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quinta-feira, abril 08, 2021

Post 8020 - CNEC 54 -26 - 3/10 - Luz e sombra

 

Luz, sombra

 

O que aconteceu, como foi possível?

Não quero pensar no antes.

É horrível acordar no meio da noite. Parece que sufoco. Lembro-me, e naquela altura ainda não construi qualquer defesa. A escuridão não me esconde, pesa-me. Passei por vários anti-depressivos que me faziam dormir. Sono sem sonhos, do qual não queria acordar. Despertava e estava ali, apunhalava-me, a minha nova realidade. Nunca fui de beber, mas procurei embriagar-me. Não resultou. Tenho um vinho triste. Afundava-me na auto-piedade, enojava-me de mim mesma, acordava com a ressaca.

Não quero pensar. Não quero lembrar-me que já fui outra.

Houve um Luís. Posso ver as fotografias, vou esquecendo a sua voz. Amante, amigo, mais que tudo. Íamos comprar uma casa, ter filhos e envelhecer juntos, a vida entrelaçada, nós. Houve um nós. Fui feliz nos dias que se sucediam, intensos e luminosos. Não pensava nisso então, vivia. Tinha, não, tínhamos, muitos planos

Ele preocupava-se comigo, como quando eu ficava sozinha nas noites em que ele trabalhava longe. Comprou-me uma arma, ensinou-me a atirar. Riu-se da minha falta de habilidade.

Não quero pensar. Não quero lembrar-me.

Mas não consigo nunca esquecer.

 

Acordei em sobressalto com um barulho que juraria vir da sala.  Podia ter falado alguma coisa. Podia ter fugido, ou ligado para a Polícia, mas fui buscar a arma. O coração aos pulos, pé ante pé fui para a sala. Vi um vulto – não havia luz, porque é que não a ligou? – e disparei.

Houve um Luís. Houve um nós.

quinta-feira, abril 01, 2021

Post 8007 - CNEC 54 - 26 - 2/10 - A decisão

 
Quem decidiu não fui eu
 
 
Talvez já não gostasse dele, se é que alguma vez gostei.
No início, apesar de deslumbrada, assustou-me levemente a corrida em que nos metia.
Namoramos e vamos logo morar juntos. “A tua família e amigos devem ficar longe, na casa deles. Temos de ter a nossa intimidade.”
Mas que intimidade?
Eu a tentar manter tudo em ordem para que não se zangasse, enquanto ele bebia cerveja e assistia a jogos de futebol na televisão ou saía para ir vê-los com os colegas e compinchas.
Grata e agradecida que saíssem, ao invés de berrarem se havia golo ou falta, e filho da puta do arbitro que era cego e nada via, e deixarem depois a sala desarrumada, copos sujos e garrafas esquecidas.
Vendo meu desencanto saiu-se com “se me deixas, mato-te e mato-me”. Se ao menos se matasse primeiro.
Tinha-me iludido, não era um príncipe, mas um traste, potencialmente perigoso.
Não me deixaria ir, tinha de definir uma estratégia e arranjei um plano.
Comecei a ouvir vozes, a não acertar em nada, limpezas, lavagens, cozinha, mas mal ele chegava corria para ele, suada e louca: “amor não me deixes”.
Se ralhava porque nada estava pronto, concordava com ele, “tens razão amor, não consegui, não te mereço, mas não me deixes que sem ti morro.”
A certa altura, ele mudou a ameaça: “se não voltares a limpar, lavar e cozinhar como antes, deixo-te!”
“Não, não, não! Nunca!”
Continuei a falhar, desarranjada e pegajosa, e ele decidiu castigar-me. Fez as malas vociferando: vou deixar-te!
Só faltou arrastar-me aos seus pés quando ele de malas feitas me atirou com a chave da porta.
Foi-se.
 
Depois.
 
Ele, espantado, a seguir perturbado e zangado, tarde demais para voltar se eu não lhe pedisse…
Não lhe pedi.
 
Eu, finalmente livre.

 

quinta-feira, março 25, 2021

Post 7996 - CNEC 54-26 - 1ª Jornada - 1/10 - O Segredo

 

 

Pode um segredo unir-nos

e definir quem somos.

 

Intervalo das aulas em tarde de Inverno.

Não há muito para fazer cá fora. Os rapazes jogam à bola. Têm brincadeiras brutas, com pontapés e lapadas uns aos outros. Em grupo são meio assustadores.

Então noto que não é com uma bola que jogam. Perto de mim jaz o corpo de uma boneca. Arrancaram-lhe a cabeça que lhes serve de bola. Ela parece-se com a minha boneca Joaninha. Já não brinco com ela - tenho dez anos, sou crescida para brincar com bonecas - mas deixo-a em cima da cama quando saio para a escola e gosto de a reencontrar quando regresso.  Foi o meu segredo para não ter medo de trovões nem de dormir no escuro. Não estava sozinha, porque ela estava comigo.

Não devem tê-la tirado a nenhuma menina, as funcionárias não o deixariam e não podemos trazer brinquedos para a escola.

