quarta-feira, junho 03, 2026

CEC 68/41 - Texto 10º

.

São 22h59.

O telemóvel vibra pela última vez. Não há sirenes, nem trombetas, nem fogo a rasgar o céu. Apenas uma notificação enviada para todos os países, em todas as línguas:

“Às 23h59, o mundo terminará.”

Miguel lê a frase três vezes, como quem espera encontrar um erro ortográfico que salve a humanidade.

Clara lê-a sentada num banco de jardim. Depois olha em volta, desconfiada, mas a noite continua azul-escura e as árvores continuam a derramar folhas sobre os carros.

Há roupa esquecida nos estendais a respirar o vento. Um semáforo permanece vermelho para carros que já não conhecerão amanhã.

A mãe de Miguel telefona.

— Vens cá?

Ele quase responde “amanhã”, mas a palavra morreu primeiro.

Sai para a rua. Há pessoas a correr para algum lado e outras completamente imóveis, como estátuas cansadas. Um grupo canta na praça. Vê casais abraçados como náufragos. Um rapaz rouba flores de um jardim para as oferecer a desconhecidos.

Clara decide caminhar até ao mar. Sempre acreditou que os finais pertencem à água.

O mar aparece enfim diante dela: negro, imenso, respirando devagar. Clara pensa em todas as coisas pequenas que nunca salvou — cartas por enviar, beijos adiados, domingos desperdiçados.

Às 23h32, Miguel chega a casa da mãe. Ela fez arroz-doce.

Comem devagar. Pela primeira vez em anos, conversam sem pressa. Falam do pai, dos verões antigos, da chávena partida que nenhum dos dois deitou fora.

Às 23h58, a eletricidade falha. A cidade mergulha numa escuridão mansa. Miguel segura a mão da mãe. Clara senta-se na areia molhada.

Então, algures, alguém começa a tocar piano. Mais longe, alguém bate palmas.

O mundo inteiro prende a respiração.

E o planeta, condenado e belo, termina como uma canção que não queria acabar — estranhamente menos assustador no fim do que algumas vezes pareceu no princípio. 


CNEC 68/41 - 9º Texto

 

Quando acordou, o quarto estava cheio de neve.

Tomás ficou imóvel debaixo dos cobertores, a olhar para o chão branco, para a secretária branca, para o armário que parecia feito de gelo. Piscou os olhos muitas vezes. Talvez ainda estivesse a sonhar. Na noite anterior adormecera a ouvir chuva bater na janela; agora havia flocos a cair lentamente dentro do quarto, silenciosos como penas.

— Mãe? — chamou, com a voz pequena.

Ninguém respondeu.

Levantou-se devagar. O frio mordia-lhe os pés. Na parede, os desenhos que fizera tinham desaparecido. O sol amarelo, o cão torto, o barco vermelho: tudo coberto por neve espessa. Até as fotografias estavam brancas.

Tomás sentiu um aperto estranho no peito. Correu para a cozinha.

A mãe estava sentada à mesa, de casaco vestido, as mãos em volta de uma chávena vazia. Tinha os olhos cansados.

— Mãe… o que aconteceu?

Ela demorou a responder.

— O teu avô morreu esta noite.

Tomás não compreendeu logo. As palavras ficaram no ar, suspensas, como os flocos que continuavam a cair dentro de casa. O avô tinha prometido levá-lo ao rio no domingo. Tinha prometido ensinar-lhe a assobiar com uma folha de oliveira.

— Não — disse Tomás, abanando a cabeça. — Não pode.

Então percebeu. A neve não estava realmente no quarto. Estava dentro dele.

Sentou-se ao colo da mãe e ficou quieto, a ouvir o silêncio enorme da casa. Lá fora, a chuva continuava a cair, mas Tomás jurava que o mundo inteiro tinha ficado branco naquela manhã.

 

quarta-feira, maio 27, 2026

Só para assinalar o aniversário 27.5.26

 Só mesmo para isso, e assim passar despercebido há quanto tempo iniciei este blogue e como continuo igual

domingo, maio 24, 2026

Sexta-feira, 22.5.26 Mandolarian e Grogu

 Mandolarian & Grogu - Star Wars de Jon Favreau, com Pedro Pascal no papel de Din Djarin; Sigourney Weaver, Jeremy Allen White, Jonny Coyne, Brendan Wayne, Dave Filoni, Steve Blum, Hemky Madera, Paul Sun-Hyung Lee e Matthew Willig.

