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quinta-feira, maio 27, 2021

Post 8084 - CNEC 56/24 - 10/10 - Suki

  

Chamo-lhe Suki. Soube que há quem lhe chame Branquinha e quem a conheça por Chinesinha.

É quase toda branca, aproxima-se e dá torrinhas quando quer comer. Afasta‑se depois com toda a elegância, pulando para um muro com mais do triplo do seu tamanho. Já entrou lá em casa, algumas vezes. Rápida e decidida foi até à garagem. Saiu pouco depois. Na altura pensei se estaria decepcionada, se teria ido à procura de mais comida que não encontrou.

Com ela começaram a aparecer outros. Mais assustados e selvagens.  Um deles só se aproxima quando me afasto e tenta levar a comida com ele para longe.

Há cerca de uma semana, numa noite quente, fui dar comida à Suki e fiquei algum tempo com ela cá fora. Da rua, àquela hora vazia e silenciosa, ouvi primeiro os passos e vejo depois um rapaz com auscultadores e um grande cão branco. Sem que inicialmente percebesse a razão, estacaram e ficaram parados mesmo à frente do portão, a três metros de onde estávamos. O cão não ladrava, nem parecia sequer ter-nos visto, assim como o rapaz, até que a certo momento me vê.  Nessa altura pareceu alarmado e gritou para alguém inexistente à sua frente “não tenho sacos, tenho de os ir buscar”, puxou pelo cão que estava ocupado a deixar um presente junto ao portão e afastou-se acelerado.

Surpreendentemente, não voltou…

Soube há pouco tempo por uma vizinha que a Suki e outros gatos “pertenciam” a uma senhora de idade que morava perto e lhes dava comida. Infelizmente a senhora morreu. Já não está cá para lhes dar comida e cuidar deles. Quando entra na nossa casa, acho agora que a Suki vai à procura dela.

sexta-feira, maio 21, 2021

Post 8078 - Desafio de Escrita dos Pássaros 3.2 - Tema 2 - Afinal havia outro...Fogão

 Afinal havia outro...Fogão

 

Juntos há doze anos era sempre Ana que cozinhava. Carlos pouco sabia de cozinha e ela fazia tudo tão bem que ele se habituou. Ajudava-a às vezes a lavar a louça ou a metê-la na máquina. 

Para Carlos estava tudo bem até que começou a reparar que Ana andava estranha. Queixava-se do fogão, que os discos estavama pifar, que já ninguém arranjava aquilo. Parecia deveras aborrecida, mas depois ia arranjar-se e trazia comida de fora.

Ultimamente parecia-lhe que ela lhe queria dizer alguma coisa, mas depois não dizia o que era.

Começou com o ser importante sair da rotina, mudar para o que é novo e vai daí perguntou-lhe se podiam adiar as férias, e utilizar o seu subsídio para outra despesa. Respondeu-lhe logo que sim. Ela pareceu feliz com a sua resposta, o que o deixou ainda mais preocupado. Será que ela não queria mais que passassem férias juntos?

Haveria outro?

No dia seguinte quando regressou a casa do trabalho ela já lá estava e parecia muito feliz. Anunciou-lhe: "tenho uma surpresa, segue-me" E ele seguiu-a...até à cozinha. No lugar do antigo, estava agora um novo fogão de placas vitro-cerâmicas!

Havia outro, e com ele continuaram a viver os dois felizes para sempre.

quinta-feira, maio 20, 2021

Post 8074 - CNEC 56/24 - 9/10 - Rebelde e exemplar

 

 

Quando pensamos em quando fomos crianças, vemo-nos como rebeldes ou exemplares?

O meu primeiro ano na escola foi num Colégio de Padres, depois passei a frequentar o ensino oficial. Eram mais exigentes e com a mudança vi-me de repente como uma boa aluna.

Como é que eu seria se tivesse continuado naquele Colégio?

Não era má aluna, mas não me parecia importante não o ser.  Começámos logo a escrever com caneta ou lapiseira (na escola oficial voltei ao lápis) e antes do Natal tínhamos de aprender a tabuada até aos cinco. Apesar de já a saber, uma colega desafiou-me a pedir para ir à casa‑de‑banho na altura em que a professora nos interrogava. Ela não pareceu estranhar que o fizéssemos as duas. Locais familiares como o recreio, porque então vazios pareciam de repente só por isso estranhos.

Havia um parque com quatro baloiços. No intervalo, eu saía a correr e colocava-me de pé em cima de dois, reservava um para a minha irmã que estava no 4º ano. Nenhum aluno da minha classe ou mais velho, alguma vez me exigiu o baloiço abusivamente ocupado.

Uma manhã, antes do início das aulas decidi que a minha instrução ia ficar por ali. Preferia ficar em casa com outra irmã mais nova. Lembro-me da minha irmã com nove anos assustada com a ideia (era o nosso pai que nos levava de carro até ao Colégio) e da professora dela, que ia a entrar na mesma altura, a tentarem demover-me, em vão.  Já me preparava para iniciar o caminho a pé quando chegou o nosso pai. Tinham-no avisado e ele não gostou da interrupção forçada no dia de trabalho. Levei um açoite e resolvi repensar a minha decisão.

