Até segunda-feira, data limite, envio o 1º ou o 2º ou o melhor é escrever outro?
Só
No início do ano de 2021 o Covid 19 sofreu uma mutação que aumentou as
taxas de contágio e de mortalidade. As vacinas que tinham sido aprovadas e
estavam a ser utilizadas, não só se revelaram ineficazes, como tornaram mais
frágeis os que já tinham sido vacinados, assim como os recuperados. Médicos,
enfermeiros, auxiliares morreram em dois, três dias. Todos os demais começaram
a morrer em quatro, cinco dias. Ninguém lhe resistiu.
Morreram todos aqueles que eu amava e os que poderia vir a amar.
Tive de ser eu a cavar as sepulturas dos meus pais, mulher e filho.
Tento não pensar neles, em como me vi impotente, um a um, para os ajudar e
depois terrivelmente sozinho.
Se tivesse sobrado algum cientista poderia investigar porque razão é que
estou vivo.
Deixou de haver água nas torneiras e electricidade. Rádio, televisão,
internet, não funcionam.
Durante meses metia-me no carro, abastecia nas gasolineiras vazias, dormia
onde calhava, casas ou hotéis onde não houvesse corpos. Tive de arrombar portas
de supermercados para conseguir comida. Quando o meu carro avariou fui buscar
um parecido a um stand. Percorri quilómetros. Nunca encontrei ninguém vivo.
Tanto quanto sei, sou único, o último homem na Terra.
Já pensei em matar-me, mas tenho medo de falhar, ficar ferido a sofrer, sem
haver ninguém que possa socorrer-me. Não posso ir ao Google descobrir onde
encontrar venenos que sejam seguros e não causem sofrimento. Posso arrombar
farmácias, mas nada sei sobre a composição de remédios.
Há matilhas de cães esfomeados pelas ruas da cidade. Tenho de ter cuidado
para os evitar. Por todo o lado crescem ratazanas e baratas.
Voltei para casa, gelada e escura no Inverno, quente no Verão. Sobrevivo de
enlatados fora de prazo e espero pela minha morte, preso em agonia, mas covarde
para a antecipar.
Ou
Ele vem pelos espelhos
Assistiu ao filme com as
amigas uma noite. Ficaram assustadas, mas negaram-no. Ela quis ir mais longe.
Virada para o espelho da entrada proferiu “candyman”. Aos gritinhos as amigas
pediram-lhe que parasse. Ela repetiu-o uma, duas vezes. Pelo canto do olho
pareceu-lhe que além de invertida a imagem reflectia algo que lá não estava.
Foram deitar-se. A noite
passou. Não lhe passou da ideia o que tinha feito, o que julgara ver.
A partir daí em cada
espelho procurava-o, sossegava-se se nada via, até que começou a ver.
Ele vinha aí, vinha por
ela. Passou a tapar os espelhos e a fugir deles.
Uma noite enquanto
dormia, algo (o vento?) empurrou o pano que tapava o espelho do guarda-fato.
Soube-o porque o frio que invadiu o quarto a acordou. Viu-o, não num canto, mas
de frente. Vinha por ela, atravessava pelo espelho. Ela gritou e fugiu para a
sala. Os seus gritos acordaram os pais, descobriram-na com cortes nos braços
(mas quando é que ele a cortou? quando fugia?). Gritava que tinha sido o
Candyman, mas mais ninguém ali estava. Os pais não sabiam o que fazer,
cuidaram-lhe das feridas. Esperavam que
acabasse ali, mas a situação repetiu-se mais duas vezes. Na última foi preciso
chamar o INEM. Ela repetia, se eu fugir do espelho, ele não consegue seguir-me.
Estava muito alterada. Os pais acederam a que fosse internada. Gritou com eles
e todos até pensar na cela não há espelhos.
E não havia, embora não
gostasse de estar trancada. Apenas uma cama com uma coberta e pequena janela.
Quando lhe trouxeram a comida, virou o tabuleiro. Não o vieram buscar.
Deitou-se. Era já tarde e havia luar. Alguma luz entrou pela janela, viu o seu
rosto reflectido na água espalhada no chão. A seguir viu-o a ele…