Star Wars - The Mandalorian and Grogu (IMAX 3D)


quarta-feira, maio 20, 2026

CEC 68º/41º - 8- Texto

 

 

Leonor descobriu que era adoptada por causa de um desenho.

Tinha sete anos e estava sentada no chão da sala, rodeada de lápis partidos e folhas amarrotadas. Na escola tinham pedido uma árvore genealógica. Ela desenhara a mãe com cabelo encaracolado, o pai muito alto e um cão que parecia uma nuvem com patas.

— E eu? — perguntou, franzindo a testa. — Pareço com quem?

A pergunta ficou suspensa no ar como roupa esquecida no estendal.

Nessa noite, os pais chamaram-na para a cozinha. Havia chá a arrefecer nas chávenas e uma chuva miudinha contra os vidros.

— Há crianças que nascem da barriga — disse a mãe devagar. — E outras que nascem no coração.

Leonor ficou séria, porque as frases bonitas lhe pareciam às vezes perigosas.

O pai sorriu.

— Tu demoraste um bocadinho mais a chegar até nós.

Contaram-lhe então sobre viagens longas, papéis intermináveis e o dia em que a viram pela primeira vez: uma bebé furiosa, enrolada numa manta verde, a chorar como quem protestava contra o mundo inteiro.

— E vocês escolheram-me? — perguntou.

— Não — respondeu a mãe. — Foi mais estranho do que isso. Quando te pegámos ao colo, sentimos que já eras nossa antes mesmo de te conhecermos.

Leonor pensou um pouco. Depois correu até ao quarto e voltou com o desenho da árvore genealógica.

Pegou num lápis vermelho e desenhou raízes enormes debaixo das figuras.

— Assim fica melhor — disse.

Nessa noite, adormeceu tranquila. Pela primeira vez, percebeu que pertencer a uma família não tinha a ver com ser parecida. Tinha a ver com o lugar onde o coração descansava sem medo.

 

quarta-feira, maio 13, 2026

CNEC 68 - 41 - 7º Texto

 

 

Despediu-se dela numa estação pequena, onde os comboios passavam como animais cansados e deixavam no ar um cheiro metálico de distância. Não houve promessas. Apenas aquele abraço demorado de quem tenta decorar o corpo do outro antes da ausência.

— Volto antes do verão — disse ele.

Ela sorriu como sorri quem já conhece o peso das mentiras involuntárias.

Durante semanas, viveram de chamadas breves e fotografias desfocadas enviadas ao fim da noite. Depois veio o silêncio. Primeiro discreto, quase tímido. Mais tarde, absoluto.

Ela começou a procurá-lo nos lugares improváveis: nos cafés onde costumavam sentar‑se, nas músicas antigas do carro, nas janelas iluminadas dos prédios ao entardecer. Mas havia pessoas que desapareciam devagar, como barcos afastando-se da costa até se confundirem com o nevoeiro.

Meses depois, no último dia de agosto, ela voltou sozinha ao litoral.

A praia estava quase vazia. O vento dobrava os chapéus esquecidos na areia e o mar tinha aquela cor escura das coisas que escondem segredos.

Caminhou junto à água até avistar um homem sentado perto das rochas, de costas para ela.

Sabia que não era ele, mas o coração começou a bater com uma lentidão estranha, como se tivesse medo da verdade.

Lembrou as palavras duras ali trocadas quando ele anunciou a partida.

Então reparou nas marcas antigas na areia endurecida, nas algas presas entre as pedras, no silêncio pesado daquele lugar. E compreendeu, com uma clareza dolorosa, que não fora na estação que o perdera.

Há despedidas que acontecem muito antes das pessoas partirem.

No meio da praia, sem testemunhas além das ondas, foi onde tudo aconteceu.

 

sábado, maio 09, 2026

Sienna Spiro - Die On This Hill

 


CNEC 68/41 - 6º Tema - Mulher acorda de repente o marido a meio da noite

 

Marta acordou o marido aos abanões.

— Bruno! Bruno, acorda!

Ele abriu um olho apenas.

— O prédio está a arder?

— Pior.

Isso acordou-o imediatamente.

— Pior que um incêndio?

Ela apontou para o corredor com ar dramático.

— Está alguém cá em casa.