Como é que com seis anos fui assim?

De rebelde e exemplar todos teremos um pouco.


terça-feira, maio 11, 2021

Post 8063 - 1º Campeonato Intensivo de Escrita Criativa 4/4 O abraço proibido

 

O Mundo inteiro está cheio de abraços proibidos que podem com o tempo deixar de o ser ou tornarem-se pela morte para sempre impossíveis.

No tempo dos nossos avós pela tuberculose e outras doenças infecto-contagiosas, actualmente pelo Covid.

Pensava nisso enquanto sentia a falta de um abraço.

Estivera com um colega que acusara positivo. Não tinha sintomas, mas devia manter-se em isolamento. O irmão cedeu-lhe um apartamento que tinha para arrendar.

Tudo certo e previsto, se o tivesse cumprido, mas quis ir ver a namorada.

Dez quilómetros a conduzir por estradas secundárias, mal iluminadas e com buracos. Não lhe disse nada, queria só vê-la. Talvez a apanhasse ainda acordada.

Chegou já de noite. Havia luz na casa e um carro que não reconheceu parado à beira. Estacionou o seu mais longe. Foi-se aproximando devagar. A porta abriu-se. Um homem saía, ela na soleira da porta, só de camisa.

Abraçaram-se.

A infiel traía-o. Um abraço proibido que também poderia trazer morte, mais do que o Covid que afinal não tinha.

Se tivesse uma arma teria disparado. Se realmente estivesse doente e com a pior das pestes cuspiria para cima dos dois.

Beijaram-se e despediram-se.

Dera a outro o abraço que era seu, que tanto queria e agora o enojava.

Escondido, não disse nada. O outro meteu-se no carro, um Opel e arrancou. Ela fechou a porta e foi para dentro.

Rastejou até ao seu Fiat. Vomitou antes de se enfiar lá dentro. Tremia pelo que acabara de ver. Só lhe faltava agora estampar-me ou ser detido pela polícia.

Regressou a onde partira, pelos mesmos caminhos, mas mudado.

Mil e uma coisas lhe passaram pela cabeça. Vingar-se, fazendo-lhe o mesmo. Não tinha com quem, nem queria ter. E em isolamento, também não o poderia fazer.

Queria que o tempo recuasse, queria não ter lá ido. Queria confrontá-la ou esquecer.

Entretanto passou tempo. Não lhe atendeu os telefonemas, mas completados os dez dias foi vê-la.

Julgou que passara a raiva e ficara apenas mágoa.

Foi ter com ela para o ponto final. Contou-lhe aquilo a que assistira e a infeliz negou-o.

Não viu mais nada. Apertou-a contra si, pensou matá-la com um abraço. Largou-a, e ela desfaleceu. Por pouco não desgraçava aos dois.

Nessa altura chegou a irmã dela com o novo namorado, num Opel, o Opel da noite fatídica.

 

 


sexta-feira, maio 07, 2021

Post 8059 - Desafio dos Pássaros 3.0 - 1º

 #desafiodospássaros3.0.  - 1 - (embora com atraso, devia tê-lo publicado às 15.00 horas).


Como é que eu sei isto?

O Covid foi inventado em Laboratório.

Com a vacina injectam um chip e passam a controlar a nossa mente. Sem querer vamos ser levados a comprar artigos de que não precisamos.

Aliás nem existe pandemia, foi tudo inventado e temos é de ser pela verdade!

Os alienígenas estão entre nós. É difícil detectarmos um. Temos de ter muita atenção e ver se descobrimos alguém que seja tão normal que nunca repararíamos nele. Mas depois, temos de ter muito cuidado, porque se ele se aperceber que o topámos, apaga-nos a mente.

E eu sei tudo isto porque…


Participantes no Desafio:

Ana Deus escreve aqui

Ana Mestre escreve aqui.

Biiyue escreve aqui.

Caracol escreve aqui

Carla escreve aqui.

Cátia Madeira escreve aqui.

Dono Redonda escreve aqui.

Drama escreve aqui.

Di escreve aqui.

Fatia escreve aqui.

Gaivota Azul escreve aqui.

I'm Silva escreve aqui.

Introvertida escreve aqui.

José da Xã escreve aqui

Lara escreve aqui.

Lu escreve aqui.

Maria escreve aqui.

Maria Araújo escreve aqui.

Marta escreve aqui.

Mariana escreve aqui. 

Miúda escreve aqui.

Miss Lollipop escreve aqui.

Mónica Morais escreve aqui.

Rita escreve aqui

Sam ao Luar - sem blogue

quinta-feira, maio 06, 2021

CNEC 54/26 - 7/10 - A suspeita

  

Primeiro foi com a comida.

Pareceu-lhe que o ensopado tinha um gosto estranho. E ela não se sentou a comer com ele. Disse que estava de dieta.

Ficou um pouco indisposto, mas podia apenas ter-lhe assentado mal.

Reparou então como ela andava a arranjar-se melhor e se atrasava nas compras.

Mau, mau. Haverá gato na costa?

