Chegou antes
da hora marcada pelo silêncio.
— Não havia trânsito — disse, como se a cidade tivesse aberto caminho para a
ver partir mais depressa.
(Pousou as
chaves. O som é pequeno, mas ficou a ecoar na mesa, como se algo tivesse sido
decidido ali.)
Olhou à
volta (mas não para mim)
(O relógio
não marca o tempo — fere-o, segundo a segundo. Eu endireito a chávena só para
tocar em alguma coisa que não doa.)
— Queres
café?
— Se já estiver feito.
— Está.
(Mas nada está pronto. Nem o café, nem nós.)
— A casa está…
diferente.
— Mudei pouca coisa.
— Nota-se — disse, olhando para tudo menos para onde fomos deixados.
— E tu?
— O que tem?
— Estás… bem?
— Estou.
(Mentimos
com a delicadeza de quem já treinou.)
— Recebeste
a minha mensagem?
— Recebi.
— E?
— Li.
(Os meus
dedos percorrem a chávena como se fosse possível ler o futuro na porcelana.
Sentes isso, eu sei. Desvias o olhar.)
— Pensei que
talvez…
— Não.
(A palavra
cai inteira, sem piedade.)
— Certo.
(Um carro
passa lá fora — leva consigo tudo o que não fomos capazes de dizer.)
— Ficas
muito tempo?
— Não.
— Tens para onde ir?
— Tenho.
(Aceno. Um
gesto mínimo, quase invisível — como tudo o que ainda nos resta.)
— Ainda
funciona?
— O quê?
— Aquilo… que éramos.
(Olho-te,
finalmente. E nesse instante, tudo volta — intacto e inútil.)
— Nunca
deixou de funcionar.
(Sorris, mas
falta-te metade — a parte que ficou comigo, talvez.)
— Então
porquê—
— O café vai arrefecer.
(O silêncio
regressa. Mais denso. Mais honesto.)
— Eu posso
aquecer.
— Eu sei.
(Pego na
chávena. Não bebo. Não há calor que resolva isto.)
(O relógio continua a insistir naquilo que já
acabou.)
— Bem…
— Pois.
Não voltou a
pegar nas chaves.
— Adeus.
— Até logo.
(Nenhum de
nós acredita.)
(E as
palavras, essas, mentem por nós — com uma suavidade que quase parece verdade.)
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