1º Texto
Foram dias estranhos com céus
cinzentos escondendo sinais.
Primeiro ano na faculdade e longe
de casa.
Pais ocupados com os seus
trabalhos, confiando que seria igual ao irmão e logo teria um diploma.
Havia uma amiga, ou conhecida? Não
tinham muito em comum. Marta, era esse o seu nome, queria deixar para trás a
pessoa que fora no liceu, não lhe dava jeito nenhum que ela aparecesse a
lembrar que as duas eram o inverso de populares, e se escondiam no fundo da
sala e nas sombras do recreio. Marta mudara. Tanto que não eram mais as duas em
nada.
Foi-lhe concedida a graça ou
castigo da invisibilidade. Passava entre colegas e professores, e ninguém a
via. Ouvia alguns em conversas e risos que não entendia.
Não participava nas aulas práticas,
quase faltou às frequências e as notas nem lhe permitiam ir às orais. Mas disse
aos pais que estava tudo bem, que como contavam, passaria de ano. Os dias iam
passando e se nada sucedesse, iram saber que chumbava sem fazer nem uma
cadeira.
Leu numa revista que o benuron podia
matar. Um sinal também de que era o caminho certo.
Achou que seria mais fácil com
álcool, embora não estivesse habituada a beber.
Faltava a mensagem, a mensagem que
seria a última.
Tremia-lhe a caneta entre os dedos
enquanto olhava para a folha em branco. Não sabia o que dizer.
Acabou por escrever apenas
Desculpem.
Engoliu os comprimidos, todos da
caixa, com o vinho.
Pouco depois sentiu-se tão mal que
achou que morria.
Vomitou.
E para cima da carta que ficou
destruída.
Ainda pensou que a última mensagem acabar
assim teria algum significado.
Mas por sorte nos dias que se
seguiram, no resto da sua vida, deixou de ver sinais nos céus cinzentos.
Gostei de ler esta crónica.
ResponderEliminarOs melhores cumprimentos.