quarta-feira, junho 03, 2026

CNEC 68/41 - 9º Texto

 

Quando acordou, o quarto estava cheio de neve.

Tomás ficou imóvel debaixo dos cobertores, a olhar para o chão branco, para a secretária branca, para o armário que parecia feito de gelo. Piscou os olhos muitas vezes. Talvez ainda estivesse a sonhar. Na noite anterior adormecera a ouvir chuva bater na janela; agora havia flocos a cair lentamente dentro do quarto, silenciosos como penas.

— Mãe? — chamou, com a voz pequena.

Ninguém respondeu.

Levantou-se devagar. O frio mordia-lhe os pés. Na parede, os desenhos que fizera tinham desaparecido. O sol amarelo, o cão torto, o barco vermelho: tudo coberto por neve espessa. Até as fotografias estavam brancas.

Tomás sentiu um aperto estranho no peito. Correu para a cozinha.

A mãe estava sentada à mesa, de casaco vestido, as mãos em volta de uma chávena vazia. Tinha os olhos cansados.

— Mãe… o que aconteceu?

Ela demorou a responder.

— O teu avô morreu esta noite.

Tomás não compreendeu logo. As palavras ficaram no ar, suspensas, como os flocos que continuavam a cair dentro de casa. O avô tinha prometido levá-lo ao rio no domingo. Tinha prometido ensinar-lhe a assobiar com uma folha de oliveira.

— Não — disse Tomás, abanando a cabeça. — Não pode.

Então percebeu. A neve não estava realmente no quarto. Estava dentro dele.

Sentou-se ao colo da mãe e ficou quieto, a ouvir o silêncio enorme da casa. Lá fora, a chuva continuava a cair, mas Tomás jurava que o mundo inteiro tinha ficado branco naquela manhã.

 

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