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quarta-feira, junho 03, 2026

CEC 68/41 - Texto 10º

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São 22h59.

O telemóvel vibra pela última vez. Não há sirenes, nem trombetas, nem fogo a rasgar o céu. Apenas uma notificação enviada para todos os países, em todas as línguas:

“Às 23h59, o mundo terminará.”

Miguel lê a frase três vezes, como quem espera encontrar um erro ortográfico que salve a humanidade.

Clara lê-a sentada num banco de jardim. Depois olha em volta, desconfiada, mas a noite continua azul-escura e as árvores continuam a derramar folhas sobre os carros.

Há roupa esquecida nos estendais a respirar o vento. Um semáforo permanece vermelho para carros que já não conhecerão amanhã.

A mãe de Miguel telefona.

— Vens cá?

Ele quase responde “amanhã”, mas a palavra morreu primeiro.

Sai para a rua. Há pessoas a correr para algum lado e outras completamente imóveis, como estátuas cansadas. Um grupo canta na praça. Vê casais abraçados como náufragos. Um rapaz rouba flores de um jardim para as oferecer a desconhecidos.

Clara decide caminhar até ao mar. Sempre acreditou que os finais pertencem à água.

O mar aparece enfim diante dela: negro, imenso, respirando devagar. Clara pensa em todas as coisas pequenas que nunca salvou — cartas por enviar, beijos adiados, domingos desperdiçados.

Às 23h32, Miguel chega a casa da mãe. Ela fez arroz-doce.

Comem devagar. Pela primeira vez em anos, conversam sem pressa. Falam do pai, dos verões antigos, da chávena partida que nenhum dos dois deitou fora.

Às 23h58, a eletricidade falha. A cidade mergulha numa escuridão mansa. Miguel segura a mão da mãe. Clara senta-se na areia molhada.

Então, algures, alguém começa a tocar piano. Mais longe, alguém bate palmas.

O mundo inteiro prende a respiração.

E o planeta, condenado e belo, termina como uma canção que não queria acabar — estranhamente menos assustador no fim do que algumas vezes pareceu no princípio. 


CNEC 68/41 - 9º Texto

 

Quando acordou, o quarto estava cheio de neve.

Tomás ficou imóvel debaixo dos cobertores, a olhar para o chão branco, para a secretária branca, para o armário que parecia feito de gelo. Piscou os olhos muitas vezes. Talvez ainda estivesse a sonhar. Na noite anterior adormecera a ouvir chuva bater na janela; agora havia flocos a cair lentamente dentro do quarto, silenciosos como penas.

— Mãe? — chamou, com a voz pequena.

Ninguém respondeu.

Levantou-se devagar. O frio mordia-lhe os pés. Na parede, os desenhos que fizera tinham desaparecido. O sol amarelo, o cão torto, o barco vermelho: tudo coberto por neve espessa. Até as fotografias estavam brancas.

Tomás sentiu um aperto estranho no peito. Correu para a cozinha.

A mãe estava sentada à mesa, de casaco vestido, as mãos em volta de uma chávena vazia. Tinha os olhos cansados.

— Mãe… o que aconteceu?

Ela demorou a responder.

— O teu avô morreu esta noite.

Tomás não compreendeu logo. As palavras ficaram no ar, suspensas, como os flocos que continuavam a cair dentro de casa. O avô tinha prometido levá-lo ao rio no domingo. Tinha prometido ensinar-lhe a assobiar com uma folha de oliveira.

— Não — disse Tomás, abanando a cabeça. — Não pode.

Então percebeu. A neve não estava realmente no quarto. Estava dentro dele.

Sentou-se ao colo da mãe e ficou quieto, a ouvir o silêncio enorme da casa. Lá fora, a chuva continuava a cair, mas Tomás jurava que o mundo inteiro tinha ficado branco naquela manhã.

 

quarta-feira, maio 20, 2026

CEC 68º/41º - 8- Texto

 

 

Leonor descobriu que era adoptada por causa de um desenho.

Tinha sete anos e estava sentada no chão da sala, rodeada de lápis partidos e folhas amarrotadas. Na escola tinham pedido uma árvore genealógica. Ela desenhara a mãe com cabelo encaracolado, o pai muito alto e um cão que parecia uma nuvem com patas.

— E eu? — perguntou, franzindo a testa. — Pareço com quem?

A pergunta ficou suspensa no ar como roupa esquecida no estendal.

Nessa noite, os pais chamaram-na para a cozinha. Havia chá a arrefecer nas chávenas e uma chuva miudinha contra os vidros.

— Há crianças que nascem da barriga — disse a mãe devagar. — E outras que nascem no coração.

Leonor ficou séria, porque as frases bonitas lhe pareciam às vezes perigosas.

O pai sorriu.

— Tu demoraste um bocadinho mais a chegar até nós.

Contaram-lhe então sobre viagens longas, papéis intermináveis e o dia em que a viram pela primeira vez: uma bebé furiosa, enrolada numa manta verde, a chorar como quem protestava contra o mundo inteiro.

— E vocês escolheram-me? — perguntou.

— Não — respondeu a mãe. — Foi mais estranho do que isso. Quando te pegámos ao colo, sentimos que já eras nossa antes mesmo de te conhecermos.

Leonor pensou um pouco. Depois correu até ao quarto e voltou com o desenho da árvore genealógica.

Pegou num lápis vermelho e desenhou raízes enormes debaixo das figuras.

— Assim fica melhor — disse.

Nessa noite, adormeceu tranquila. Pela primeira vez, percebeu que pertencer a uma família não tinha a ver com ser parecida. Tinha a ver com o lugar onde o coração descansava sem medo.

