Dentro do carro, apenas o som do motor e a respiração contida do condutor.
Não havia música, nem sinal no telemóvel, nem qualquer outra companhia além dos
próprios pensamentos. O ponteiro do combustível estava perigosamente próximo do
vazio, mas parar não parecia uma opção.
À medida que a noite caía, a estrada tornava-se ainda mais estreita, como se
quisesse engolir o carro. Os faróis iluminavam apenas alguns metros à frente,
revelando curvas inesperadas e sombras que pareciam mover-se por conta própria.
Foi então que surgiu algo no meio da estrada.
O condutor travou bruscamente. Era uma figura — ou talvez apenas uma ilusão.
Um vulto imóvel, indistinto. O coração acelerou. Por alguns segundos, o mundo
pareceu suspenso.
Mas quando piscou os olhos, não havia nada.
O silêncio voltou, mais pesado do que antes.
Sem coragem para sair, o condutor voltou a acelerar. O carro seguiu em
frente, mas algo havia mudado. No retrovisor, por um breve instante, pareceu
ver a mesma figura… agora atrás do carro, observando.
E, embora a estrada continuasse vazia, a sensação de não estar sozinho nunca
mais desapareceu.
O carro avançava pela estrada deserta, cortando o silêncio com o som
constante do motor. À volta, apenas campos escuros e árvores imóveis, como
testemunhas de algo esquecido. Dentro, iam dois — lado a lado, mas separados
por uma distância que não cabia no banco estreito.
— Ainda tens frio? — perguntou ele, sem desviar os olhos da estrada.
Ela hesitou antes de responder. — Não é frio.
A luz do painel iluminava-lhe o rosto, revelando um cansaço antigo. Ele
conhecia aquele silêncio; crescera dentro dele.
Tinham partido sem dizer muito. Uma mala no porta-bagagens, decisões por
fazer no ar. A estrada parecia não ter fim, como se prolongasse o momento em
que ainda podiam evitar o inevitável.
— Podíamos ter ficado — disse ele, finalmente.
Ela sorriu de lado, quase triste. — E continuar a fingir?
O carro passou por uma curva apertada. Os faróis iluminaram por um instante
algo à beira da estrada — talvez uma placa caída, talvez nada. Nenhum dos dois
comentou.
O silêncio voltou, mas agora diferente. Mais íntimo.
Ele pousou a mão sobre a dela, hesitante. Ela não afastou.
— Eu não sei conduzir sem ti — murmurou ele, quase a rir da própria
metáfora.
Ela olhou pela janela, onde a noite se estendia infinita. — Então aprende —
respondeu, mas apertou-lhe os dedos.
Durante alguns quilómetros, não disseram mais nada. O gesto bastava.
À frente, a estrada continuava vazia, mas já não parecia tão solitária.
Porque, por mais incerto que fosse o destino, havia ainda aquele instante
suspenso — onde dois corações, mesmo à beira de se perderem, escolhiam ficar
mais um pouco.
E o carro seguiu, levando consigo aquilo que ainda não tinha nome, mas que,
de algum modo, ainda era amor.
O carro
avança como quem pensa, lento, atravessando a estrada deserta que se estende
sem promessa. O asfalto, gasto e silencioso, guarda o calor do dia e devolve-o
em suspiros invisíveis. Não há pressa — só o movimento contínuo, como um
coração que decidiu não parar.
Dentro, o
mundo é outro. O volante é uma âncora, as mãos um mapa de decisões pequenas. O
rádio murmura estática, como se tentasse lembrar uma canção esquecida. E lá
fora, nada responde. Nem casas, nem luzes, nem vozes — apenas o horizonte,
sempre um pouco mais longe do que parece.
Os faróis
recortam a noite em dois caminhos: o que já foi e o que ainda não existe. E o
carro segue, indiferente ao peso das perguntas que viajam com ele. Porque há
viagens que não são feitas para chegar, mas para atravessar o silêncio até que
ele diga alguma coisa.
Por vezes, o
vento encosta-se às janelas, curioso, como quem quer entrar. Traz consigo o
cheiro seco da terra, histórias que não chegam a formar palavras. O condutor
escuta, mas não responde. Há diálogos que não precisam de voz.
E assim,
quilómetro após quilómetro, o carro torna-se menos máquina e mais pensamento —
um corpo em movimento carregando ausências, desejos e memórias que se confundem
com a própria estrada.
No fim,
talvez não haja destino. Talvez só reste o eco suave dos pneus no vazio, como
um verso repetido até perder o sentido. Ainda assim, o carro continua.
Porque parar
seria admitir que a solidão tem fim.
O carro
seguia por uma estrada deserta quando o rádio começou a chiar sem motivo. Não
havia sinal ali há quilómetros, mas uma voz atravessou a estática, baixa e
irregular, como se falasse de muito longe.
“Se estás a
ouvir isto, não pares.”
Ele franziu
o sobrolho, ajustou o volume. A estrada permanecia vazia, reta como uma linha
traçada por alguém sem imaginação. Pensou em desligar, mas a voz voltou.
“Já passaste
por mim.”
Um arrepio
subiu-lhe pela nuca. Olhou pelo retrovisor. Nada. Apenas o rasto escuro da
estrada e a poeira suspensa, como um eco físico do movimento.
Continuou a
conduzir.
Os
quilómetros repetiam-se, indistintos, até que viu algo à frente: um carro
parado na berma. Aproximou-se devagar. Era igual ao seu. Mesma cor, mesmo
modelo, até a mesma pequena amolgadela junto ao farol.
Parou,
contra o aviso da voz.
O motor
desligou-se com um suspiro. Saiu, o silêncio caiu pesado à sua volta.
Aproximou-se do outro carro. A porta estava entreaberta.
“Não devias
ter parado.”
A voz agora
vinha de trás dele.
Virou-se
depressa, mas não havia ninguém. Só o seu carro… com o motor novamente ligado.
E alguém lá
dentro.
A figura ao
volante tinha o seu rosto, imóvel, olhando em frente como quem espera um sinal.
O rádio crepitava.
Ele recuou,
o coração descompassado, sem saber qual dos dois era o erro.
Então, o
carro — o seu carro — arrancou sozinho, desaparecendo pela estrada como se
nunca tivesse hesitado.
Ficou ali,
ao lado da cópia silenciosa, com a sensação inquietante de que a viagem
continuava.
Só que sem
ele.
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