quarta-feira, abril 22, 2026

CEC 68/41 - 2 - Diálogo em que não dizem o que mais importa

 

Chegou antes da hora marcada pelo silêncio.
— Não havia trânsito — disse, como se a cidade tivesse aberto caminho para a ver partir mais depressa.

(Pousou as chaves. O som é pequeno, mas ficou a ecoar na mesa, como se algo tivesse sido decidido ali.)

Olhou à volta (mas não para mim)

(O relógio não marca o tempo — fere-o, segundo a segundo. Eu endireito a chávena só para tocar em alguma coisa que não doa.)

— Queres café?
— Se já estiver feito.
— Está.

 (Mas nada está pronto. Nem o café, nem nós.)

— A casa está… diferente.
— Mudei pouca coisa.
— Nota-se — disse, olhando para tudo menos para onde fomos deixados.

— E tu?
— O que tem?
— Estás… bem?
— Estou.

(Mentimos com a delicadeza de quem já treinou.)

— Recebeste a minha mensagem?
— Recebi.
— E?
— Li.

(Os meus dedos percorrem a chávena como se fosse possível ler o futuro na porcelana. Sentes isso, eu sei. Desvias o olhar.)

— Pensei que talvez…
— Não.

(A palavra cai inteira, sem piedade.)

— Certo.

(Um carro passa lá fora — leva consigo tudo o que não fomos capazes de dizer.)

— Ficas muito tempo?
— Não.
— Tens para onde ir?
— Tenho.

(Aceno. Um gesto mínimo, quase invisível — como tudo o que ainda nos resta.)

— Ainda funciona?
— O quê?
— Aquilo… que éramos.

(Olho-te, finalmente. E nesse instante, tudo volta — intacto e inútil.)

— Nunca deixou de funcionar.

(Sorris, mas falta-te metade — a parte que ficou comigo, talvez.)

— Então porquê—
— O café vai arrefecer.

(O silêncio regressa. Mais denso. Mais honesto.)

— Eu posso aquecer.
— Eu sei.

(Pego na chávena. Não bebo. Não há calor que resolva isto.)

 (O relógio continua a insistir naquilo que já acabou.)

— Bem…
— Pois.

Não voltou a pegar nas chaves.

— Adeus.
— Até logo.

(Nenhum de nós acredita.)

(E as palavras, essas, mentem por nós — com uma suavidade que quase parece verdade.)

 

 

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