 

quarta-feira, maio 13, 2026

CNEC 68 - 41 - 7º Texto

 

 

Despediu-se dela numa estação pequena, onde os comboios passavam como animais cansados e deixavam no ar um cheiro metálico de distância. Não houve promessas. Apenas aquele abraço demorado de quem tenta decorar o corpo do outro antes da ausência.

— Volto antes do verão — disse ele.

Ela sorriu como sorri quem já conhece o peso das mentiras involuntárias.

Durante semanas, viveram de chamadas breves e fotografias desfocadas enviadas ao fim da noite. Depois veio o silêncio. Primeiro discreto, quase tímido. Mais tarde, absoluto.

Ela começou a procurá-lo nos lugares improváveis: nos cafés onde costumavam sentar‑se, nas músicas antigas do carro, nas janelas iluminadas dos prédios ao entardecer. Mas havia pessoas que desapareciam devagar, como barcos afastando-se da costa até se confundirem com o nevoeiro.

Meses depois, no último dia de agosto, ela voltou sozinha ao litoral.

A praia estava quase vazia. O vento dobrava os chapéus esquecidos na areia e o mar tinha aquela cor escura das coisas que escondem segredos.

Caminhou junto à água até avistar um homem sentado perto das rochas, de costas para ela.

Sabia que não era ele, mas o coração começou a bater com uma lentidão estranha, como se tivesse medo da verdade.

Lembrou as palavras duras ali trocadas quando ele anunciou a partida.

Então reparou nas marcas antigas na areia endurecida, nas algas presas entre as pedras, no silêncio pesado daquele lugar. E compreendeu, com uma clareza dolorosa, que não fora na estação que o perdera.

Há despedidas que acontecem muito antes das pessoas partirem.

No meio da praia, sem testemunhas além das ondas, foi onde tudo aconteceu.

 

sábado, maio 09, 2026

CNEC 68/41 - 6º Tema - Mulher acorda de repente o marido a meio da noite

 

Marta acordou o marido aos abanões.

— Bruno! Bruno, acorda!

Ele abriu um olho apenas.

— O prédio está a arder?

— Pior.

Isso acordou-o imediatamente.

— Pior que um incêndio?

Ela apontou para o corredor com ar dramático.

— Está alguém cá em casa.

Bruno suspirou. Com quinze anos de casamento, aprendera que “alguém cá em casa” podia significar um ladrão… ou um gato na varanda a olhar de forma suspeita.

Levantou-se da cama e procurou algo que pudesse servir de arma. Encontrou um guarda-chuva.

— Vais combatê-lo à chuva? — murmurou ela.

— É psicológico. — e avançou corredor fora em cuecas e meias.

A casa estava silenciosa.

Então ouviu-se um som vindo da cozinha.

Tin. Tin. Clac.

Bruno gelou.

— Estás a ouvir? — sussurrou Marta atrás dele.

— Estou.

Outro barulho.

Clac.

Ele respirou fundo e entrou na cozinha preparado para enfrentar o criminoso.

Acendeu a luz.

Silêncio.

Depois olhou para baixo.

O aspirador robô atravessava calmamente o chão, enrolado numa fita de presente vermelha que arrastava atrás de si como uma cauda.

Marta piscou os olhos.

— O que é que ele está a fazer acordado?

Bruno passou a mão pelo rosto.

— Acho que programaste a limpeza automática.

— Às três da manhã?!

O aspirador bateu contra uma cadeira, fez um bip agressivo e mudou de direção como um animal ofendido.

Bruno começou a rir. Primeiro baixinho. Depois sem conseguir parar.

Marta tentou manter a dignidade durante três segundos antes de se rir também.

Nesse instante, o aspirador avançou diretamente contra os pés de Bruno, que deu um salto tão exagerado que caiu sentado no chão.

O aparelho continuou o seu percurso triunfal pela cozinha.

Marta limpou as lágrimas do riso.

— Sabes uma coisa?

— O quê?

— Se um dia formos assassinados por eletrodomésticos, vai ser merecido.

quarta-feira, abril 29, 2026

CEC - 68/41 - 5º Texto - Relógio esquecido à entrada da Igreja

 

 

O relógio ficou esquecido no degrau de pedra à entrada da igreja, como um pequeno erro num dia que devia ser perfeito. Antigo, de bolso, com a corrente solta e o vidro marcado pelo tempo, tinha parado às 10:11 — a hora em que tudo deixou de ser o que era suposto.

Dizem que foi o noivo quem o deixou cair. Ou talvez o tenha largado sem perceber, quando o murmúrio começou a crescer dentro da igreja, como vento antes da tempestade.

A noiva entrou vestida de negro.

Não de branco, como mandava a tradição, mas de negro profundo, como se levasse o luto de algo que ainda ninguém entendia. O tecido arrastava-se pelo chão em silêncio, e cada passo parecia apagar uma expectativa. Não havia flores no cabelo. Não havia sorriso. Apenas uma calma estranha, quase luminosa.

O relógio parou nesse instante.

Ninguém soube o que aconteceu depois com clareza. Uns dizem que ela chegou ao altar e nada disse. Outros juram que sorriu — um sorriso breve, indecifrável — antes de se virar e sair, deixando tudo suspenso no ar, como uma frase interrompida.

O noivo não a seguiu.

Ficou imóvel, como o relógio.

Desde então, o objeto permanece ali, à entrada, como um vestígio desse momento que ninguém consegue terminar de contar. Durante o dia, é só um relógio esquecido. Mas à noite, quando a igreja respira o silêncio, há quem diga que ele ainda guarda aquele instante.

Se alguém o abrir, talvez veja um véu escuro a atravessar a luz.

Ou talvez sinta apenas isto: nem todos os começos pedem branco.

E há promessas que só existem quando não se cumprem.