Resolveu iniciar também uma dieta, mas especial. Em casa só fruta e água. Andava esfomeado e aproveitava todos os almoços de trabalho após confinamento para se vingar e comer tudo o que lhe aparecesse pela frente. Passou até pela situação caricata de preterir a oferta da nova e atraente colega “se não podia ajudá-la na hora do almoço, que tinha um processo complicado”. À partida ele não era de enganar a mulher e depois era dia de feijoada.

Ela ficou aborrecida, não lhe voltou a pedir ajuda. Ostensivamente voltou-se para o colega deles, Carlos.  Que lhe fizesse bom proveito. Quanto a ele só tinha olhos para a sua Ana e para os almoços na Cantina.

Voltando à Ana, não sabia o que fazer.

Continuou atento aos seus cozinhados, dietas, vestimentas e atrasos.

Até que não aguentou. Tinha de descobrir o que se passava.

Vou segui-la. Vai ter de ser.

Na sexta-seguinte deixou que ela saísse primeiro e minutos depois, após se ter disfarçado com uma gabardine velha (e um pouco bolorenta) e de boné começou a segui-la, de longe.

Alguns transeuntes com quem se cruzou olharam-no de lado. Convinha ter cuidado. Ainda o tomavam por tarado e chamavam a polícia.

Com o coração aos pulos apercebeu-se que ela não seguia para o Shopping. Mas não ia fazer compras e lanchar com as amigas?

Apertou o certo e viu-a entrar numa casa baixinha.

Esperou e aproximou-se.

Percebeu tudo então, o letreiro anunciava “Escola de Culinária.”

terça-feira, maio 04, 2021

Campeonato Intensivo de Escrita Criativa 3/4 - Conta-me o que me fizeste

 Conta-me o que me fizeste.

 

 

Não sabia muito dela. Nem quis saber, enquanto foi viva.

Uma mulher gasta e perdida. Comprei-a para uma noite e seguiu-me. Foi ficando pela minha casa, usava-a e dava-lhe o que ela queria, álcool e drogas.

Uma noite em que pensei que dormia, apanhei-a a ouvir o que não devia. Ela percebeu o seu erro, mas eu não podia confiar numa vadia. Aposto que venderia a própria mãe por uma dose. Disse-lhe que estava tudo bem. Quando ela se virou, talvez para fugir, espetei-a. Matei-a, ou julguei que o tinha feito.

Larguei o seu corpo no monte. Por ali havia javalis, e com sorte iriam comê-la. Acreditei que nada dela sobrara, nada mais nos ligava. Algum tempo depois, um agente chegou a vir falar comigo. Tinham participado o seu desaparecimento. Pelos vistos, ainda haveria alguém que se importava com ela, mas sem rasto, nem corpo, arquivaram o caso.

Anos mais tarde vi-me a morar só e inválido nesta mesma casa, e foi quando ela voltou.

Estou velho e doente. Antes tive algum poder, fui temido. Hoje mais do que odiado, sou desprezado. Não há ninguém que possa chamar, ninguém que viesse por mim. Arrasto-me pelas escadas e quartos. E ouço a sua voz:

- “Conta-me o que me fizeste.”

Quando adormeço, sinto-a a rondar-me, perto. Quer levar-me para o Inferno de onde saiu.

Pressinto a morte próxima, assim como ela.

Acordei nauseado e com dores, nos braços e pernas, que sangram e não me obedecem.

Via-a. Estranhamente, parece mais velha. Também os fantasmas envelhecem. Repete na voz que reconheço:

“Conta-me o que me fizeste.”

Se o disser, talvez me deixe em paz.

Balbucio: Cortei-te a garganta e larguei-te no bosque.

Ela aproxima-se, na mão direita traz a faca com que me cortou e me vai espetar, na mão esquerda, um papel.

Sinto a lâmina fria no pescoço, olho e vejo que o papel é uma fotografia de duas miúdas iguais, gémeas.

quinta-feira, abril 29, 2021

CNEC 54 - 26 - 6/10 - O Banco

 Sentou-se no banco e olhou à sua volta. Depois das amendoeiras, começavam os ramos das árvores a cobrir-se de folhas e flores. Havia alguma erva, a precisar de cuidados depois de tantas vezes calcada por quem não respeitava os caminhos. Aquele era um jardim de passagem, com um solitário banco, quase sempre deserto, porque ninguém o escolhia para assento.

Os prédios altos à volta vigiavam a pouca luz que deixavam passar.

Não reconhecia o local, constatava apenas o que via à sua volta. Estava bem, não tinha frio, nem fome. Sabia que era para esperar alguém, mas não se lembrava bem de quem.

Talvez da sua mãe.

Viu então um homem que lhe pareceu vagamente conhecido. Passara-lhe a princípio despercebido porque imóvel encostado a uma arvore. Agora reparara nele e não gostou do olhar dele. Era-lhe vagamente conhecido. Lembrava um pouco o seu pai, mas o seu pai nunca andaria assim vestido, com calças de ganga e cabelo comprido. O pai acordava sempre bem-disposto, era o primeiro a arranjar-se de manhã, cheirava bem quando lhe dava um beijo de bom dia. Gostava de quando ele a levava à escola.

Já não o via há quanto tempo?

Olhou para as mãos que tinha sobre os joelhos e não as reconheceu. Tinham-se transformado nas mãos da sua avó, com pintinhas castanhas, veias azuladas e as unhas para o amarelo. Algo de estranho se passava.