Bruno suspirou. Com quinze anos de casamento, aprendera que “alguém cá em casa” podia significar um ladrão… ou um gato na varanda a olhar de forma suspeita.

Levantou-se da cama e procurou algo que pudesse servir de arma. Encontrou um guarda-chuva.

— Vais combatê-lo à chuva? — murmurou ela.

— É psicológico. — e avançou corredor fora em cuecas e meias.

A casa estava silenciosa.

Então ouviu-se um som vindo da cozinha.

Tin. Tin. Clac.

Bruno gelou.

— Estás a ouvir? — sussurrou Marta atrás dele.

— Estou.

Outro barulho.

Clac.

Ele respirou fundo e entrou na cozinha preparado para enfrentar o criminoso.

Acendeu a luz.

Silêncio.

Depois olhou para baixo.

O aspirador robô atravessava calmamente o chão, enrolado numa fita de presente vermelha que arrastava atrás de si como uma cauda.

Marta piscou os olhos.

— O que é que ele está a fazer acordado?

Bruno passou a mão pelo rosto.

— Acho que programaste a limpeza automática.

— Às três da manhã?!

O aspirador bateu contra uma cadeira, fez um bip agressivo e mudou de direção como um animal ofendido.

Bruno começou a rir. Primeiro baixinho. Depois sem conseguir parar.

Marta tentou manter a dignidade durante três segundos antes de se rir também.

Nesse instante, o aspirador avançou diretamente contra os pés de Bruno, que deu um salto tão exagerado que caiu sentado no chão.

O aparelho continuou o seu percurso triunfal pela cozinha.

Marta limpou as lágrimas do riso.

— Sabes uma coisa?

— O quê?

— Se um dia formos assassinados por eletrodomésticos, vai ser merecido.

domingo, maio 03, 2026

sexta-feira, maio 01, 2026

quarta-feira, abril 29, 2026

CEC - 68/41 - 5º Texto - Relógio esquecido à entrada da Igreja

 

 

O relógio ficou esquecido no degrau de pedra à entrada da igreja, como um pequeno erro num dia que devia ser perfeito. Antigo, de bolso, com a corrente solta e o vidro marcado pelo tempo, tinha parado às 10:11 — a hora em que tudo deixou de ser o que era suposto.

Dizem que foi o noivo quem o deixou cair. Ou talvez o tenha largado sem perceber, quando o murmúrio começou a crescer dentro da igreja, como vento antes da tempestade.

A noiva entrou vestida de negro.

Não de branco, como mandava a tradição, mas de negro profundo, como se levasse o luto de algo que ainda ninguém entendia. O tecido arrastava-se pelo chão em silêncio, e cada passo parecia apagar uma expectativa. Não havia flores no cabelo. Não havia sorriso. Apenas uma calma estranha, quase luminosa.

O relógio parou nesse instante.

Ninguém soube o que aconteceu depois com clareza. Uns dizem que ela chegou ao altar e nada disse. Outros juram que sorriu — um sorriso breve, indecifrável — antes de se virar e sair, deixando tudo suspenso no ar, como uma frase interrompida.

O noivo não a seguiu.

Ficou imóvel, como o relógio.

Desde então, o objeto permanece ali, à entrada, como um vestígio desse momento que ninguém consegue terminar de contar. Durante o dia, é só um relógio esquecido. Mas à noite, quando a igreja respira o silêncio, há quem diga que ele ainda guarda aquele instante.

Se alguém o abrir, talvez veja um véu escuro a atravessar a luz.

Ou talvez sinta apenas isto: nem todos os começos pedem branco.

E há promessas que só existem quando não se cumprem.

 

domingo, abril 26, 2026

Se ele estivesse comigo de Laura Nowlin - Livros 2026 (4)

 Se ele estivesse comigo de Laura Nowlin (previsivel e um dos piores fins - continuei a ler para confirmar/esperar que o fim fosse diferente)

Se Ele Estivesse Comigo

quarta-feira, abril 22, 2026

CEC 68/41 - 4 - Um carro numa rua deserta

O carro avançava lentamente pela estrada deserta, como se hesitasse a cada metro percorrido. De um lado, campos secos e do outro, uma linha interminável de árvores retorcidas.

À medida que a noite caía, a estrada tornava-se ainda mais estreita, como se quisesse engolir o carro. Os faróis iluminavam apenas alguns metros à frente, revelando curvas inesperadas e sombras que pareciam mover-se por conta própria.