Alguém tê-la-á deitado fora e eles encontraram-na. Parece-se com a Joaninha. Não é uma boneca cara. Não é daqueles que falam ou andam. Tem rosto e corpo de bebe. Devia ser abraçada e não pontapeada. Pego com cuidado no seu corpo. Queria ter a coragem de ir para o meio do jogo e salvá-la. Se tentasse dizer-lhes alguma coisa não me iam ouvir.

Começa a chover fininho e toca para dentro quando o Rui num pontapé a manda para as silvas. O Delfim que é baixinho e por isso muitas vezes não o escolhem para jogar, grita para os outros que irá buscar a bola. Todos vão para dentro, cá fora só ficamos os dois. Quero pedir-lhe a cabeça, mas não sei como.

Ele olha para mim e diz-me enquanto me a entrega: “esconde-a, será o nosso segredo”.

Baptizei-a Ana.

Afinal os rapazes não são assim tão maus.

 

quinta-feira, março 11, 2021

Post 7978 - Desafio de Escrita - CNEC 53-25 - 9/10 - Final de dia

Final de dia

 

Abriu os olhos e nada viu.

Correção, nada de estranho viu.

Tudo parecia estar igual, tudo no seu devido lugar.

Nada de pequenas fadas escondidas e agarradas a folhas empurradas pelo vento. Nem faunos ameaçadores, ou piratas com ganchos que as perseguissem.

Atrás de si ficava a casa. De onde estava, via relva, árvores, os muros que separavam o terreno do dos vizinhos. Múltiplos tons de verde que mudavam até com o sopro de vento e raios de luz.

Já antes de abrir os olhos, sentia a tarde adiantada, de sol e calor.

Passara pelas brasas em pequena sesta. Sentado na cadeira de jardim, cabeça e braços à sombra, as pernas agora aquecidas pelo sol que descia e virava para poente.

O ar cheirava a dias de verão, às sardinhas e pimentos que um vizinho algures assava, e ouviam-se mais distantes, gritinhos e risos de crianças – as pequenas fadas e companhia -  e agora também a voz das mães que os chamavam.

Não tinha mais recomeços, ou a ilusão de os ter. Sabia ser já impossível corrigir erros, e inútil, matutar neles. Não poderia mais compensar familiares e amigos, pelos encontros adiados e a falta de tempo. Quase todos tinham já partido. Em breve iria juntar‑se a eles.

Mas tinha aquele dia, o resto da tarde, o calor do sol que o aquecia, o que conseguia ver e ouvir à sua volta.

Sairia dali só quando escurecesse.

Em casa fritaria um ovo para o jantar, faria de conta que era novo quando se fosse deitar, e esperaria sonhar com fadas, faunos e piratas.

quinta-feira, março 04, 2021

Desafio de Escrita, CNEC 53/25 - 8/10 - Irene

  

“São precisos finais para haver recomeços

e todos os caminhos são cheios de tropeços”

Lema de Irene até ao dia x

 

 Irene sabia desde sempre que era especial, apesar de mais ninguém o ter ainda percebido.

Filha única, perdera os pais cedo, antes de se formar Enfermeira. Não tinha amigos, mas não sentia falta. Após estagiar no Hospital, começou a trabalhar num Lar.

 Antes, gostava de passar pela ala dos recém-nascidos, agora tinha ao seu cuidado idosos. Aos primeiros aguardavam infinitas possibilidades, os outros, até as memórias perdiam.

Foi então que começou a ouvir as vozes.

Discutia-se a eutanásia, se devia ou não ser aprovada. A olhar para os seus pacientes, frágeis e doídos, percebeu que só a morte lhes traria paz. As vozes disseram-lhe que era o seu destino, o que sempre pressentira, seria o Anjo da Paz.

Elegeu a primeira beneficiária na noite de Natal. Havia redução do pessoal e aquela senhora nunca tinha visitas. Injectou-lhe a insulina enquanto dormia.

Ela passou mal, soou o alarme e reanimaram-na.

Errara na medida, pensou quando saiu. Foi a remoer no caminho para casa, agarrada à carteira onde levava a injecção e a embalagem usadas. Da próxima vez ia aumentar a quantidade, escolheria melhor o paciente, alguém mais inerte, talvez incapaz de falar.

Absorvida nos seus pensamentos não se apercebeu que era seguida.

 

Zé magro, toxicodepedente, condenado por roubo, saíra há pouco da prisão. Precisava de uma dose.

Um tropeço e estava à frente dela. Quis tirar-lhe a mala e Irene agarrou-se a ela. Puxou da navalha e nada. A cabra estúpida devia lá ter dinheiro, concluiu ele, enquanto ela só pensava nas provas que a condenariam e nos seus planos para o futuro.

Tudo se precipitou, queria cortar-lhe a alça da mala, mas falhou, e espetou-lhe a lâmina na garganta… 

quinta-feira, fevereiro 25, 2021

Post 7961 - Campeonato de Escrita 53/25 - 7/10 - O que vejo da minha janela

O que vejo da minha janela

 

Chuva, chuva, chuva.

Na rua inclinada há um rio de lama que cresce e ruge.

Uns poucos carros ainda se aventuraram a subir e a descer, mas o último foi arrastado pela torrente de lama. À janela o condutor e passageiro, os dois de máscara pareciam alarmados, mexiam muito os braços. A viagem forçada parou quando embateram no contentor verde de lixo. Fugiram a nadar para longe do carro e da rua.

