correr para algum lado e outras completamente imóveis, como
estátuas cansadas. Um grupo canta na praça. Vê casais abraçados como náufragos.
Um rapaz rouba flores de um jardim para as oferecer a desconhecidos.
Clara decide
caminhar até ao mar. Sempre acreditou que os finais pertencem à água.
O mar aparece enfim diante dela: negro,
imenso, respirando devagar. Clara pensa em todas as coisas pequenas que nunca
salvou — cartas por enviar, beijos adiados, domingos desperdiçados.
Às 23h32,
Miguel chega a casa da mãe. Ela fez arroz-doce.
Comem
devagar. Pela primeira vez em anos, conversam sem pressa. Falam do pai, dos
verões antigos, da chávena partida que nenhum dos dois deitou fora.
Às 23h58, a
eletricidade falha. A cidade mergulha numa escuridão mansa. Miguel segura a mão
da mãe. Clara senta-se na areia molhada.
Então,
algures, alguém começa a tocar piano. Mais longe, alguém bate palmas.
O mundo
inteiro prende a respiração.
E o planeta, condenado e belo, termina como uma canção que não queria acabar — estranhamente menos assustador no fim do que algumas vezes pareceu no princípio.
Quando acordou, o quarto estava cheio de
neve.
Tomás ficou imóvel debaixo dos cobertores, a
olhar para o chão branco, para a secretária branca, para o armário que parecia
feito de gelo. Piscou os olhos muitas vezes. Talvez ainda estivesse a sonhar.
Na noite anterior adormecera a ouvir chuva bater na janela; agora havia flocos
a cair lentamente dentro do quarto, silenciosos como penas.
— Mãe? — chamou, com a voz pequena.
Ninguém respondeu.
Levantou-se devagar. O frio mordia-lhe os
pés. Na parede, os desenhos que fizera tinham desaparecido. O sol amarelo, o
cão torto, o barco vermelho: tudo coberto por neve espessa. Até as fotografias
estavam brancas.
Tomás sentiu um aperto estranho no peito.
Correu para a cozinha.
A mãe estava sentada à mesa, de casaco vestido,
as mãos em volta de uma chávena vazia. Tinha os olhos cansados.
— Mãe… o que aconteceu?
Ela demorou a responder.
— O teu avô morreu esta noite.
Tomás não compreendeu logo. As palavras
ficaram no ar, suspensas, como os flocos que continuavam a cair dentro de casa.
O avô tinha prometido levá-lo ao rio no domingo. Tinha prometido ensinar-lhe a
assobiar com uma folha de oliveira.
— Não — disse Tomás, abanando a cabeça. — Não
pode.
Então percebeu. A neve não estava realmente
no quarto. Estava dentro dele.
Sentou-se ao colo da mãe e ficou quieto, a
ouvir o silêncio enorme da casa. Lá fora, a chuva continuava a cair, mas Tomás
jurava que o mundo inteiro tinha ficado branco naquela manhã.
Só mesmo para isso, e assim passar despercebido há quanto tempo iniciei este blogue e como continuo igual
Mandolarian & Grogu - Star Wars de Jon Favreau, com Pedro Pascal no papel de Din Djarin; Sigourney Weaver, Jeremy Allen White, Jonny Coyne, Brendan Wayne, Dave Filoni, Steve Blum, Hemky Madera, Paul Sun-Hyung Lee e Matthew Willig.
Leonor descobriu que era adoptada por causa de um desenho.
Tinha sete anos e estava sentada no chão da sala, rodeada de lápis partidos
e folhas amarrotadas. Na escola tinham pedido uma árvore genealógica. Ela
desenhara a mãe com cabelo encaracolado, o pai muito alto e um cão que parecia
uma nuvem com patas.
— E eu? — perguntou, franzindo a testa. — Pareço com quem?
A pergunta ficou suspensa no ar como roupa esquecida no estendal.
Nessa noite, os pais chamaram-na para a cozinha. Havia chá a arrefecer nas
chávenas e uma chuva miudinha contra os vidros.
— Há crianças que nascem da barriga — disse a mãe devagar. — E outras que
nascem no coração.
Leonor ficou séria, porque as frases bonitas lhe pareciam às vezes
perigosas.
O pai sorriu.
— Tu demoraste um bocadinho mais a chegar até nós.
Contaram-lhe então sobre viagens longas, papéis intermináveis e o dia em que
a viram pela primeira vez: uma bebé furiosa, enrolada numa manta verde, a
chorar como quem protestava contra o mundo inteiro.
— E vocês escolheram-me? — perguntou.
— Não — respondeu a mãe. — Foi mais estranho do que isso. Quando te pegámos
ao colo, sentimos que já eras nossa antes mesmo de te conhecermos.
Leonor pensou um pouco. Depois correu até ao quarto e voltou com o desenho
da árvore genealógica.
Pegou num lápis vermelho e desenhou raízes enormes debaixo das figuras.
— Assim fica melhor — disse.
Nessa noite, adormeceu tranquila. Pela primeira vez, percebeu que pertencer
a uma família não tinha a ver com ser parecida. Tinha a ver com o lugar onde o
coração descansava sem medo.
Despediu-se
dela numa estação pequena, onde os comboios passavam como animais cansados e
deixavam no ar um cheiro metálico de distância. Não houve promessas. Apenas
aquele abraço demorado de quem tenta decorar o corpo do outro antes da ausência.
— Volto
antes do verão — disse ele.