 

sexta-feira, novembro 01, 2024

Os dois contos que enviei para tentar participar em Colectânea de Natal

Noite de Natal

 

Era noite de Natal, mas só a certa altura é que de tal se apercebeu, estranhando ainda assim tal esquecimento, não porque para si fosse um evento especial – há muito que não o era – mas porque lhe restava ainda o orgulho da ordem que mantinha na sua vida e pensamentos, tudo bem organizado, para evitar surpresas que não adviessem de situações absolutamente imprevisíveis.

Embora por outro lado notasse como o tempo passava cada vez mais depressa, como se semanas passassem em dias, e já era Outono, quando mal se lembrava de estar a começar o Verão, e entretanto, viera o Inverno, e era Natal.

Desconcertante também reflectir sobre o seu passado e vida. Vivera para o trabalho, fora casado, mas não tinham tido filhos e a mulher cansada de estar só, deixara-o a tempo de começar uma nova vida com outro. Quase não notara a sua ausência, como não vivia a sua presença. Com a reforma tivera tempo para organizar os seus papéis, mas para quem antes era tão activo, via-se sem energia para o que se propusera fazer.

E porque estava introspectivo ou porque queria de alguma forma assinalar aquela noite, decidiu ir procurar fotografias antigas. Tinha-as guardadas numa caixa no guarda-fatos do quarto de visitas, que nunca chegara a ser usado. Nesse quarto enfiara a mobília antiga, herdada de uma tia, a contrastar com o resto da casa, de linhas modernas e práticas. Não ligou a luz quando entrou, bastava-lhe a luz do hall, mas foi então que ao olhar para o enorme espelho da porta, lhe pareceu mole e liquido, ao invés da superfície dura e fria, normal para qualquer espelho ou vidro. Sem pensar ergueu o braço direito na sua direção e os seus dedos não encontraram resistência…

Podia ter recuado, saído do quarto, fechado a porta, esquecido o que se passara, convencer-se que estava meio a dormir ou tivera uma quebra de pressão, não voltar mais ali.

Contrariamente ao que sempre fizera, pensar e planear, antecipar e prever o que seriam problemas para desatar os nós e evitar que sequer surgissem, avançou pelo espelho e saiu do outro lado.

Caiu ao chão, viu o joelho esmurrado e não ligou. Havia ali luz, calor e grande confusão de sons. O primo Rui (morrera em criança há tantos anos) olhava-o curioso. Levantou-se e viu-se da altura dele. Aos sete anos tinham ido passar a noite de Natal a casa daquela tia. Ele e o primo tinham ido procurar presentes escondidos no quarto dos tios, mas não encontraram nada. Voltara a essa noite e os pais deviam estar lá em baixo. Olhou para o espelho atrás dele. Poderia atravessar de novo para a sua vida previsível e vazia, mas não queria. E se fosse para esquecer tudo o que vivera depois, como se nem sonhos fossem, talvez pudesse seguir outros caminhos, que não fossem seguros, mas de afectos, e naquela noite, mais do que qualquer prenda que fora procurar com o primo, só queria ir abraçar os pais. E foi. 



Dia de Natal

 

Sempre se tinha querido sentir útil, ainda mais ao ver a filha tão atarefada, com casa, trabalho, o marido e os miúdos. Era com alegria que fazia compras, pequenas limpezas, porque já não tinha muita força, ou cozinhava para eles. Contudo, fora-se apercebendo de como os seus pequenos esquecimentos pioravam. Saia de casa para uma compra e não se lembrava do que ia comprar ou até de onde estava. Esquecera uma panela no fogão, queimara-se o arroz e o fundo da panela ficara todo preto. Não percebia como nem sequer sentira o cheiro e por sorte não houve nenhum incêndio.

Em vez de uma ajuda, tornara-se um peso.

Foi sua a decisão de ir para o Lar. Não ficava muito longe, daria para pagar o custo com a sua pensão. Custara-lhe, no entanto, quando se vira lá sozinha, sem eles, a sua família, rodeada por estranhos que às vezes falavam para ela como se fosse uma criança e outras com impaciência.

Começara então a ter sonhos diferentes, logo ela que raramente sonhava. E nem pareciam sonhos. Via-se como uma criança pequena, mas estranhamente calada. Cada noite quando adormecia retomava o sonho de onde o deixara. Já reconhecia o quarto, a casa, os pais. Via-os tristes. Falavam para ela, mas era como se não os ouvisse, nem conseguisse olhar para eles. Pressentiu que a menina sofria de autismo severo.

Uma noite, que era também de Natal, o sonho foi diferente. Alguém lhe dizia que podia escolher. Aquela criança também era ela, e podia sê-lo ainda mais, mas teria de esquecer o que fora até então.

Tivera uma boa vida, trabalhara muito, mas criara uma família, vivera bons momentos, amara e fora amada. Mas ali parecia que só estava para esperar a morte. Decidiu partir.

No dia que nascia, não ouviu o choro da filha ao chegar ao Lar e ver que a mãe já não a reconhecia, mas nesse dia, quando despertou, conseguiu olhar e ver os pais e ouvir o que diziam. A nova mãe, que tinha olhos tão lindos, como ainda recordava que eram os da sua outra mãe, apercebeu-me que a filha a via. Com algum esforço porque quase tudo esquecia, recordou a palavra e conseguiu dizer “mama” e ouviu que os novos pais choravam de alegria com o seu milagre do dia de Natal.

quarta-feira, maio 29, 2024

CNEC 68/40 - 6/10

 

Antigamente teria sido um edifício imponente. O velho Silo alojara lojas no rés-do-chão e os vários andares serviam de parque.

Com o tempo fecharam as lojas e anunciava-se a sua demolição.

Eram poucos os que ali vinham e praticamente todos evitavam o velho elevador preferindo as escadas. Tinham havido um ou dois acidentes com aquele e desaparecimentos inexplicáveis.