O homem veio na sua direcção, vinha falar com ela. Assustou-a, o que é que ele poderia querer dela?

- Mãe, está na hora de irmos!

Como mãe? Porque lhe chamava mãe a ela? Então, por uns instantes viu para além do ar impaciente e cansado que ele mostrava e viu um menino que ela também levara à escola.

- Sim Zé, está na hora de irmos.

quarta-feira, abril 28, 2021

1ºCIEC - 2/4 - O assalto

         Entraria pelo banco, mascarado, claro. Com confiança iria até à caixa e mostrar‑lhe‑ia o papel onde estava escrito:

- “Isto é um assalto, passe o dinheiro que tem na caixa e ninguém se irá magoar!”

Hesitava sobre se nessa altura lhe deveria mostrar a arma e que arma devia levar, uma faca ou a pistola de água que parecia de verdade.

Sabia pelos filmes que teria apenas alguns segundos antes que alguém tocasse o alarme e viesse a polícia. Levava um saco onde colocaria o dinheiro e sairia dali em passos rápidos e seguros. Já na rua, montaria na bicicleta, seguiria pelas ruas estreitas entre turistas, deixaria para trás a bicicleta, o casaco, a máscara. Ninguém o iria reconhecer sem eles.

Na noite antes do dia escolhido dormiu mal e estava já bem desperto quando o despertador tocou. Levantou-se e procurou nos gestos rotineiros alguma tranquilidade. Olhou-se no espelho quando decidiu não fazer a barba, e não lhe devolvia a imagem do homem confiante que queria ser. Teve de voltar atrás duas vezes porque se esquecera primeiro da máscara, depois da faca.

 Chegou quando abria e mesmo assim tinha dois clientes à sua frente. Resolveu esperar cá fora que fossem atendidos, os dois e um terceiro que chegou depois dele. Entrou finalmente quando seria o único na dependência além dos funcionários. Sentiu-se tremer quando se dirigia para a caixa e foi então que ouviu atrás dele o barulho da porta a bater e entraram dois mascarados. Um deles gritou:

- “Todos para o chão, isto é um assalto!”

Trazia com ele uma metralhadora. O outro avançou para o balcão, saltou para o lado de lá e começou a encher um saco. Foi rápido e eficiente, e os dois saíram sem disparar um tiro quando começou a soar o alarme. Devem ter tempo suficiente para escapar, pensou, enquanto se levantava do chão. Lembrou-se então que estava também mascarado. Se o apanhassem ali, iriam pensar que estava com os outros dois. Saiu disparado. Montou na bicicleta, seguiu pelas ruas apertadas, deixou para trás a bicicleta, o blusão e a máscara. Chegou a casa em sobressalto, o coração a bater. Talvez ainda pudesse recuperar a bicicleta se ninguém desse por ela. E talvez fosse melhor repensar esta opção profissional, especialmente depois de um dia a terminar só em prejuízo.

quinta-feira, abril 22, 2021

1º Campeonato Intensivo de Escrita Criativa

 

Nunca mais é Sábado

 

Traduziria bem o meu estado de espírito a frase “Nunca mais é Sábado”.

Hoje é Domingo, final do dia.

O meu nome é Eva, o da primeira mulher.

O Rui foi deitar o Bernardo, e amanhã será ele a arranjá-lo.

Amanhã, apesar de tudo, estarei melhor. Hoje vejo tudo cinzento. Não percebo onde falhei, porque é que não sou feliz. Sou bonita e atraente – não são conceitos vazios, é assim que me vejo, é assim que sei que me veem. Tenho um bom emprego, um marido, o Rui, também atraente – ficamos bem os dois nas fotografias ou vídeos, uma boa casa, um filho de cinco anos, temos saúde, o apoio da família e amigos. Mas, no Domingo à noite, sinto-me sufocada, só me ocorre pensar onde é que errei?

Não amo o Rui, acho que nunca o amei. Damo-nos bem. Ele diz que me ama, talvez seja verdade, mas eu também lhe respondo o mesmo. Sinto prazer com ele, mas já não há paixão. O conhecimento e a rotina, acabaram com o mistério. Não tenho grande instinto maternal. Foi mais por insistência do Rui e do mundo à nossa volta que avancei para a gravidez. Gosto do miúdo, gosto que esteja bem, gosto que quando faz alguma gracinha digam que se parece comigo, mas não tenho grande instinto maternal. Em casa isto está bem assente, são mais as avós, a empregada, e o Rui que tomam conta dele. Tenho amigas que me invejam e copiam. Sábado à noite é a minha noite para sair. O Rui pensa que é para sair com elas, e às vezes, até é. Para tornar a minha vida mais interessante e sem que o Rui o saiba, de vez em quando arranjo um amante. Tem de ser alguém casado e com filhos, que também só queira uma aventura. Terminei com o último porque estava a ficar muito agarrado. Chegou a falar em deixar a mulher. Tive de lhe dar a volta e pôr um fim naquilo. Penso arranjar outro. Tenho de arranjar outro. Talvez o Bruno da empresa. Por um lado, está demasiado próximo, mas por outro lado, no outro dia conheci a mulher dele. Absolutamente apagada e feia. Mas ele parece ligado à família, sobretudo aos filhos. No próximo Sábado talvez dê para ficarmos os dois sozinhos pela empresa e será fácil. Estou a precisar de algo assim.