Desde então, mais nenhum carro se viu.

Nem gente valente que lutasse contra a corrente ou nadasse pelo rio.

Continua a chuva, indiferente e impaciente. Sucedem-se as bateladas, ávidas e geladas.

Antes pensava que vivendo no segundo andar estava segura.

Deixei de ouvir os do primeiro andar há alguns dias. Também não falavam muito. À noite escutava os seus suspiros fundos, mas agora só ouço a chuva.

Os do rés-do-chão mudaram-se há muito, partiram num bote. A senhora de xaile repetia “viver assim não é possível”. O marido de galochas amarelas nada dizia. Levavam pouca coisa. O resto não cabia no bote ou estragou-se.

Cresce o rio, sobe a água.

Já quase não tenho comida. Não há luz, nem gás, mesmo onde não chove, está húmido. A humidade inunda a casa, sinto-a nos ossos, dor contínua e fina.

A enxurrada leva tudo, poderá levar a casa?

Enfrentarei o dilúvio, sem arca.

De noite sonhei que fujo de balão para um país quente. De cima olhamos para baixo e à volta, o céu azul sem nuvens, a terra vermelha e seca, o sol enorme, bola laranja e amarela, ardente.

Acordei e algo de estranho se passava.

Não ouvi a chuva.

quinta-feira, fevereiro 18, 2021

Desafio de Escrita CNEC 53/25 - 6/10 - A mensagem

        Andavam aborrecidos por insignificâncias. Pela falta de tempo e exigências do trabalho. Acusavam-se um ao outro de pouco fazerem em casa, ou pela relação. Seria a crise dos sete anos.

Era o seu aniversário, mas de manhã ela não lhe disse nada.

Ele saiu sem se despedir, sem combinar sequer que iria ele buscar a miúda.

Começou a sentir-se culpado quando saiu do trabalho às cinco e não passou pelo Infantário.

Chegou e não estava ainda ninguém. Foi arrumar uns papeis, responder a emails e sms de feliz aniversario, sem dar pelo tempo que passava. Escurecia e nada de aparecerem. O telefone de casa tocou e o som assustou-o. Raramente ligavam para este. Era sua sogra – tinha de ser. “Liga a televisão”, ordenou-lhe com uma voz alterada. Fê-lo. A policia cercava o Centro Comercial ali perto. A sogra continuou: “A Ana foi comprar-te uma prenda e está lá com a menina”. Começou aí o seu pesadelo.

Correu para lá. Os Agentes não o deixaram passar, a ele e a tantos outros que preocupados com familiares e amigos esperavam. Estava um louco lá dentro aos tiros. A polícia ia entrar.

E entrou. Ouviram-se tiros e gritos. Alguém disse que fora atingida uma criança ou ele julgou tê-lo escutado?

Tanto lhe parecia que o coração lhe parava no peito, como lhe começava a bater acelerado.

Queria só tê-las de volta. Não podia fazer nada a não ser esperar e pesava-lhe cada segundo.

Avisaram que o suspeito fora desarmado, mas primeiro iam entrar os paramédicos e era preciso proceder a uma busca, garantir que actuara sozinho e o local estava seguro.

Pensou, se iam entrar os paramédicos era porque havia feridos, talvez mortos.

Ouviu então o som de uma mensagem. Foi ver. Era da Ana: “Estamos as duas bem, amo-te e parabéns.”

quinta-feira, fevereiro 11, 2021

CNEC 53/25 - 5/10 - Era uma vez um sonho

 Era uma vez um sonho que uniu um casal.

- Conta outra vez, mãe!

- Já contei mais cem, tu e a tua irmã não estão já fartas de me ouvir?

Em coro, as duas: “Não!”

- Então, vamos lá:

Era uma vez um sonho que uniu um casal.

Estavam os dois na melhor confeitaria do reino, mas não se conheciam, e o príncipe pediu o último sonho. Aquele era o melhor sonho que alguma vez existira, dourado, coberto de açúcar, docinho e absolutamente perfeito, e era também o último.

Quando o colocaram num prato à sua frente, reparou o príncipe que atrás de si, segunda na fila, estava a mais bela princesa – nesta altura o pai das crianças e marido há dez anos, que parecia estar absorvido nas Noticias, ergue as sobrancelhas e diz algo imperceptível.

Não deixo que me perturbe e continuo, “a mais bela princesa por fora e por dentro, olhava para o sonho, triste e ansiosa, porque se apercebera que era o último, além do mais perfeito.

Foi então que o príncipe gentilmente recuou para lhe ceder o sonho, mas…”

- “Mas”, repetem as filhas, na expectativa,

- O vosso pai, terceiro na fila, avança, agarra o sonho e devora-o só com uma dentada!

As filhas riem, e pergunta a mais velha: “e porque não escolheste antes o príncipe, mama?

Olho para marido, de novo aparentemente absorvido nas notícias e escolho um final diferente, “bem, eu tinha de o fazer pagar”

Ele também ri e vem ter connosco, “preferia a outra versão da história, como era? do terceiro da fila ser bem mais atraente e simpático. Muito bem meninas, qual é a moral da história?”