Seria o seu ar desarranjado ou a sombra desses boatos que o deixavam parado, mas ele tinha fome e aguardava que algum solitário o chamasse.

Numa tarde de chuva um casal de idade levou para ali o carro. O senhor andava devagar agarrado à sua dignidade, a senhora recorria já a uma bengala. Seria para eles difícil ir pelas escadas e chamaram o elevador. Ruidosamente subiu da cave até eles, abriu a porta e deixou-os entrar.

Ouviu-se então um “segurem o elevador” e a senhora com a bengala impediu a porta de fechar, para que entrasse um casal jovem de dois rapazes enamorados. Juntos desafiavam o mundo felizes na sua paixão recente.

Queria o elevador devorar os primeiros convencido que nenhuma falta faziam, mas um acidente que envolvesse também o novo par, podia até precipitar a destruição do prédio. Hesitou e parou com um estremecimento entre dois andares.

Querem ver que isto parou? Comentou um dos rapazes, enquanto pressionava o botão de alarme, sem que alguma resposta obtivesse.

O outro sofria de claustrofobia. A senhora apercebendo-se, agarrou na mão dele e disse-lhe com uma voz doce: serão só uns minutos de certeza.

O marido puxou do telemóvel para pedir ajuda e para que se acalmassem resolveu contar como sobrevivera a um quase acidente de avião.

A história não fazia sentido e prolongou-se mais de uma hora até que mesmo o elevador se entediou.

Vagarosamente levou-os ao rés-do chão e deixou-os sair ilesos.

 

quarta-feira, maio 22, 2024

CNEC 68/40 - 5/10

  

Namoravam há três anos e Romeu não tinha qualquer dúvida que era com Eva que queria passar o resto da sua vida, mas para ele estava tudo bem como estava. Moravam juntos, mas podia escapulir-se a chatices e jantares com a família dela e ir ficar antes com os seus amigos. Afinal, não eram casados.

Já Eva sonhava com a festa, e queria ter filhos, mas depois de casada.

Todavia, não queria ser ela a declarar-se. Queria o quadro completo, em que ele até dobrasse um joelho e lhe oferecesse um anel.

Se lhe mostrava fotografias de vestidos ou cerimónias ele parecia nem as ver. Tinham ido a dois ou três casamentos de amigos comuns e ele saíra-se com piadinhas sem graça sobre os enforcados.

Eva preparou então um plano infalível. Para lhe causar ciúmes, inventou um colega do trabalho, o João. Face ao desinteresse de Romeu, foi exagerando nas qualidades e no interesse que aquele lhe votava, até que a certa altura conseguiu que desconfiasse de alguma coisa. Quando aguardava que a insegurança o conduzisse finalmente ao acto mais esperado, Romeu disse-lhe que queria conhecer o João.

Foi preciso arranjar um João. Felizmente a empresa onde estava era bem grande e trabalhava lá o primo do cunhado de uma amiga que por coincidência se chamava mesmo João.

Tiveram de encontrar-se algumas vezes para que o preparasse sobre tudo de maravilhoso que o João tinha dito e feito. Ele foi super simpático e disponível, aderindo ao que ela lhe pediu.

Chegou finalmente o dia para o apresentar ao Romeu.

Este foi muito desagradável para com o João. Eva sentiu-se envergonhada. Não gostou dos ares de posse que Romeu então lhe demonstrou.

Dias depois, convidou-a para um jantar especial. Adivinhou que ele se ia declarar, mas antes fugiu com o João.

quarta-feira, maio 15, 2024

CNEC 68/40 - 4/10

 

Perfilavam-se orgulhosos cientes da sua importância.

Logo seriam escolhidos.

 

Tinha só uma pequena ideia do que o esperava.

Rumores e boatos seriam mais de mil, mas fosse como fosse, estaria à altura dos acontecimentos.

Chegara ali com alguns dos seus colegas num transporte fechado.

Quando dera por si, vira-se num espaço pouco iluminado e barulhento, rodeado pelo cheiro delicioso a pipocas. Sabia que iria acolhê-las, com sal ou açúcar e seria ele a levá-las depois. Viu tal suceder com os primeiros da fila. Bípedes chegavam até, lá esperavam em linha, recebiam os primeiros das filas, com diversos tamanhos, já a envolverem as pipocas e seguiam em direção ao mundo.

Ao chegar a sua vez, viu-se qualificado como pequeno (de certeza que não pensava assim de si próprio, ao ver-se como único e tão especial como todos ou outros) logo o esqueceu ao ver-se preenchido pelas pipocas doces. Sentia o seu calor morno e o cheiro do açúcar. Firmemente agarrado por quem o escolhera para transportar as pipocas, percebeu que afinal seguiam para outra sala mais escura, que pouco a pouco se enchia de bípedes iguais a ele, talvez sacerdotes, que de forma organizada se foram sentando, todos voltados para o altar.

Cedo este incendiou-se. Seria talvez uma janela para o mundo? Cores intensas sucederam-se, acompanhadas de sons diferenciados, às vezes ensurdecedores. Alguns dos bípedes riam, outros proferiam expressões de espanto ou adoração. Enquanto isso o seu bípede começou a devorar as pipocas.

Quando não restava mais nenhuma, o altar apagou-se. Desfeita a ordem todos se precipitavam para a saída.

Foi então que, horror dos horrores, o bípede que o trouxera ali, o dobrou e amachucou e o lançou para um balde escuro.

Terminaria ali a sua vida se não fosse salvo pela reciclagem…

 

quinta-feira, maio 09, 2024

CNEC 68/40 - 3/10

Meu Caro Mundo

 

Escrevo esta carta como uma expressão de admiração por sua constante inquietação. Devo confessar que observar a sua agitação é um deleite para mim, pois vejo as sementes da tentação florescendo em cada esquina da sua existência.