Ela sorriu
como sorri quem já conhece o peso das mentiras involuntárias.
Durante
semanas, viveram de chamadas breves e fotografias desfocadas enviadas ao fim da
noite. Depois veio o silêncio. Primeiro discreto, quase tímido. Mais tarde,
absoluto.
Ela começou
a procurá-lo nos lugares improváveis: nos cafés onde costumavam sentar‑se, nas
músicas antigas do carro, nas janelas iluminadas dos prédios ao entardecer. Mas
havia pessoas que desapareciam devagar, como barcos afastando-se da costa até
se confundirem com o nevoeiro.
Meses
depois, no último dia de agosto, ela voltou sozinha ao litoral.
A praia
estava quase vazia. O vento dobrava os chapéus esquecidos na areia e o mar
tinha aquela cor escura das coisas que escondem segredos.
Caminhou
junto à água até avistar um homem sentado perto das rochas, de costas para ela.
Sabia que
não era ele, mas o coração começou a bater com uma lentidão estranha, como se
tivesse medo da verdade.
Lembrou as
palavras duras ali trocadas quando ele anunciou a partida.
Então
reparou nas marcas antigas na areia endurecida, nas algas presas entre as pedras,
no silêncio pesado daquele lugar. E compreendeu, com uma clareza dolorosa, que
não fora na estação que o perdera.
Há
despedidas que acontecem muito antes das pessoas partirem.
No meio da
praia, sem testemunhas além das ondas, foi onde tudo aconteceu.
Marta acordou o marido aos abanões.
— Bruno! Bruno, acorda!
Ele abriu um olho apenas.
— O prédio está a arder?
— Pior.
Isso acordou-o imediatamente.
— Pior que um incêndio?
Ela apontou para o corredor com ar dramático.
— Está alguém cá em casa.
Bruno suspirou. Com quinze anos de casamento, aprendera que “alguém cá em
casa” podia significar um ladrão… ou um gato na varanda a olhar de forma
suspeita.
Levantou-se
da cama e procurou algo que pudesse servir de arma. Encontrou um guarda-chuva.
— Vais combatê-lo
à chuva? — murmurou ela.
— É psicológico. — e avançou corredor fora em cuecas e meias.
A casa estava silenciosa.
Então ouviu-se um som vindo da cozinha.
Tin. Tin. Clac.
Bruno gelou.
— Estás a ouvir? — sussurrou Marta atrás dele.
— Estou.
Outro barulho.
Clac.
Ele respirou fundo e entrou na cozinha preparado para enfrentar o criminoso.
Acendeu a luz.
Silêncio.
Depois olhou para baixo.
O aspirador robô atravessava calmamente o chão, enrolado numa fita de
presente vermelha que arrastava atrás de si como uma cauda.
Marta piscou os olhos.
— O que é que ele está a fazer acordado?
Bruno passou a mão pelo rosto.
— Acho que programaste a limpeza automática.
— Às três da manhã?!
O aspirador bateu contra uma cadeira, fez um bip agressivo e mudou de
direção como um animal ofendido.
Bruno começou a rir. Primeiro baixinho. Depois sem conseguir parar.
Marta tentou manter a dignidade durante três segundos antes de se rir
também.
Nesse instante, o aspirador avançou diretamente contra os pés de Bruno, que
deu um salto tão exagerado que caiu sentado no chão.
O aparelho continuou o seu percurso triunfal pela cozinha.
Marta limpou as lágrimas do riso.
— Sabes uma coisa?
— O quê?
— Se um dia formos assassinados por eletrodomésticos, vai ser merecido.
O relógio
ficou esquecido no degrau de pedra à entrada da igreja, como um pequeno erro
num dia que devia ser perfeito. Antigo, de bolso, com a corrente solta e o
vidro marcado pelo tempo, tinha parado às 10:11 — a hora em que tudo deixou de
ser o que era suposto.
Dizem que
foi o noivo quem o deixou cair. Ou talvez o tenha largado sem perceber, quando
o murmúrio começou a crescer dentro da igreja, como vento antes da tempestade.
A noiva
entrou vestida de negro.
Não de
branco, como mandava a tradição, mas de negro profundo, como se levasse o luto
de algo que ainda ninguém entendia. O tecido arrastava-se pelo chão em
silêncio, e cada passo parecia apagar uma expectativa. Não havia flores no
cabelo. Não havia sorriso. Apenas uma calma estranha, quase luminosa.
O relógio
parou nesse instante.
Ninguém
soube o que aconteceu depois com clareza. Uns dizem que ela chegou ao altar e
nada disse. Outros juram que sorriu — um sorriso breve, indecifrável — antes de
se virar e sair, deixando tudo suspenso no ar, como uma frase interrompida.
O noivo não
a seguiu.
Ficou
imóvel, como o relógio.
Desde então,
o objeto permanece ali, à entrada, como um vestígio desse momento que ninguém
consegue terminar de contar. Durante o dia, é só um relógio esquecido. Mas à
noite, quando a igreja respira o silêncio, há quem diga que ele ainda guarda
aquele instante.
Se alguém o
abrir, talvez veja um véu escuro a atravessar a luz.
Ou talvez
sinta apenas isto: nem todos os começos pedem branco.
E há
promessas que só existem quando não se cumprem.
Se ele estivesse comigo de Laura Nowlin (previsivel e um dos piores fins - continuei a ler para confirmar/esperar que o fim fosse diferente)