Foi então que o rádio começou a chiar sem motivo e uma voz atravessou a estática, baixa e irregular, como se falasse de muito longe.

“Se estás a ouvir isto, não pares.”

Ele franziu o sobrolho, ajustou o volume. A estrada permanecia vazia.

Pensou em desligar, mas a voz voltou.

“Já passaste por mim.”

Um arrepio subiu-lhe pela nuca. Olhou pelo retrovisor. Nada. Apenas o rasto escuro da estrada e a poeira suspensa, como um eco físico do movimento.

Continuou a conduzir.

Os quilómetros repetiam-se, indistintos, até que viu algo à frente: um carro parado na berma. Aproximou-se devagar. Era igual ao seu. Mesma cor, mesmo modelo.

Parou, contra o aviso da voz.

O motor desligou-se com um suspiro. Saiu, o silêncio caiu pesado à sua volta. Aproximou-se do outro carro. A porta estava entreaberta.

“Não devias ter parado.”

A voz agora vinha de trás dele.

Virou-se depressa, mas não havia ninguém. Só o seu carro… com o motor novamente ligado.

E alguém lá dentro.

A figura ao volante tinha o seu rosto, imóvel, olhando em frente como quem espera um sinal. O rádio crepitava.

Ele recuou, o coração descompassado, sem saber qual dos dois era o erro.

Então, o carro — o seu carro — arrancou sozinho, desaparecendo pela estrada como se nunca tivesse hesitado.

Ficou ali, ao lado da cópia silenciosa, com a sensação inquietante de que a viagem continuava.

Só que sem ele.

CEC - 68/41 - 3 - Quarto fechado

 

 

A casa veio na herança dos tios avós.

Era velha, mas sólida.

Hesitaram só um pouco, até optarem por deixar o pequeno apartamento arrendado na cidade. A casa ficava mais longe, mas compensava a distância com o espaço. A mudança foi rápida e só depois de instalados é que começaram a descobrir todos os cantos.

Na cave havia um quarto fechado. Aparentava estar assim há anos, talvez mesmo décadas.

Não havia chave, apenas histórias. De vizinhos e parente mais velhos ouviram que o quarto guardava riquezas esquecidas, segredos de família ou até algo perigoso demais para ser revelado. Com o passar dos anos, o mistério tinha crescido mais do que a própria casa.

Quando finalmente decidiram arrombá-la, o silêncio que antecedeu o estalo da madeira foi quase solene. A poeira levantou-se no ar enquanto a porta cedia lentamente.

Todos prenderam a respiração, preparados para encontrar qualquer coisa — exceto o que realmente estava lá dentro.

O quarto estava vazio.

Nenhum móvel, nenhum baú, nenhum vestígio de algo extraordinário. Apenas paredes nuas, marcadas pelo tempo. No chão, nada além de um leve desenho no pó, como se alguém tivesse caminhado ali há muito tempo.

A decepção espalhou-se primeiro, seguida de confusão. Como podia um espaço tão guardado não conter nada? Mas, à medida que o silêncio voltava, uma sensação diferente surgiu — algo quase inquietante.

Talvez o segredo nunca tenha sido o que estava dentro do quarto, mas o próprio ato de mantê-lo fechado. O vazio parecia carregar um peso invisível, como se todas as expectativas, medos e histórias criadas ao longo dos anos ainda habitassem aquele espaço.

E, naquele instante, perceberam: o quarto não estava vazio.

Estava cheio de tudo aquilo que nunca chegou a existir.

 

 

CEC 68/41 - 2 - Diálogo em que não dizem o que mais importa

 

Chegou antes da hora marcada pelo silêncio.
— Não havia trânsito — disse, como se a cidade tivesse aberto caminho para a ver partir mais depressa.

(Pousou as chaves. O som é pequeno, mas ficou a ecoar na mesa, como se algo tivesse sido decidido ali.)

Olhou à volta (mas não para mim)

(O relógio não marca o tempo — fere-o, segundo a segundo. Eu endireito a chávena só para tocar em alguma coisa que não doa.)

— Queres café?
— Se já estiver feito.
— Está.

 (Mas nada está pronto. Nem o café, nem nós.)

— A casa está… diferente.
— Mudei pouca coisa.
— Nota-se — disse, olhando para tudo menos para onde fomos deixados.

