terça-feira, abril 07, 2026

E regressou o Campeonato de Escrita Criativa CNEC 68-41 1ª Jornada Mensagem

 1º Texto


 

Foram dias estranhos com céus cinzentos escondendo sinais.

Primeiro ano na faculdade e longe de casa.

Pais ocupados com os seus trabalhos, confiando que seria igual ao irmão e logo teria um diploma.

Havia uma amiga, ou conhecida? Não tinham muito em comum. Marta, era esse o seu nome, queria deixar para trás a pessoa que fora no liceu, não lhe dava jeito nenhum que ela aparecesse a lembrar que as duas eram o inverso de populares, e se escondiam no fundo da sala e nas sombras do recreio. Marta mudara. Tanto que não eram mais as duas em nada.

Foi-lhe concedida a graça ou castigo da invisibilidade. Passava entre colegas e professores, e ninguém a via. Ouvia alguns em conversas e risos que não entendia.

Não participava nas aulas práticas, quase faltou às frequências e as notas nem lhe permitiam ir às orais. Mas disse aos pais que estava tudo bem, que como contavam, passaria de ano. Os dias iam passando e se nada sucedesse, iram saber que chumbava sem fazer nem uma cadeira.

Leu numa revista que o benuron podia matar. Um sinal também de que era o caminho certo.

Achou que seria mais fácil com álcool, embora não estivesse habituada a beber.

Faltava a mensagem, a mensagem que seria a última.

Tremia-lhe a caneta entre os dedos enquanto olhava para a folha em branco. Não sabia o que dizer.

Acabou por escrever apenas

Desculpem.

Engoliu os comprimidos, todos da caixa, com o vinho.

Pouco depois sentiu-se tão mal que achou que morria.

Vomitou.

E para cima da carta que ficou destruída.

Ainda pensou que a última mensagem acabar assim teria algum significado.

Mas por sorte nos dias que se seguiram, no resto da sua vida, deixou de ver sinais nos céus cinzentos.


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