Você e eu, estamos entrelaçados em uma dança eterna. Onde há luz, eu lanço sombras. Onde há esperança, sussurro dúvidas. É uma relação fascinante, não acha?

Você, Mundo, é um terreno fértil para meus planos. Sua busca incessante por poder, riqueza e prazer é um convite aberto para minha influência. Suas guerras, suas injustiças, suas ambições desenfreadas – todas elas são notas em uma sintonia da qual eu sou o maestro invisível.

Você me fascina com sua capacidade de autodestruição disfarçada de progresso. Suas tecnologias que aproximam as pessoas também as afastam. Seus ideais de liberdade muitas vezes se transformam em correntes mais apertadas. Cada passo adiante parece ser seguido por dois passos para trás.

Mas não me interprete mal. Não estou aqui apenas para criticar. Na verdade, sou um catalisador do seu livre-arbítrio. A escolha foi sempre sua. A liberdade de decidir entre o certo e o errado é o que torna nossa relação tão intrigante.

Enquanto você luta com suas contradições, suas guerras internas e suas buscas intermináveis, estarei aqui, observando e, às vezes, dando um pequeno empurrão. Minha presença é constante, mas minha influência depende de suas próprias escolhas.

Portanto, Mundo, continue com sua jornada tumultuosa. Continue a desvendar os mistérios do universo. Saiba que estarei ao seu lado, presente em cada beco escuro da sua existência, desafiando sua moralidade e testando sua força.

Com ardente curiosidade

O Diabo

quarta-feira, abril 24, 2024

CNEC 68/40 - 2/10

 

 

Pouco se lembrava da tia-avó. Vinha-lhe à ideia uma senhora magrinha e baixinha, que pouco falava, mas parecia bondosa.

Teria estado presente em festas dos avós até que estes morreram.

Não sabia sequer que ainda era viva, até ser confrontado com a notícia de que tinha morrido e que ele era o único herdeiro.

Havia um valor depositado no Banco, “o poucochinho que ela poupou”, disse-lhe o Notário com um ar triste e sério.

Era preciso entregar a casa arrendada ao senhorio. Entrou lá pela primeira vez para escolher o que era para dar - praticamente tudo, móveis e roupas velhos. No entanto, descobriu também num guarda-fatos, um álbum de fotografias.

Apesar de não saber bem o que fazer com ele, resolveu trazê-lo consigo.

Na sua casa e com mais tempo pegou nele. As fotografias eram bem antigas. A preto e branco, mais amarelo que branco, pela acção do tempo, chegaram até ele imagens de desconhecidos, em fatos domingueiros e poses rígidas. Seriam da sua família? Pais, avós ou tios da tia-avó? Seria ela a criança que a mãe forçava a estar na cadeira? Via-se a mão direita da senhora de vestido comprido e de corpete a prender pelo ombro a menina que não olhava para ele, mas para o lado. Quereria fugir dali ou descobrir o que ficava além?

Até que na penúltima página se viu a si próprio. Tinha um corte de cabelo diferente e as mesmas roupas e pose dos demais, mas o olhar era diferente de todos os outros. Dir‑se‑ia que sorria e lhe ia piscar o olho.

Por essa fotografia, não deitou o álbum fora. Queria descobrir quem era aquele homem, tão parecido consigo.

Descobri-lo fê-lo também sentir que algo o ligava aos fotografados, a razão para ter sido o álbum precioso para a tia-avó.

 

 

quarta-feira, abril 17, 2024

CNEC 68/40 - 1/10

 

É louca.

Espreitou-a pela janela fechada.

Dançava na rua descalça, não parecia sentir os pés feridos pelas pedras nem a chuva gelada.

Pareceu-lhe que ria, julgou ouvir o seu riso.

É louca.

Porquê avó, porquê tia?

Não é conversa para crianças, vai brincar com a tua boneca.

Mas ouvia-as a falar, a avó, a tia e outras mulheres.

Até fora boa rapariga, mas fraca da cabeça.

Não o dizia, mas pensava, porquê?

Uma prima mais velha contou-lhe um dia, como vez após vez o seu ventre não segurava os bebes que perdia. O homem dela largou-a e passou a fingir barrigas.

É louca.

Terminadas as férias voltou para casa da mãe. Não voltou à aldeia, em férias divididas pelo divórcio dos pais.

Não soube o que aconteceu àquela mulher, a louca. Se se curou ou morreu e não pensava nela há anos.

Mas ali, lembrou-se.

Depois de consultas e esperas em salas cheias de grávidas, confirmando-se que o tempo o permitia, deram-lhe um comprimido.

Não hesitou. A decisão estava tomada. Não era programado ou desejado, ninguém o queria, não havia tempo nem dinheiro. Tão fácil assassinar um filho que não o seria. Avisaram-na das contrações para expelir o feto.

Foi até lá só

e regressou

sozinha.

No seu carro, antes de ligar o motor, pensou, está feito.

Lembrou-se então da louca, a dançar à chuva, louca pelos bebes que perdera e queria. Por instantes, pareceu-lhe que fora certo e com sentido, algo devia marcar que tinham existido, que não eram nada.

Depois enfiou essas ideias e memórias na gaveta fechada das mágoas adiadas para que a vida siga.

Até um dia.

quarta-feira, março 20, 2024

CNEC 67/39 - 10/10

 

 

Estávamos no Verão, mas o céu era de azul carregado e o sol nunca parecera tão distante e indiferente ao que se passa na Terra.

Pouco dormira naquela noite e quando me levantei tudo me pesava.

Estacionei o carro não muito perto, mas apesar dos meus passos arrastados, era como que puxado para aquele edifício cinzento. Nenhum cataclismo me iria impedir de lá chegar, nenhum motivo surgira para o postergar.