 


Título do Livro – Nunca mais é Sábado ou Sábado, um de nós vai morrer

 

I Capítulo Nunca mais é Sábado


O livro terá sete capítulos, os seis primeiros serão dedicados a cada um dos seis personagens, Eva, Lídia, Óscar, Bruno, Rui e Pedro, e irão correspondendo aos dias de semana, começando pelo Domingo. No último capítulo, finalmente o Sábado, sabemos quem morre, porquê e como.

Eva, Domingo

Lídia, Segunda-feira, assinou a declaração de consentimento para uma cirurgia no Sábado;

Óscar, Terça-feira. Foi condenado por perseguição e tentativa de violação acredita que a Eva lhe dá sinais de se interessar por ele

Bruno, o marido de Lídia, Quarta-feira. No Sábado ao sair do Hospital não repara num carro que vem na sua direcção.

Rui, o marido de Eva, Quinta-feira. Descobre que está a ser enganado e prepara-se para a surpreender com o amante no Sábado.

Pedro, tirou a carta na Sexta-feira e sai com o carro do pai no Sábado

quinta-feira, abril 08, 2021

Post 8020 - CNEC 54 -26 - 3/10 - Luz e sombra

 

Luz, sombra

 

O que aconteceu, como foi possível?

Não quero pensar no antes.

É horrível acordar no meio da noite. Parece que sufoco. Lembro-me, e naquela altura ainda não construi qualquer defesa. A escuridão não me esconde, pesa-me. Passei por vários anti-depressivos que me faziam dormir. Sono sem sonhos, do qual não queria acordar. Despertava e estava ali, apunhalava-me, a minha nova realidade. Nunca fui de beber, mas procurei embriagar-me. Não resultou. Tenho um vinho triste. Afundava-me na auto-piedade, enojava-me de mim mesma, acordava com a ressaca.

Não quero pensar. Não quero lembrar-me que já fui outra.

Houve um Luís. Posso ver as fotografias, vou esquecendo a sua voz. Amante, amigo, mais que tudo. Íamos comprar uma casa, ter filhos e envelhecer juntos, a vida entrelaçada, nós. Houve um nós. Fui feliz nos dias que se sucediam, intensos e luminosos. Não pensava nisso então, vivia. Tinha, não, tínhamos, muitos planos

Ele preocupava-se comigo, como quando eu ficava sozinha nas noites em que ele trabalhava longe. Comprou-me uma arma, ensinou-me a atirar. Riu-se da minha falta de habilidade.

Não quero pensar. Não quero lembrar-me.

Mas não consigo nunca esquecer.

 

Acordei em sobressalto com um barulho que juraria vir da sala.  Podia ter falado alguma coisa. Podia ter fugido, ou ligado para a Polícia, mas fui buscar a arma. O coração aos pulos, pé ante pé fui para a sala. Vi um vulto – não havia luz, porque é que não a ligou? – e disparei.

Houve um Luís. Houve um nós.

quinta-feira, abril 01, 2021

Post 8007 - CNEC 54 - 26 - 2/10 - A decisão

 
Quem decidiu não fui eu
 
 
Talvez já não gostasse dele, se é que alguma vez gostei.
No início, apesar de deslumbrada, assustou-me levemente a corrida em que nos metia.
Namoramos e vamos logo morar juntos. “A tua família e amigos devem ficar longe, na casa deles. Temos de ter a nossa intimidade.”
Mas que intimidade?
Eu a tentar manter tudo em ordem para que não se zangasse, enquanto ele bebia cerveja e assistia a jogos de futebol na televisão ou saía para ir vê-los com os colegas e compinchas.
Grata e agradecida que saíssem, ao invés de berrarem se havia golo ou falta, e filho da puta do arbitro que era cego e nada via, e deixarem depois a sala desarrumada, copos sujos e garrafas esquecidas.
Vendo meu desencanto saiu-se com “se me deixas, mato-te e mato-me”. Se ao menos se matasse primeiro.
Tinha-me iludido, não era um príncipe, mas um traste, potencialmente perigoso.
Não me deixaria ir, tinha de definir uma estratégia e arranjei um plano.
Comecei a ouvir vozes, a não acertar em nada, limpezas, lavagens, cozinha, mas mal ele chegava corria para ele, suada e louca: “amor não me deixes”.
Se ralhava porque nada estava pronto, concordava com ele, “tens razão amor, não consegui, não te mereço, mas não me deixes que sem ti morro.”
A certa altura, ele mudou a ameaça: “se não voltares a limpar, lavar e cozinhar como antes, deixo-te!”
“Não, não, não! Nunca!”
Continuei a falhar, desarranjada e pegajosa, e ele decidiu castigar-me. Fez as malas vociferando: vou deixar-te!
Só faltou arrastar-me aos seus pés quando ele de malas feitas me atirou com a chave da porta.
Foi-se.
 
Depois.
 
Ele, espantado, a seguir perturbado e zangado, tarde demais para voltar se eu não lhe pedisse…
Não lhe pedi.
 
Eu, finalmente livre.

