quarta-feira, abril 22, 2026

CEC 68/41 - 4 - Um carro numa rua deserta

 

Dentro do carro, apenas o som do motor e a respiração contida do condutor. Não havia música, nem sinal no telemóvel, nem qualquer outra companhia além dos próprios pensamentos. O ponteiro do combustível estava perigosamente próximo do vazio, mas parar não parecia uma opção.

À medida que a noite caía, a estrada tornava-se ainda mais estreita, como se quisesse engolir o carro. Os faróis iluminavam apenas alguns metros à frente, revelando curvas inesperadas e sombras que pareciam mover-se por conta própria.

Foi então que surgiu algo no meio da estrada.

O condutor travou bruscamente. Era uma figura — ou talvez apenas uma ilusão. Um vulto imóvel, indistinto. O coração acelerou. Por alguns segundos, o mundo pareceu suspenso.

Mas quando piscou os olhos, não havia nada.

O silêncio voltou, mais pesado do que antes.

Sem coragem para sair, o condutor voltou a acelerar. O carro seguiu em frente, mas algo havia mudado. No retrovisor, por um breve instante, pareceu ver a mesma figura… agora atrás do carro, observando.

E, embora a estrada continuasse vazia, a sensação de não estar sozinho nunca mais desapareceu.

 

O carro avançava pela estrada deserta, cortando o silêncio com o som constante do motor. À volta, apenas campos escuros e árvores imóveis, como testemunhas de algo esquecido. Dentro, iam dois — lado a lado, mas separados por uma distância que não cabia no banco estreito.

— Ainda tens frio? — perguntou ele, sem desviar os olhos da estrada.

Ela hesitou antes de responder. — Não é frio.

A luz do painel iluminava-lhe o rosto, revelando um cansaço antigo. Ele conhecia aquele silêncio; crescera dentro dele.

Tinham partido sem dizer muito. Uma mala no porta-bagagens, decisões por fazer no ar. A estrada parecia não ter fim, como se prolongasse o momento em que ainda podiam evitar o inevitável.

— Podíamos ter ficado — disse ele, finalmente.

Ela sorriu de lado, quase triste. — E continuar a fingir?

O carro passou por uma curva apertada. Os faróis iluminaram por um instante algo à beira da estrada — talvez uma placa caída, talvez nada. Nenhum dos dois comentou.

O silêncio voltou, mas agora diferente. Mais íntimo.

Ele pousou a mão sobre a dela, hesitante. Ela não afastou.

— Eu não sei conduzir sem ti — murmurou ele, quase a rir da própria metáfora.

Ela olhou pela janela, onde a noite se estendia infinita. — Então aprende — respondeu, mas apertou-lhe os dedos.

Durante alguns quilómetros, não disseram mais nada. O gesto bastava.

À frente, a estrada continuava vazia, mas já não parecia tão solitária. Porque, por mais incerto que fosse o destino, havia ainda aquele instante suspenso — onde dois corações, mesmo à beira de se perderem, escolhiam ficar mais um pouco.

E o carro seguiu, levando consigo aquilo que ainda não tinha nome, mas que, de algum modo, ainda era amor.

 

O carro avança como quem pensa, lento, atravessando a estrada deserta que se estende sem promessa. O asfalto, gasto e silencioso, guarda o calor do dia e devolve-o em suspiros invisíveis. Não há pressa — só o movimento contínuo, como um coração que decidiu não parar.

Dentro, o mundo é outro. O volante é uma âncora, as mãos um mapa de decisões pequenas. O rádio murmura estática, como se tentasse lembrar uma canção esquecida. E lá fora, nada responde. Nem casas, nem luzes, nem vozes — apenas o horizonte, sempre um pouco mais longe do que parece.

Os faróis recortam a noite em dois caminhos: o que já foi e o que ainda não existe. E o carro segue, indiferente ao peso das perguntas que viajam com ele. Porque há viagens que não são feitas para chegar, mas para atravessar o silêncio até que ele diga alguma coisa.

Por vezes, o vento encosta-se às janelas, curioso, como quem quer entrar. Traz consigo o cheiro seco da terra, histórias que não chegam a formar palavras. O condutor escuta, mas não responde. Há diálogos que não precisam de voz.

E assim, quilómetro após quilómetro, o carro torna-se menos máquina e mais pensamento — um corpo em movimento carregando ausências, desejos e memórias que se confundem com a própria estrada.

No fim, talvez não haja destino. Talvez só reste o eco suave dos pneus no vazio, como um verso repetido até perder o sentido. Ainda assim, o carro continua.

Porque parar seria admitir que a solidão tem fim.

 

O carro seguia por uma estrada deserta quando o rádio começou a chiar sem motivo. Não havia sinal ali há quilómetros, mas uma voz atravessou a estática, baixa e irregular, como se falasse de muito longe.

“Se estás a ouvir isto, não pares.”

Ele franziu o sobrolho, ajustou o volume. A estrada permanecia vazia, reta como uma linha traçada por alguém sem imaginação. Pensou em desligar, mas a voz voltou.

“Já passaste por mim.”

Um arrepio subiu-lhe pela nuca. Olhou pelo retrovisor. Nada. Apenas o rasto escuro da estrada e a poeira suspensa, como um eco físico do movimento.

Continuou a conduzir.

Os quilómetros repetiam-se, indistintos, até que viu algo à frente: um carro parado na berma. Aproximou-se devagar. Era igual ao seu. Mesma cor, mesmo modelo, até a mesma pequena amolgadela junto ao farol.

Parou, contra o aviso da voz.

O motor desligou-se com um suspiro. Saiu, o silêncio caiu pesado à sua volta. Aproximou-se do outro carro. A porta estava entreaberta.

“Não devias ter parado.”

A voz agora vinha de trás dele.

Virou-se depressa, mas não havia ninguém. Só o seu carro… com o motor novamente ligado.

E alguém lá dentro.

A figura ao volante tinha o seu rosto, imóvel, olhando em frente como quem espera um sinal. O rádio crepitava.

Ele recuou, o coração descompassado, sem saber qual dos dois era o erro.

Então, o carro — o seu carro — arrancou sozinho, desaparecendo pela estrada como se nunca tivesse hesitado.

Ficou ali, ao lado da cópia silenciosa, com a sensação inquietante de que a viagem continuava.

Só que sem ele.

Sem comentários:

Enviar um comentário