Reparei então na jovem à minha frente. Dir-se-ia que saltitava e quase não acreditei quando percebi que íamos para o mesmo local.

Vi como sorria à funcionária que lhe veio abrir a porta e desaparecia lá dentro.

Pouco depois fui eu que cheguei à porta e tive de entrar.

Era a minha primeira vez ali. Respondi às questões em falta para completar a minha ficha e sentei-me à espera.

Parecia impossível como lá fora a vida continuava. Ali dentro tudo parecia ter parado. Cada vez mais distante do antes, não conseguia sequer sonhar com o depois, tanto me preocupava o durante.

A funcionária veio dizer que era a minha vez e fiquei em choque. Não vira a jovem saltitante sair. Não percebia como podia ter passado por mim sem que eu reparasse nela, e sem assistir à sua saída não tivera mais alguns necessários segundos para me preparar para a minha iminente entrada.

A funcionária conduziu-me à sala, indicou-me a cadeira onde me sentei, senti o cheiro do desinfectante, vi-me rodeada de brocas e instrumentos parecidos próprios daquela sala de horror.

Veio então a Srª Drª e nela reconheci a jovem saltitante. Estava desvendado o mistério, como conseguia ela sorrir assim.

Sem queixas, nem cáries, não foi tão demorado o durante.

Lá fora o mundo mudara e esperava-me um dia bom, mesmo que chovesse, haveria sol leve, quente e brilhante.

quinta-feira, março 14, 2024

CNEC 67/39 - 9/10

 

 

 

Durante anos ele marcou a passagem do tempo, sem se enganar ou se atrasar um segundo que fosse, sublinhou todas as horas, “dong, dong, dong”, um som melodioso e audível, companhia de todos os dias

Tinha o seu lugar na sala de estar, pendurado na parede, entre os quadros de molduras douradas e paisagens bucólicas. Espreitou as visitas que se sentavam nos sofás. Reparou como foram rareando, assim como o tom do tecido rosa dos sofás ia ficando esbatido e os cortinados menos transparentes.

O Rique, filho do casal, foi estudar para fora, formou-se doutor, passou a morar longe.

Ao Sr. Doutor que pouco parava em casa, a reforma caiu mal, também ele desapareceu.

Ficou só a Dona Ema. Era ela que lhe dava corda, cada dia, pelas três da tarde, logo a seguir ao “dong, dong, dong” com que a saudava. Ouvia os seus passos leves, via-a a olhar para si, sentia as suas mãos suaves a trazerem-lhe força para continuar sempre, sem se atrasar.

Até àquele dia.

A humidade infiltrara-se pela parede, escondida pelo papel de parede rosa e pela estante, foi corroendo o estuque do parafuso que o suportava. Antes das quinze horas, e a casa no maior silêncio, viu-se a cair no chão desemparado, com estrondo.

A Dona Ema queria socorre-lo, mas já não andava muito bem. Não ligara aos suores frios, à dor no braço. Estava tão frágil que o inesperado foi suficiente para a fazer cair sobre o sofá. Quem iria valer-lhes aos dois?

Por sorte vivia ao lado uma amiga. Mais que o estrondo, estranhou a falta do “dong, dong, dong”. Ligou à Dona Ema e ao 112.

O médico disse depois à D. Ema que por pouco que se salvara, mais uns dias, seria tarde demais.

O relógio avariado foi também concertado.

 

quinta-feira, março 07, 2024

CNEC 67/39 - 8/10

 

De manhã o pai disse:

- Vamos à praia!

Tivera uma pequenina esperança que no fim-de-semana a pudessem deixar tranquila no seu canto.

Havia sol, mas estava ainda fresco e podia levantar-se a nortada. Se assim fosse, não poderiam estar lá muito tempo. Ao menos isso.

Na cozinha a mãe preparava parte da merenda, sumo de laranja e sandes de paio. Jaime, o mais novo de sete anos que detestava a escola e era sempre difícil arrancar da cama, saltou como se tivesse uma mola. Rique dois anos mais velho também aderiu ao plano. Só ela pelos vistos preferiria ficar em casa. Se ao menos se esquecessem dela.

Tralhas enfiadas no carro, o Rique fez questão de a ir buscar e de que no carro ficasse entre ele e o Jaime.

O pai, no lugar do condutor, olhou para eles do espelho retrovisor para confirmar que estavam todos e ligou o motor.

Apanharam filas de trânsito e calor, mas nada de vento e conseguiram um bom lugar no estacionamento. Jaime e Rique empurraram-na praia abaixo, enquanto os pais traziam as toalhas, guarda-sol e merenda.

Os miúdos quiseram ir molhar os pés, o pai foi com eles, e esqueceram-se dela na areia, ao lado da mãe que ficou a estender as toalhas.

Talvez pudesse dormitar um pouco debaixo do sol.

Foi então que ouviu ladrar e cada vez mais perto. Um monstro peludo veio até ela e, horror dos horrores, mordeu-a!

“Ai quem me salva, estou perdida”

Veio a mãe em seu socorro:

- Cão mau, larga a bola! E ele largou-a.

Estava meio rebentada, mas iam concertá-la disse o pai.

Talvez não fosse tão mau andar a correr antes com os miúdos, mesmo que a pontapeassem, pelo menos não a mordiam.

quinta-feira, fevereiro 29, 2024

CNEC 67/39 - 7/10

 

Talvez não jogassem grande coisa.

Talvez fossem um pouco chatos a pedir para que os deixassem jogar.

Mas ainda assim, tinha sido uma grande injustiça!

Disseram-lhes que estavam fora, que tinham de ir embora, não os queriam ali a pedinchar, como se eles pedinchassem, e expulsaram-nos do recinto.

Ficaram de fora.