 

quinta-feira, março 25, 2021

Post 7996 - CNEC 54-26 - 1ª Jornada - 1/10 - O Segredo

 

 

Pode um segredo unir-nos

e definir quem somos.

 

Intervalo das aulas em tarde de Inverno.

Não há muito para fazer cá fora. Os rapazes jogam à bola. Têm brincadeiras brutas, com pontapés e lapadas uns aos outros. Em grupo são meio assustadores.

Então noto que não é com uma bola que jogam. Perto de mim jaz o corpo de uma boneca. Arrancaram-lhe a cabeça que lhes serve de bola. Ela parece-se com a minha boneca Joaninha. Já não brinco com ela - tenho dez anos, sou crescida para brincar com bonecas - mas deixo-a em cima da cama quando saio para a escola e gosto de a reencontrar quando regresso.  Foi o meu segredo para não ter medo de trovões nem de dormir no escuro. Não estava sozinha, porque ela estava comigo.

Não devem tê-la tirado a nenhuma menina, as funcionárias não o deixariam e não podemos trazer brinquedos para a escola.

Alguém tê-la-á deitado fora e eles encontraram-na. Parece-se com a Joaninha. Não é uma boneca cara. Não é daqueles que falam ou andam. Tem rosto e corpo de bebe. Devia ser abraçada e não pontapeada. Pego com cuidado no seu corpo. Queria ter a coragem de ir para o meio do jogo e salvá-la. Se tentasse dizer-lhes alguma coisa não me iam ouvir.

Começa a chover fininho e toca para dentro quando o Rui num pontapé a manda para as silvas. O Delfim que é baixinho e por isso muitas vezes não o escolhem para jogar, grita para os outros que irá buscar a bola. Todos vão para dentro, cá fora só ficamos os dois. Quero pedir-lhe a cabeça, mas não sei como.

Ele olha para mim e diz-me enquanto me a entrega: “esconde-a, será o nosso segredo”.

Baptizei-a Ana.

Afinal os rapazes não são assim tão maus.

 

quinta-feira, março 11, 2021

Post 7978 - Desafio de Escrita - CNEC 53-25 - 9/10 - Final de dia

Final de dia

 

Abriu os olhos e nada viu.

Correção, nada de estranho viu.

Tudo parecia estar igual, tudo no seu devido lugar.

Nada de pequenas fadas escondidas e agarradas a folhas empurradas pelo vento. Nem faunos ameaçadores, ou piratas com ganchos que as perseguissem.

Atrás de si ficava a casa. De onde estava, via relva, árvores, os muros que separavam o terreno do dos vizinhos. Múltiplos tons de verde que mudavam até com o sopro de vento e raios de luz.

Já antes de abrir os olhos, sentia a tarde adiantada, de sol e calor.

Passara pelas brasas em pequena sesta. Sentado na cadeira de jardim, cabeça e braços à sombra, as pernas agora aquecidas pelo sol que descia e virava para poente.

O ar cheirava a dias de verão, às sardinhas e pimentos que um vizinho algures assava, e ouviam-se mais distantes, gritinhos e risos de crianças – as pequenas fadas e companhia -  e agora também a voz das mães que os chamavam.

Não tinha mais recomeços, ou a ilusão de os ter. Sabia ser já impossível corrigir erros, e inútil, matutar neles. Não poderia mais compensar familiares e amigos, pelos encontros adiados e a falta de tempo. Quase todos tinham já partido. Em breve iria juntar‑se a eles.

Mas tinha aquele dia, o resto da tarde, o calor do sol que o aquecia, o que conseguia ver e ouvir à sua volta.

Sairia dali só quando escurecesse.

Em casa fritaria um ovo para o jantar, faria de conta que era novo quando se fosse deitar, e esperaria sonhar com fadas, faunos e piratas.

quinta-feira, março 04, 2021

Desafio de Escrita, CNEC 53/25 - 8/10 - Irene

  

“São precisos finais para haver recomeços

e todos os caminhos são cheios de tropeços”

Lema de Irene até ao dia x

 

 Irene sabia desde sempre que era especial, apesar de mais ninguém o ter ainda percebido.

Filha única, perdera os pais cedo, antes de se formar Enfermeira. Não tinha amigos, mas não sentia falta. Após estagiar no Hospital, começou a trabalhar num Lar.

 Antes, gostava de passar pela ala dos recém-nascidos, agora tinha ao seu cuidado idosos. Aos primeiros aguardavam infinitas possibilidades, os outros, até as memórias perdiam.

Foi então que começou a ouvir as vozes.

Discutia-se a eutanásia, se devia ou não ser aprovada. A olhar para os seus pacientes, frágeis e doídos, percebeu que só a morte lhes traria paz. As vozes disseram-lhe que era o seu destino, o que sempre pressentira, seria o Anjo da Paz.

Elegeu a primeira beneficiária na noite de Natal. Havia redução do pessoal e aquela senhora nunca tinha visitas. Injectou-lhe a insulina enquanto dormia.

Ela passou mal, soou o alarme e reanimaram-na.

Errara na medida, pensou quando saiu. Foi a remoer no caminho para casa, agarrada à carteira onde levava a injecção e a embalagem usadas. Da próxima vez ia aumentar a quantidade, escolheria melhor o paciente, alguém mais inerte, talvez incapaz de falar.