Elas não sabem, e ele responde: “não desistam de agarrar o vosso sonho” e agarra-me a mim.

quinta-feira, fevereiro 04, 2021

CNEC 53/25, 4/10, Falei-te naquele dia

 

“Falei-te naquele dia que não gostava de te ver com esse vestido preto. É muito escuro e triste.” Susana olha para o meu retrato por alguns segundos. Suspira e volta para o quarto. Será que me ouviu? Regressa com outro vestido, o verde que comprámos as duas. Com ele parece mais alegre e jovem. É tão bonita a minha filha. Pára à frente do meu retrato e sorri para a imagem. Nele, eu não estou bem a sorrir, mas tenho um ar feliz, e menos anos, como era antes da doença que me levou. Queria retribuir-lhe o sorriso, espero que o sinta, assim como o amor e o orgulho que tenho nela. Sai porta fora e não a sigo. Fico ali por casa.

Não vi nenhuma luz branca para a qual caminhar, não escutei ou senti qualquer presença. Soube que morri porque pararam as dores, a pressão no peito e o medo. Estava num hospital e não via ninguém que conhecesse, mas de alguma forma consegui regressar a casa. Serei talvez um fantasma. Não sei porque permaneço, não me sinto triste ou só, antes aliviada. A vida continua.

Um som vindo da porta chamou-me a atenção. Ter-se-ia esquecido de alguma coisa? Vou ao seu encontro, mas deparo-me com o antigo namorado dela. Nunca gostei do Nuno. Não a tratava bem e enganava-a. Não lhe disse nada, mas apoiei-a quando acabaram. O que fará aqui? Esteve a beber e parece zangado. Está à espera da Susana. Pressinto que lhe quer fazer mal. O medo e amor dão-me força. Quando me torno visível o frio invade a sala. Ele estaca, olhos arregalados. “Dá-me a chave!” Ele obedece e enquanto recua para a porta, ordeno-lhe “nunca mais a procures!”. Vejo-o a fugir.

Percebo porque fiquei e sei que agora é hora de partir.

quinta-feira, janeiro 28, 2021

Post 7920 - CNEC 53/24, 3/10 - O Choro

 

O choro parecia-lhe às vezes, como agora, o miar de um gato. Não a deixava dormir, mas não era tão mau como quando berrava com fome. Era incrível como uma criaturinha tão pequena conseguia gritar daquela forma, um som elevado e contínuo, nem parecia sequer que parasse para respirar. Ninguém lhe contara que seria assim. Ou se lhe contaram, não ouviu.

Enquanto a barriga lhe crescia e passara pelos enjoos, dores de costas, pressão na bexiga, a mãe, tias, amigas já mães, vizinhas, praticamente qualquer mulher com que se cruzava, contavam histórias horríveis de partos. Quase chegara a desejar que o momento não chegasse. Quase, porque se queria ver livre das dores e incómodos e queria ver com era o seu bebe. Depois, quando chegara o momento, tivera uma boa hora…mais ou menos, o bebe tinha-se atravessado com o cordão umbilical à volta do pescoço. Anestesiaram-na para a cesariana, não sentiu nada. Quando lhe trouxeram o seu filho estava a despertar. Pareceu-lhe muito vermelho. A mãe contou que ela fora assim, o seu filho era a sua cara, mas depois a sua sogra disse o mesmo em relação ao pai, filho dela, e ela e o João não podiam ser mais diferentes.

A seguir veio a preocupação com o leite, ter leite e que o bebe mamasse.

Quando lhes deram alta teve foi medo. Como poderia cuidar de algo tão pequeno e frágil?

Agora ali estavam os dois e ela começara a sonhar com o dia em que o poderia deixar num Infantário ou com as avós, e voltar ao trabalho. Se lhe dissessem antes não acreditaria que pudesse ansiar pelo trabalho como se fosse um descanso. Olhou para o bebe: “vais ter de me compensar quando cresceres, talvez sendo feliz”. E decidiu que ele se parecia era com ela.

terça-feira, janeiro 26, 2021

CNEC 52º/24 - 10/10 O Aviso

  

Ouvia ou não ouvia?

Queria continuar a dormir. Sentia que era demasiado cedo para despertar. Pressentia que se acordasse não conseguiria depois voltar a adormecer.

Pum Pum Pum Pum Pum

Se primeiro era estranho e ritmado o último som foi também estrondosamente elevado. Assustou-a. O que era aquilo? Estava acordada, completamente desperta e algo receosa. Ficou muito quieta a escutar. Nada. Parecia-lhe que ouvia o sangue que lhe corria pelas artérias ou veias na cabeça, mas do exterior nada. Devia levantar-se e ir ver o que tinha sido? Seriam ladrões? Poderiam ter ficado parados à espera de confirmar que não havia alguém em casa? Saberiam que ela lá estava e queriam assegurar-se que não acordara antes de irromperem pelo seu quarto e a matarem? Onde é que tinha o telemóvel? Tinha de pedir ajuda.

Achou o telemóvel, desbloqueou-o. A luz que iluminou o quarto tranquilizou-a. Estaria a ser parva. Teria realmente ouvido algo? Levantou-se e acendeu a luz. Tudo aparentemente tranquilo. Ia para abrir a porta do quarto quando notou o fumo que por baixo desta entrava. Tocou na porta e estava quente.