Grandes estacas de madeira contornavam todo o campo e do velho portão de ferro não tinham vista, ficava demasiado longe e de lado para lhes permitir ver alguma coisa.

Do lado das estacas mais próximo, conseguiam ouvir gritos de passa a bola, imaginavam a poeira levantada pelos chutes de rapazes na bola e nas canelas uns dos outros, os empurrões, a animação quando algum se aproximava da baliza, os gritos de festejo “golo”, “golo”.

Queriam estar lá. Se não a jogar, pelo menos a ver, a torcer e a participar.

Foi então que o Jaime reparou em dois buracos nas estacas, ao mais alto não chegavam, ao mais baixo tinham de se pôr de gatas. Foi o que experimentaram fazer e de quase irmãos, solidários na expulsão, quase passavam a inimigos, porque o buraco não dava para que por ele espreitassem ao mesmo tempo.

O Jaime teve então uma ideia e para compensar um último empurrão mais forte, ofereceu-se para ser ele a ficar primeiro de gatas. Subiu-lhe para as costas e sentiu-se um rei. Via o campo todo. Enfim podiam os dois ver o campo todo, à vez, de cima ou de baixo. Não os tinham vencido, ele o Jaime é que ganharam a todos eles, hoje viam o jogo, e amanhã talvez conseguissem jogar.

quinta-feira, fevereiro 22, 2024

CNEC 67/39 - 6/10

Era bem pequeno quando uma queda o separou da família. Não sabia se teria já nascido com tal defeito nas asas ou se o mesmo foi consequência da queda. 

Ao recuperar a consciência teve a noção de que a mãe os irmãos estavam lá em cima, tentou piar para lhes chamar a atenção, mas ou não o ouviram ou pior, quiseram ignorá-lo, certos da sua morte iminente.

Suspeitou que poderia ter sido a mãe a expulsá-lo e a precipitar a sua queda, mas não queria acreditar nisso.

Tinha fome e frio. Sabia que corria o perigo de ser apanhado por predadores. Até simples e minúsculas formigas tinham reparado nele. Fugiu-lhes a rastejar, arrastando as asas que mal abriam.

Queria viver, mas as forças abandonavam-no. Talvez a morte fosse um manto claro e quente que o levasse para onde poderia voar.

Resignava-se a aceitar que morria quando foi apanhado. Foi a primeira vez que de perto viu um humano. Este tinha luvas grossas, mas foi com gentileza que o agarrou e levou para outro mundo.

Soube mais tarde que tivera a sorte de ser apanhado por um Cuidador, Paul Mesqsky.

Paul tentou tudo para o ajudar. Queria devolvê-lo à vida selvagem. Foi quando percebeu que seria impossível que sobrevivesse sozinho que o adoptou e o baptizou de Gav.

Paul começou a levá-lo consigo para onde ia e foi assim que Gav se tornou o primeiro e único gavião na Antártica. Felizmente por um curto período de tempo porque lá estava um gelo.

Na sua curta vida Gav não apenas sobreviveu quando tudo parecia contra si como inspirou outros salvamentos. 


Ou



Alcunha “Gavião”.

Porquê?

Pela forma como trepa por casas e prédios. Dir-se-ia que voa.

Mas não voa.

Não, não voa.

Olhou-o de longe. Muito magro, mal vestido. Comum, tão vulgar como os demais que para ali estavam.

Soube depois que o Gavião se metera em problemas. Falara demais, tornara-se um alvo. Lá fora não sabem das mortes na prisão. Não sabem como é sobreviver ali.

Se o mundo fosse diferente. Se também ele não andasse por ali perdido a contar os dias. Se ele fosse outro. Será que iria avisar o Gavião? Avisado já ele estava. Será que o poderia ajudar? Não via como. Tornar-se-ia também ele um alvo.

Soube que lhe tinham batido. Viu-o esmurrado, as marcas na cara, revelava as do corpo pela forma com andava.

Talvez agora o deixassem em paz.  Afinal daquela sova não contara nada.

Ouviu depois que iam terminar o trabalho. Estava marcado. Não passaria daquele dia.  Viu-o no pátio. Ele sabia. Tinha o olhar de um animal encurralado.

Houve um momento em os seus olhos se encontraram. Viu-o tão comum e pequeno, igual a si.

Algo lhe passou pela cabeça. Já tinha tido ataques antes quando falhava a medicação. Agarrou-se a um dos guardar antes de cair. Fingiu. Tão bem que a certa altura nem sabia se fingia.

A ele levaram-no para a enfermaria. Ninguém reparou que alguém aproveitara a confusão. Trepou pelos muros. Será que voou? Não, ele não voava. O Gavião fugiu e ninguém mais o apanhou, pelo menos que ele soubesse. Virou lenda na prisão. O incrível Gavião que conseguira sair dali, como se evaporasse no ar, como se voasse. Mas ele não voava.


Ou (texto de N.)

A Aldeia era pequenina e rodeada por montes verdes que pareciam estender-se para sempre. No centro, destacava-se uma igreja majestosa. Com uma aura mágica, cortava o vale ao meio e a sua torre erguia-se até ao céu. Lá no alto morava um gavião, abandonado há muito tempo pelos pais, e que nunca aprendera a voar.

 

O gavião era o único pássaro, símbolo da liberdade, pois só ele conseguia voar bem alto e espiar para lá das montanhas, trazendo notícias do mundo exterior para a aldeia. Era o papel que os seus pais tinham desempenhado, antes de desaparecerem misteriosamente.