Absorvida nos seus pensamentos não se apercebeu que era seguida.

 

Zé magro, toxicodepedente, condenado por roubo, saíra há pouco da prisão. Precisava de uma dose.

Um tropeço e estava à frente dela. Quis tirar-lhe a mala e Irene agarrou-se a ela. Puxou da navalha e nada. A cabra estúpida devia lá ter dinheiro, concluiu ele, enquanto ela só pensava nas provas que a condenariam e nos seus planos para o futuro.

Tudo se precipitou, queria cortar-lhe a alça da mala, mas falhou, e espetou-lhe a lâmina na garganta… 

quinta-feira, fevereiro 25, 2021

Post 7961 - Campeonato de Escrita 53/25 - 7/10 - O que vejo da minha janela

O que vejo da minha janela

 

Chuva, chuva, chuva.

Na rua inclinada há um rio de lama que cresce e ruge.

Uns poucos carros ainda se aventuraram a subir e a descer, mas o último foi arrastado pela torrente de lama. À janela o condutor e passageiro, os dois de máscara pareciam alarmados, mexiam muito os braços. A viagem forçada parou quando embateram no contentor verde de lixo. Fugiram a nadar para longe do carro e da rua.

Desde então, mais nenhum carro se viu.

Nem gente valente que lutasse contra a corrente ou nadasse pelo rio.

Continua a chuva, indiferente e impaciente. Sucedem-se as bateladas, ávidas e geladas.

Antes pensava que vivendo no segundo andar estava segura.

Deixei de ouvir os do primeiro andar há alguns dias. Também não falavam muito. À noite escutava os seus suspiros fundos, mas agora só ouço a chuva.

Os do rés-do-chão mudaram-se há muito, partiram num bote. A senhora de xaile repetia “viver assim não é possível”. O marido de galochas amarelas nada dizia. Levavam pouca coisa. O resto não cabia no bote ou estragou-se.

Cresce o rio, sobe a água.

Já quase não tenho comida. Não há luz, nem gás, mesmo onde não chove, está húmido. A humidade inunda a casa, sinto-a nos ossos, dor contínua e fina.

A enxurrada leva tudo, poderá levar a casa?

Enfrentarei o dilúvio, sem arca.

De noite sonhei que fujo de balão para um país quente. De cima olhamos para baixo e à volta, o céu azul sem nuvens, a terra vermelha e seca, o sol enorme, bola laranja e amarela, ardente.

Acordei e algo de estranho se passava.

Não ouvi a chuva.

quinta-feira, fevereiro 18, 2021

Desafio de Escrita CNEC 53/25 - 6/10 - A mensagem

        Andavam aborrecidos por insignificâncias. Pela falta de tempo e exigências do trabalho. Acusavam-se um ao outro de pouco fazerem em casa, ou pela relação. Seria a crise dos sete anos.

Era o seu aniversário, mas de manhã ela não lhe disse nada.

Ele saiu sem se despedir, sem combinar sequer que iria ele buscar a miúda.

Começou a sentir-se culpado quando saiu do trabalho às cinco e não passou pelo Infantário.

Chegou e não estava ainda ninguém. Foi arrumar uns papeis, responder a emails e sms de feliz aniversario, sem dar pelo tempo que passava. Escurecia e nada de aparecerem. O telefone de casa tocou e o som assustou-o. Raramente ligavam para este. Era sua sogra – tinha de ser. “Liga a televisão”, ordenou-lhe com uma voz alterada. Fê-lo. A policia cercava o Centro Comercial ali perto. A sogra continuou: “A Ana foi comprar-te uma prenda e está lá com a menina”. Começou aí o seu pesadelo.

Correu para lá. Os Agentes não o deixaram passar, a ele e a tantos outros que preocupados com familiares e amigos esperavam. Estava um louco lá dentro aos tiros. A polícia ia entrar.

E entrou. Ouviram-se tiros e gritos. Alguém disse que fora atingida uma criança ou ele julgou tê-lo escutado?

Tanto lhe parecia que o coração lhe parava no peito, como lhe começava a bater acelerado.

Queria só tê-las de volta. Não podia fazer nada a não ser esperar e pesava-lhe cada segundo.

Avisaram que o suspeito fora desarmado, mas primeiro iam entrar os paramédicos e era preciso proceder a uma busca, garantir que actuara sozinho e o local estava seguro.

Pensou, se iam entrar os paramédicos era porque havia feridos, talvez mortos.

Ouviu então o som de uma mensagem. Foi ver. Era da Ana: “Estamos as duas bem, amo-te e parabéns.”

quinta-feira, fevereiro 11, 2021

CNEC 53/25 - 5/10 - Era uma vez um sonho

 Era uma vez um sonho que uniu um casal.

- Conta outra vez, mãe!

- Já contei mais cem, tu e a tua irmã não estão já fartas de me ouvir?

Em coro, as duas: “Não!”

- Então, vamos lá:

Era uma vez um sonho que uniu um casal.

Estavam os dois na melhor confeitaria do reino, mas não se conheciam, e o príncipe pediu o último sonho. Aquele era o melhor sonho que alguma vez existira, dourado, coberto de açúcar, docinho e absolutamente perfeito, e era também o último.