Foi até à janela, abriu-a, e sentiu o cheiro de algo que ardia. Não se enganara, havia fogo no prédio onde vivia. Enfiou um roupão, agarrou a carteira que trouxera para o quarto e saiu pela janela. Felizmente morava no rés-do-chão. Dali ligou para o 112. Estava escuro e frio, apesar das chamas e bem visíveis no andar oposto ao seu. O prédio era abraçado pelos andaimes de obras, ainda inabitado além do seu apartamento. Talvez tivesse começado lá, no apartamento oposto. Talvez do se lar ainda algo se salvasse. Juntamente com alguns vizinhos que depois a rodearam esperou pelos Bombeiros.

Não chegou a saber quem ou o quê fizera o barulho que a salvou.

sexta-feira, janeiro 22, 2021

sexta-feira, janeiro 15, 2021

Como texto arrepiante, qual enviar? CNEC 52/24 - 9/10

Até segunda-feira, data limite, envio o 1º ou o 2º ou o melhor é escrever outro?


No início do ano de 2021 o Covid 19 sofreu uma mutação que aumentou as taxas de contágio e de mortalidade. As vacinas que tinham sido aprovadas e estavam a ser utilizadas, não só se revelaram ineficazes, como tornaram mais frágeis os que já tinham sido vacinados, assim como os recuperados. Médicos, enfermeiros, auxiliares morreram em dois, três dias. Todos os demais começaram a morrer em quatro, cinco dias. Ninguém lhe resistiu.

Morreram todos aqueles que eu amava e os que poderia vir a amar.

Tive de ser eu a cavar as sepulturas dos meus pais, mulher e filho.

Tento não pensar neles, em como me vi impotente, um a um, para os ajudar e depois terrivelmente sozinho.

Se tivesse sobrado algum cientista poderia investigar porque razão é que estou vivo.

Deixou de haver água nas torneiras e electricidade. Rádio, televisão, internet, não funcionam.

Durante meses metia-me no carro, abastecia nas gasolineiras vazias, dormia onde calhava, casas ou hotéis onde não houvesse corpos. Tive de arrombar portas de supermercados para conseguir comida. Quando o meu carro avariou fui buscar um parecido a um stand. Percorri quilómetros. Nunca encontrei ninguém vivo. Tanto quanto sei, sou único, o último homem na Terra. 

Já pensei em matar-me, mas tenho medo de falhar, ficar ferido a sofrer, sem haver ninguém que possa socorrer-me. Não posso ir ao Google descobrir onde encontrar venenos que sejam seguros e não causem sofrimento. Posso arrombar farmácias, mas nada sei sobre a composição de remédios. 

Há matilhas de cães esfomeados pelas ruas da cidade. Tenho de ter cuidado para os evitar. Por todo o lado crescem ratazanas e baratas. 

Voltei para casa, gelada e escura no Inverno, quente no Verão. Sobrevivo de enlatados fora de prazo e espero pela minha morte, preso em agonia, mas covarde para a antecipar. 


Ou


Ele vem pelos espelhos

 

Assistiu ao filme com as amigas uma noite. Ficaram assustadas, mas negaram-no. Ela quis ir mais longe. Virada para o espelho da entrada proferiu “candyman”. Aos gritinhos as amigas pediram-lhe que parasse. Ela repetiu-o uma, duas vezes. Pelo canto do olho pareceu-lhe que além de invertida a imagem reflectia algo que lá não estava.

Foram deitar-se. A noite passou. Não lhe passou da ideia o que tinha feito, o que julgara ver.

A partir daí em cada espelho procurava-o, sossegava-se se nada via, até que começou a ver.

Ele vinha aí, vinha por ela. Passou a tapar os espelhos e a fugir deles.

Uma noite enquanto dormia, algo (o vento?) empurrou o pano que tapava o espelho do guarda-fato. Soube-o porque o frio que invadiu o quarto a acordou. Viu-o, não num canto, mas de frente. Vinha por ela, atravessava pelo espelho. Ela gritou e fugiu para a sala. Os seus gritos acordaram os pais, descobriram-na com cortes nos braços (mas quando é que ele a cortou? quando fugia?). Gritava que tinha sido o Candyman, mas mais ninguém ali estava. Os pais não sabiam o que fazer, cuidaram-lhe das feridas.  Esperavam que acabasse ali, mas a situação repetiu-se mais duas vezes. Na última foi preciso chamar o INEM. Ela repetia, se eu fugir do espelho, ele não consegue seguir-me. Estava muito alterada. Os pais acederam a que fosse internada. Gritou com eles e todos até pensar na cela não há espelhos.

E não havia, embora não gostasse de estar trancada. Apenas uma cama com uma coberta e pequena janela. Quando lhe trouxeram a comida, virou o tabuleiro. Não o vieram buscar. Deitou-se. Era já tarde e havia luar. Alguma luz entrou pela janela, viu o seu rosto reflectido na água espalhada no chão. A seguir viu-o a ele…


quinta-feira, janeiro 14, 2021

CNEC 53/25 - 1/10 - Uma história de infância

 

- No meu tempo tínhamos de crescer cedo. Quando eu tinha nove anos não sabia nadar. O meu pai fartou-se dos meus medos, pegou em mim e atirou-me para o rio. Disse‑me para fazer como os cães, que os homens é que são estúpidos e se afundam, se batermos as pernas como os cães isso já não sucede. Não sei como fiz, devo ter batido os pés, as mãos. Mal me vi em terra, apesar da roupa molhada e ter engolido um balde de água,

- Aprendeste a nadar?