 

O burburinho sobre o gavião fazia parte do dia a dia da aldeia, com todos temendo que ele pudesse cair a qualquer momento. Naquela época, tanto humanos quanto animais falavam. O pároco da igreja, um velho gato chamado Dom, estava muito preocupado com o seu querido gavião e decidiu liderar uma discussão entre os aldeões. Propôs que alguém mais experiente deveria ensinar o gavião a voar. Os humanos, por sua vez, sugeriram diferentes soluções, sendo a mais aclamada a ideia de fazer vários experimentos com o gavião até descobrirem como ele poderia voar por si mesmo.

 

Os humanos, em maioria, conseguiram convencer os ratos, que concordaram com a decisão. Assim, começaram os experimentos, que os humanos chamavam de científicos. Os outros animais, exceto os ratos, mantiveram-se atentos e solidários aos direitos do gavião. No entanto, de nada adiantou, pois, a decisão fora tomada em assembleia.

 

Após muitos experimentos, os humanos aprenderam tudo o que havia para aprender sobre voar. Um belo dia, decidiram ensiná-lo na arte de voar. Explicaram-lhe todos os pormenores: as asas, as patas, o corpo e até mesmo o que fazer se ele encontrasse dificuldades.

 

Chegou o momento em que o gavião, com todos os ensinamentos na mente, iria voar do alto da torre para a liberdade da aldeia. Subiu ao parapeito e encheu o peito de ar, tal como lhe tinham ensinado. A raposa, ainda atenta, alertou para a possibilidade de não funcionar. Mas as vozes dos ratos foram mais fortes: "Salta, salta!" E o gavião voou! Não muito alto, é certo, mas voou! Infelizmente, acabou por cair e morrer à entrada da igreja.

 

O gato, horrorizado com tamanha insensatez e pela perda do seu querido amigo, gritou alto e bom: "Vocês são uns humanos estúpidos e terríveis que nos trarão todas as desgraças do mundo!" Mas o que se ouviu foi apenas um miado triste e doloroso, como se a fome e a miséria tivessem invadido a pequena aldeia, perdida no meio do vale, e que até hoje ninguém jamais ouviu falar.

 

quarta-feira, fevereiro 14, 2024

CNEC 67/39 - 5/10

 

Não lhe pagaram. Como era possível? E até se riam dele. A indignação nem o deixava falar.

 

Lembrou os últimos dias para se tentar acalmar.

Estava rodeado de idiotas, incapazes de reconhecer o talento.

Se Beethoven ali caísse, seriam bem capazes de o mandar dar uma volta, rejeitá-lo-iam por não compor com o ritmo da moda, não ter a imagem de um ídolo.

Idiotas, surdos e cegos para o verdadeiro talento, procuravam cópias das estrelas do momento, completamente incapazes de reconhecer o génio, o original e único, mesmo que lhes mordesse o traseiro.

Arquitetou então um plano que acreditara ser sem falhas.

Queria tanto vingar-se que durante anos e anos estudou tons inaudíveis para os homens – humanos adultos - e o seu efeito em animais dito irracionais, especialmente ratos.

Os seus estudos foram coroados de êxito e logo pô-los em prática.

Conseguiu atrai-los, aos ratos, mais e mais, chegavam de todos os lados. Invadiram a cidade, tudo roíam, comida, móveis, roupas, o que apanhassem pela frente e nada lhes escapava. Já a eles ninguém os apanhava, corriam entre móveis, infiltravam-se pelas paredes e soalhos.

Momentos felizes esses, mas escondeu a sua satisfação quando foi ter com os governantes desesperados.

Apresentou-se então como salvador.

O seu talento como flautista seria finalmente reconhecido porque iria livrá-los dos ratos.

Acordado um valor, atraiu todos e todos os ratos para o rio.

 

E agora não honravam o prometido! Pior, riam-se dele, porque nenhum rato morto viram.

Tanta raiva deles sentia que lhe parecia que ia explodir.

 

Foi então que lhe ocorreu se a magia da flauta poderia também funcionar com… crianças.

quarta-feira, fevereiro 07, 2024

CNEC 67/39 - 4/10

 

Quando despertou teve logo a sensação que algo de estranho se passava.

Como nas últimas madrugadas, os primeiros raios de rol irrompiam pelas cortinas não corridas. Ouvia o barulho dos saltos da vizinha de cima a aprontar-se para o trabalho e mais ao longe o do trânsito intenso na via rápida.

Levantou-se sem saber o que seria.

Foi só no duche que o percebeu.

Era seu hábito entoar alguma música que meio alheadamente escolhia. Mostrando-se o dia como de sol e céu azul lembrou-se do “Volare”, com o “Nel Blu di Pinto di Blu”

Abriu a boca e…

nada…

Nem um som…

Tentou pigarrear e nada se ouviu. Apenas o indiferente barulho da água do chuveiro o cercava.

Enxaguou-se, vestiu-se e sentou-se.

O que seria aquilo? O que se passava? Poderia talvez ligar para a Linha de Saúde. Não, não podia, não ia conseguir dizer nada. Nem podia ligar um amigo ou para o 112.

Seria sintoma de recente gripe? Mas não estava já curado?

Mal como estava, vou trabalhar, decidiu.

Não se cruzou com ninguém conhecido no prédio, na rua ou no metro. Chegou cedo. Viu o colega Carlos com o ar aborrecido habitual. Em vez do seu jovial bom-dia, acenou-lhe. O Carlos não pareceu reparar no diferente cumprimento.

Chegou ao seu cubículo, ligou o computador e começou a enviar e a classificar o correio.

Foi almoçar ao sítio habitual. A funcionária trouxe-lhe o prato do menu. No meio da confusão não pareceu notar que ele com nenhuma palavra contribuía para o elevado voluma de som na sala.

Passou pelo supermercado, fez compras, chegou ao fim do dia.

Talvez faltasse algo na sua vida para que ninguém se apercebesse que estava afónico.

Se não passasse no novo dia, teria de mudar e

nunca mais poderia cantar no duche…