Quando o colocaram num prato à sua frente, reparou o príncipe que atrás de si, segunda na fila, estava a mais bela princesa – nesta altura o pai das crianças e marido há dez anos, que parecia estar absorvido nas Noticias, ergue as sobrancelhas e diz algo imperceptível.

Não deixo que me perturbe e continuo, “a mais bela princesa por fora e por dentro, olhava para o sonho, triste e ansiosa, porque se apercebera que era o último, além do mais perfeito.

Foi então que o príncipe gentilmente recuou para lhe ceder o sonho, mas…”

- “Mas”, repetem as filhas, na expectativa,

- O vosso pai, terceiro na fila, avança, agarra o sonho e devora-o só com uma dentada!

As filhas riem, e pergunta a mais velha: “e porque não escolheste antes o príncipe, mama?

Olho para marido, de novo aparentemente absorvido nas notícias e escolho um final diferente, “bem, eu tinha de o fazer pagar”

Ele também ri e vem ter connosco, “preferia a outra versão da história, como era? do terceiro da fila ser bem mais atraente e simpático. Muito bem meninas, qual é a moral da história?”

Elas não sabem, e ele responde: “não desistam de agarrar o vosso sonho” e agarra-me a mim.

quinta-feira, fevereiro 04, 2021

CNEC 53/25, 4/10, Falei-te naquele dia

 

“Falei-te naquele dia que não gostava de te ver com esse vestido preto. É muito escuro e triste.” Susana olha para o meu retrato por alguns segundos. Suspira e volta para o quarto. Será que me ouviu? Regressa com outro vestido, o verde que comprámos as duas. Com ele parece mais alegre e jovem. É tão bonita a minha filha. Pára à frente do meu retrato e sorri para a imagem. Nele, eu não estou bem a sorrir, mas tenho um ar feliz, e menos anos, como era antes da doença que me levou. Queria retribuir-lhe o sorriso, espero que o sinta, assim como o amor e o orgulho que tenho nela. Sai porta fora e não a sigo. Fico ali por casa.

Não vi nenhuma luz branca para a qual caminhar, não escutei ou senti qualquer presença. Soube que morri porque pararam as dores, a pressão no peito e o medo. Estava num hospital e não via ninguém que conhecesse, mas de alguma forma consegui regressar a casa. Serei talvez um fantasma. Não sei porque permaneço, não me sinto triste ou só, antes aliviada. A vida continua.

Um som vindo da porta chamou-me a atenção. Ter-se-ia esquecido de alguma coisa? Vou ao seu encontro, mas deparo-me com o antigo namorado dela. Nunca gostei do Nuno. Não a tratava bem e enganava-a. Não lhe disse nada, mas apoiei-a quando acabaram. O que fará aqui? Esteve a beber e parece zangado. Está à espera da Susana. Pressinto que lhe quer fazer mal. O medo e amor dão-me força. Quando me torno visível o frio invade a sala. Ele estaca, olhos arregalados. “Dá-me a chave!” Ele obedece e enquanto recua para a porta, ordeno-lhe “nunca mais a procures!”. Vejo-o a fugir.

Percebo porque fiquei e sei que agora é hora de partir.

quinta-feira, janeiro 28, 2021

Post 7920 - CNEC 53/24, 3/10 - O Choro

 

O choro parecia-lhe às vezes, como agora, o miar de um gato. Não a deixava dormir, mas não era tão mau como quando berrava com fome. Era incrível como uma criaturinha tão pequena conseguia gritar daquela forma, um som elevado e contínuo, nem parecia sequer que parasse para respirar. Ninguém lhe contara que seria assim. Ou se lhe contaram, não ouviu.

Enquanto a barriga lhe crescia e passara pelos enjoos, dores de costas, pressão na bexiga, a mãe, tias, amigas já mães, vizinhas, praticamente qualquer mulher com que se cruzava, contavam histórias horríveis de partos. Quase chegara a desejar que o momento não chegasse. Quase, porque se queria ver livre das dores e incómodos e queria ver com era o seu bebe. Depois, quando chegara o momento, tivera uma boa hora…mais ou menos, o bebe tinha-se atravessado com o cordão umbilical à volta do pescoço. Anestesiaram-na para a cesariana, não sentiu nada. Quando lhe trouxeram o seu filho estava a despertar. Pareceu-lhe muito vermelho. A mãe contou que ela fora assim, o seu filho era a sua cara, mas depois a sua sogra disse o mesmo em relação ao pai, filho dela, e ela e o João não podiam ser mais diferentes.

A seguir veio a preocupação com o leite, ter leite e que o bebe mamasse.

Quando lhes deram alta teve foi medo. Como poderia cuidar de algo tão pequeno e frágil?

Agora ali estavam os dois e ela começara a sonhar com o dia em que o poderia deixar num Infantário ou com as avós, e voltar ao trabalho. Se lhe dissessem antes não acreditaria que pudesse ansiar pelo trabalho como se fosse um descanso. Olhou para o bebe: “vais ter de me compensar quando cresceres, talvez sendo feliz”. E decidiu que ele se parecia era com ela.