- Aprendi nada, mas nunca mais me deixei foi apanhar fosse por quem fosse perto de água.

Rio baixinho ao lembrar, mas rio sozinho. Ninguém fez a pergunta que julguei ouvir. Ninguém me escuta ou presta atenção. Talvez nem faça sentido o que digo. Também muitas vezes não entendo o que me dizem.

Sempre gostei de conversar, tomar um café ao fim do dia, ouvir do que falavam em redor, lançar às vezes uma acha para a fogueira.

Agora falo sozinho. Confundem-se-me os tempos e os eventos. Reformei-me com os filhos criados e encaminhados, íamos viajar, mas uma manhã a Ana não acordou. Passei mal. Fui para o hospital, deram-me alta, mas fiquei preso do lado direito. Pensei que iria viver para casa da minha filha, mas ela tinha a vida dela. O meu filho também, e não podia ficar sozinho. Meteram-me num lar. Espaçaram as visitas até não virem mais. Deixei de ter as minhas coisas, não posso nem decidir a que horas me deito e levanto. E isto está cheio de velhos. Havia um que berrava de repente e assustava-nos. Algo de que se lembrava e o fazia zangar-se, mas já morreu.

Se voltar a sonhar que o meu pai me atira para a água, vou me deixar afundar.

terça-feira, janeiro 12, 2021

CNEC 52/24 - 8/10 - A Declaração


Quando mudaram para aquele prédio contaram os vizinhos da frente que ali apenas havia outra criança, mas era um miúdo complicado. A mãe soube depois mais pormenores da vizinha, em empréstimos de açúcar e ajudas na mudança: “Filho de pais separados, a mãe bebia, envolvia-se com muitos homens, alguns deles casados. Uma vergonha. Primeiro tive pena do garoto, mas parece um gato selvagem, olha-nos meio de lado”.

Encontrou-o pela primeira vez nas escadas quando saía para um recado. Não gostou de como ele olhava para ela, de cima para baixo, apesar de estar uns degraus mais acima. Ele deve ter percebido que ela não engraçara com ele, mas ao invés de se afastar, pôs-se a imitar com voz de troça a última frase da mãe: “Rosa conta bem o troco, não te enganes”. Deu-lhe uma raiva que não se conteve, empurrou-o. Apanhou-o de surpresa e ele caiu. Logo levantou-se e cuspiu-lhe: “Rosa só tens espinhos”. Ela tentou dar-lhe um pontapé, mas ele fugiu. Pensou depois que não se portara bem, mas era talvez tarde de mais para mudar porque a partir daí se tornou um padrão quando se cruzavam sozinhos. Ele vinha com trocadilhos sem graça, ela tentava empurrá-lo, ele fugia. Se mais alguém estivesse por perto, agiam como estranhos.

Quando fez dez anos estreou um vestido lindo. Brincou a tarde toda lá fora, mas quando vinha para casa, caiu e rasgou-o em baixo. Veio em prantos a imaginar o castigo e tinha dele lhe aparecer pela frente. Viu que ela chorava e o motivo. Dessa vez não fez troça. Pareceu até preocupado por ela.

Não se livrou do açoite, mas ficou a pensar nele. No dia seguinte quando o encontrou, ele também não falou nada. Ela chegou-se ao pé dele e disse-lhe baixinho, deixando-o espantado “assim gosto de ti”.


terça-feira, janeiro 05, 2021

CNEC 52/24 - 7/10 - Roda que roda

  

Roda que roda, cabelo de bruxa, volta para o inferno de onde saíste.

Roda que roda, ninguém te quer, a tua mãe morreu, o teu pai nunca viste.

Enfezada e triste, criada pelos avós amargurados com o abandono e morte da filha.

A mãe, menina bonita na fotografia da comunhão, perdeu-se de amores por um desconhecido.

Saía de noite quando todos dormiam e regressava pouco antes da luz do dia.

Uma madrugada chegou mais tarde com marcas de silvas, a roupa rasgada, fria, calada.

Não voltou a sair, deixou de falar, não respondia sobre o que tinha. O que sucedera, ninguém sabia. Deixou de sangrar e cresceu-lhe a barriga. Os pais queriam esconder o seu estado, mandaram-na embora para a casa distante de uma tia.

Na noite em que nasceu a filha, quando ninguém estava a ver, nem o esperava, voltou a sair, mas deixou a menina.

Dois dias a procuraram até que a encontraram no fundo do poço.

 

Cresceu sem carinho e com a troça de outros meninos.

Roda que roda, cabelo de bruxa, volta para o inferno de onde saíste.

Roda que roda, ninguém te quer, a tua mãe morreu, o teu pai nunca viste.

Assim que pôde mudou-se e reinventou-se.

