Quando acordou, o quarto estava cheio de
neve.
Tomás ficou imóvel debaixo dos cobertores, a
olhar para o chão branco, para a secretária branca, para o armário que parecia
feito de gelo. Piscou os olhos muitas vezes. Talvez ainda estivesse a sonhar.
Na noite anterior adormecera a ouvir chuva bater na janela; agora havia flocos
a cair lentamente dentro do quarto, silenciosos como penas.
— Mãe? — chamou, com a voz pequena.
Ninguém respondeu.
Levantou-se devagar. O frio mordia-lhe os
pés. Na parede, os desenhos que fizera tinham desaparecido. O sol amarelo, o
cão torto, o barco vermelho: tudo coberto por neve espessa. Até as fotografias
estavam brancas.
Tomás sentiu um aperto estranho no peito.
Correu para a cozinha.
A mãe estava sentada à mesa, de casaco vestido,
as mãos em volta de uma chávena vazia. Tinha os olhos cansados.
— Mãe… o que aconteceu?
Ela demorou a responder.
— O teu avô morreu esta noite.
Tomás não compreendeu logo. As palavras
ficaram no ar, suspensas, como os flocos que continuavam a cair dentro de casa.
O avô tinha prometido levá-lo ao rio no domingo. Tinha prometido ensinar-lhe a
assobiar com uma folha de oliveira.
— Não — disse Tomás, abanando a cabeça. — Não
pode.
Então percebeu. A neve não estava realmente
no quarto. Estava dentro dele.
Sentou-se ao colo da mãe e ficou quieto, a
ouvir o silêncio enorme da casa. Lá fora, a chuva continuava a cair, mas Tomás
jurava que o mundo inteiro tinha ficado branco naquela manhã.
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