quarta-feira, abril 22, 2026

CEC - 68/41 - 3 - Quarto fechado

 

 

A casa veio na herança dos tios avós.

Era velha, mas sólida.

Hesitaram só um pouco, até optarem por deixar o pequeno apartamento arrendado na cidade. A casa ficava mais longe, mas compensava a distância com o espaço. A mudança foi rápida e só depois de instalados é que começaram a descobrir todos os cantos.

Na cave havia um quarto fechado. Aparentava estar assim há anos, talvez mesmo décadas.

Não havia chave, apenas histórias. De vizinhos e parente mais velhos ouviram que o quarto guardava riquezas esquecidas, segredos de família ou até algo perigoso demais para ser revelado. Com o passar dos anos, o mistério tinha crescido mais do que a própria casa.

Quando finalmente decidiram arrombá-la, o silêncio que antecedeu o estalo da madeira foi quase solene. A poeira levantou-se no ar enquanto a porta cedia lentamente.

Todos prenderam a respiração, preparados para encontrar qualquer coisa — exceto o que realmente estava lá dentro.

O quarto estava vazio.

Nenhum móvel, nenhum baú, nenhum vestígio de algo extraordinário. Apenas paredes nuas, marcadas pelo tempo. No chão, nada além de um leve desenho no pó, como se alguém tivesse caminhado ali há muito tempo.

A decepção espalhou-se primeiro, seguida de confusão. Como podia um espaço tão guardado não conter nada? Mas, à medida que o silêncio voltava, uma sensação diferente surgiu — algo quase inquietante.

Talvez o segredo nunca tenha sido o que estava dentro do quarto, mas o próprio ato de mantê-lo fechado. O vazio parecia carregar um peso invisível, como se todas as expectativas, medos e histórias criadas ao longo dos anos ainda habitassem aquele espaço.

E, naquele instante, perceberam: o quarto não estava vazio.

Estava cheio de tudo aquilo que nunca chegou a existir.

 

 

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