Voltou à vila pela morte do avô. Ninguém a reconhecia, nem a avó, já com noventa anos, com alzheimer ou demência. Iria para um lar, mas nessa noite ficaram as duas na casa para o velório.

Pensava que a avó dormia quando de repente abriu os olhos e a chamou pelo nome da mãe:

“Bela tens de o largar que é casado.”

Afinal a avó sabia.

Quem?

Não respondeu, voltou à habitual letargia.

Nem que me mate vou descobrir. Levou a avó com ela para a cidade, tratando dela com todo o cuidado até que conseguiu saber…

terça-feira, dezembro 29, 2020

Post 7878 - CNEC 53/24 - 6/10 Perigo na noite

 

 Três da manhã e o bar estava para fechar. Por ali tinham passado casais numa última bebida, grupos de jovens que seguiram para discotecas e alguns solitários. A sua atenção foi para as solitárias. Era exigente nas suas escolhas. Não lhe servia qualquer uma. Gostava delas elegantes e bem vestidas. Variavam na idade, mas todas tinham aquele ar de mal-amadas. Estudava-as para decidir a melhor abordagem. Algumas vezes era ultrapassado por algum solitário ou conquistador convencido. Se tinham sucesso, perdia a oportunidade, mas não raramente aprendia com os erros que cometiam.

A escolhida daquela noite era uma mulher rara. Despachara todos aqueles que tentaram falar com ela. Decidiu por isso que não iria fazer o mesmo, mas segui-la-ia quando saísse. Tal só sucedeu mesmo no encerramento. Apesar de ter bebido bastante ela aguentava-se bem. Ele não bebera álcool, pedira um whiskey e quando ninguém estava a ver, despejara-o numa planta. Ele saiu primeiro e abrigou-se numa portada de onde podia observar quem saia do Bar sem ser visto.

Viu-a sair. Ela passou as mãos pelos braços numa reação ao frio da noite e sem pressa dirigiu-se para o parque. Seguiu-a em silêncio. Ninguém mais ali estava além dos dois. Viu quando ela destrancou o seu carro e entrou para o lugar do condutor. Rapidamente abriu a porta oposta e entrou. Quando ela o olhou surpreendida, mostrou‑lhe a arma:

- Arranque e siga pela esquerda. Se fizer o que lhe disser, nada lhe acontecerá.

- Pode levar a minha carteira.

- Faça o que lhe disse.

- Quer o carro?

- Quero que faça o que lhe disse. Apontou-lhe o revólver para que parasse com a conversa. Resultou. Ela colocou o carro em movimento, aproximou-se da saída, virou.

Mas então foram embatidos por um carro eléctrico, silencioso, rápido e da polícia.

terça-feira, dezembro 22, 2020

Post 7843 - CNEC 52/24, 5/10 - Conto de Natal

 

Faltavam dois dias para o Natal quando o marido anunciou: “Convidei um colega para a ceia”.

Casados há doze anos era em casa deles que faziam a festa, com os pais de ambos, sem crianças. Queriam filhos, mas não conseguia engravidar e a esperança ia diminuindo.

Divagara para algo que a entristecia, quando algo recente a incomodava. É que nem sequer lhe perguntou antes. Não. Comunicou‑lhe. E quem era? Não teria com quem estar?

Durante o dia foi mastigando o sucedido. Quando ele voltou do trabalho discutiram. Ele acabou por dar-lhe razão, mas não ia agora dizer ao rapaz que ficara sem efeito. Estava longe da família, convidou-o para que não passasse o Natal sozinho.

E o Manuel veio. Os mais-velhos gostaram dele. Ouvia com atenção o que lhe diziam. Ajudou a servir e a lavar os pratos.

No final do jantar apareceu com prendas. Uma garrafa de vinho para o marido, postais antigos para os mais velhos. Para ela, nada. Sentiu‑se como uma criança, entusiasmada, depois decepcionada.

Nas despedidas, o Manuel falou baixinho para ela “no próximo Natal vai estar aqui uma criança”.

Pensou depois se teria ouvido bem, ou se estaria com uma alucinação auditiva, quiçá pelo vinho do Porto. Algo lhe dizia, todavia, que poderia ser essa a sua prenda. Não queria alimentar a esperança, mas depois confirmou-se, estava grávida.

Não podia haver nenhuma relação, mas perguntou ao marido:

- O teu colega, como vai?

- Qual?

- O Manuel.

- Despediu-se, mudou-se e o número que deixou foi cancelado. Era bom tipo, mas diferente.

Ela lembrou-se do verso “o mundo for o espaço onde cabe um só abraço.”

Nos Natais seguintes, além do seu filho, passaram a ter mais alguém. Passou a fazer parte da celebração convidarem um estranho que estivesse sozinho, para cear com eles.