— E tu?
— O que tem?
— Estás… bem?
— Estou.

(Mentimos com a delicadeza de quem já treinou.)

— Recebeste a minha mensagem?
— Recebi.
— E?
— Li.

(Os meus dedos percorrem a chávena como se fosse possível ler o futuro na porcelana. Sentes isso, eu sei. Desvias o olhar.)

— Pensei que talvez…
— Não.

(A palavra cai inteira, sem piedade.)

— Certo.

(Um carro passa lá fora — leva consigo tudo o que não fomos capazes de dizer.)

— Ficas muito tempo?
— Não.
— Tens para onde ir?
— Tenho.

(Aceno. Um gesto mínimo, quase invisível — como tudo o que ainda nos resta.)

— Ainda funciona?
— O quê?
— Aquilo… que éramos.

(Olho-te, finalmente. E nesse instante, tudo volta — intacto e inútil.)

— Nunca deixou de funcionar.

(Sorris, mas falta-te metade — a parte que ficou comigo, talvez.)

— Então porquê—
— O café vai arrefecer.

(O silêncio regressa. Mais denso. Mais honesto.)

— Eu posso aquecer.
— Eu sei.

(Pego na chávena. Não bebo. Não há calor que resolva isto.)

 (O relógio continua a insistir naquilo que já acabou.)

— Bem…
— Pois.

Não voltou a pegar nas chaves.

— Adeus.
— Até logo.

(Nenhum de nós acredita.)

(E as palavras, essas, mentem por nós — com uma suavidade que quase parece verdade.)

 

 

terça-feira, abril 07, 2026

E regressou o Campeonato de Escrita Criativa CNEC 68-41 1ª Jornada Mensagem

 1º Texto


 

Foram dias estranhos com céus cinzentos escondendo sinais.

Primeiro ano na faculdade e longe de casa.

Pais ocupados com os seus trabalhos, confiando que seria igual ao irmão e logo teria um diploma.

Havia uma amiga, ou conhecida? Não tinham muito em comum. Marta, era esse o seu nome, queria deixar para trás a pessoa que fora no liceu, não lhe dava jeito nenhum que ela aparecesse a lembrar que as duas eram o inverso de populares, e se escondiam no fundo da sala e nas sombras do recreio. Marta mudara. Tanto que não eram mais as duas em nada.

Foi-lhe concedida a graça ou castigo da invisibilidade. Passava entre colegas e professores, e ninguém a via. Ouvia alguns em conversas e risos que não entendia.

Não participava nas aulas práticas, quase faltou às frequências e as notas nem lhe permitiam ir às orais. Mas disse aos pais que estava tudo bem, que como contavam, passaria de ano. Os dias iam passando e se nada sucedesse, iram saber que chumbava sem fazer nem uma cadeira.

Leu numa revista que o benuron podia matar. Um sinal também de que era o caminho certo.

Achou que seria mais fácil com álcool, embora não estivesse habituada a beber.

Faltava a mensagem, a mensagem que seria a última.

Tremia-lhe a caneta entre os dedos enquanto olhava para a folha em branco. Não sabia o que dizer.

Acabou por escrever apenas

Desculpem.

Engoliu os comprimidos, todos da caixa, com o vinho.

Pouco depois sentiu-se tão mal que achou que morria.

Vomitou.

E para cima da carta que ficou destruída.

Ainda pensou que a última mensagem acabar assim teria algum significado.

Mas por sorte nos dias que se seguiram, no resto da sua vida, deixou de ver sinais nos céus cinzentos.


sábado, abril 04, 2026

Projeto Hail Mary

 Projeto Hail Mary

Ryan Gosling é Ryland Grace, um professor que tem por missão salvar o mundo, da ameaça dos "astrophage" com a ajuda de Rocky, de Erin. Baseado no  livro de Andy  Weir, realizado por Phil Lord e Christopher Miller, com Sandra Huller, Milana Vayntrub, Isla McRae e Bastian Antonio Fuentes

Project Hail Mary - O primeiro blockbuster do ano


quarta-feira, abril 01, 2026

Anúncio

Vende-se blogue!

.

sexta-feira, março 20, 2026

 .

Os laços que nos prendem são os que nos seguram

.

quarta-feira, março 18, 2026

domingo, março 08, 2026

Hoje no Google - 8 de Março