 

(utilizei conto que tinha escrito para a Colectânea mas tive de cortar mais de duzentas palavras e rescrever parte)

Vou transcrever para aqui o poema Natal de António Sérgio (aprendi-o de cor para o declamar na festa de Natal da 4ª classe/4º ano)

NATAL - António Sérgio
Enquanto a chuva
Escorrer da minha vidraça
E furar o telhado
Daquele farrapo de homem que além passa
Enquanto o pão
Não entrar com a Justiça
Lado a lado
Mão a mão
Nem Jesus vem
Andar pelos caminhos onde os outros vão
Um dia
Quando for Natal
(E já não for Dezembro)
E o mundo for o espaço
Onde cabe
Um só abraço
Então
Jesus virá
E será
À flor de tudo
O Redentor
Universal
(Quando o Homem quiser
Será Natal)
In Poemas de Natal

quinta-feira, dezembro 17, 2020

CEC 51/23 - 10/10 - Os Sonhos nascem primeiro, I Capítulo

 

Capítulo I

 

Se havia pessoa destinada a uma vida mediana ou mesmo miserável seria Eufrásio. Até pelo nome infeliz que lhe deu o Padre da Instituição onde foi abandonado. Permaneceu lá só algumas horas, mas o Padre Tiago quis saber da sorte do menino e quando se confirmou que ninguém o adoptaria, quis ser seu padrinho.

Era uma criaturinha feia e doente. Primeiro previram-lhe a morte em poucos dias, previsão constantemente adiada. Nos primeiros anos cresceu pequeno e enfezado e desconfiavam que teria também um atraso. Com tanto contra ele não admira que ninguém o quisesse.

Foi crescendo em Instituições, com breves visitas do Padrinho.

Quando foi para a escola descobriram que gaguejava. Para fugir à troça dos colegas permanecia quase sempre calado. O Padre tinha pouco tempo para ele, especialmente quando desafiado para Missão em África, mas antes de partir deixou-lhe um legado que o transformaria, a sua colecção de livros.

Nasceram talvez da leitura os seus sonhos que a ninguém revelava. Alguns seria fácil de adivinhar, queria Eufrásio ter uma família, ser igual aos outros meninos, ser amado.

A troça dos outros poderia tê-lo feito amargurado, mas os livros levaram-no apenas a sonhos mais elaborados. Se não podia ser amado, ia ser respeitado.

Pela solidão ou teimosia leu todos os livros, que eram muitos, e mais do que uma vez, aprendendo com eles.

Quando chegou à maioridade, sabedor dos seus direitos pelos livros de Lei que lera, alcançou a alteração do nome para Tiago. Com o que aprendera dos livros policiais e científicos investigou e descobriu a sua ascendência, soube que pouco após o seu nascimento a mãe se matara. Demandou a família materna que tinha posses, conseguiu o apelido e parte da herança.

O dinheiro que recebeu permitiu-lhe continuar os estudos.

Permanecia um mistério que o incomodava saber quem era o seu pai e se por ele, e através dele, poderia ainda ter uma família. A materna desde o início que o rejeitara, ainda mais depois de exposto em tribunal o segredo que tanto queriam ocultar, e ao se verem forçados a entregar-lhe a quota da mãe.

 O agora Tiago licenciou-se em Direito. Pela gaguez embora um pouco atenuada, desistiu de ser Advogado e ingressou na magistratura.

Conseguiu o respeito pela posição e saber, mas não a família.

Todavia, mantinha e acalentava esse sonho.

Esgotadas as diligências próprias resolveu contratar um Detective. Saiu-lhe uma detective.

 

terça-feira, dezembro 15, 2020

Desafio de Escrita CEC 52/24 - 4/10 - André

 André levantou-se do sofá e agarrou-se à mesa que estava ao lado. A visão estreitava-se e escurecia, à boca veio-lhe o amargo da bílis, um suor frio escorreu-lhe pelas costas. Tremeu, pensou que iria desmaiar, mas aguentou-se, agarrado à mesa.

Os segundos pesaram-lhe, mas a tontura passou.

Olhou em redor. Magda tinha saído talvez por meia hora. Tinha de procurar ajuda.

Em passos hesitantes conseguiu chegar até à janela. Abriu-a e o ar frio do Inverno invadiu a sala. Estranhamente ajudou-o. Pareceu-lhe que respirava melhor. Debruçou‑se. Muito lá em baixo quais formigas moviam-se pessoas, demasiado longe para o ouvirem se gritasse.

Dirigiu-se para a porta no lado oposto, ainda trémulo, mas a ganhar mais segurança em cada passo. Experimentou a maçaneta e ela moveu-se. Atravessou o corredor estreito e também a porta exterior lhe obedeceu, no preciso momento em que chegava o casal que morava em frente. Os dois de máscara, estacaram a olhar para ele. Veriam um homem de meia idade de pijama, despenteado e barbudo, de ar doente. Pareceram assustados.

- Não estão a entender, a minha mulher quer matar-me! Sem o poder evitar tossiu.

O homem precipitou-se a abrir a porta da sua casa e em gestos rápidos puxou a mulher. Em pânico, sem nada lhe responderem, entraram e fecharam a porta.

Porque estariam de máscara?

Nesse momento a porta do elevador abriu-se, com um saco e compras de lá saiu a Magda e também vinha com uma máscara.

- Mas que fazes aqui? Assim ainda pioras. Lá para dentro, vá.

Ainda se sentia fraco para a empurrar e por isso recuou, de volta para a casa.

Amanhã tentaria de novo a fuga. Agora só tinha de fingir acreditar que convalescia de pandemia, e que não estava ser envenenado, mas paranoico.