O Dia em que tu disseste
Querias o divórcio e não
me amavas.
Deve ter havido uma
altura em que fui feliz.
Talvez no início, mas não
me lembro de como era.
Levantara-se vento e o
nevoeiro descera sobre a vila. Casas velhas e vazias. Em algumas o vento levava
a que batessem as janelas mal fechadas. Seguia-te com dificuldade. Ia pedir-te
para que fosses mais devagar, mas voltava a ver-te, ao teu vulto magro e
despachado, um pouco mais à frente.
Quando finalmente paraste,
não demorei a alcançar-te. Tinhas esperado por mim, antes de com um encontrão
empurrares a porta. Entrámos.
Estava escuro. Lá
perduravam os odores dos enchidos antigamente pendurados na chaminé e da lenha
ardida em lumes há muito extintos. Ligaste a lanterna que trazias. A luz fez-me
piscar os olhos.
Entráramos para a
cozinha. Sabia que ao lado ficavam a sala e os quartos, e sabia o que querias
de mim. Passei por ti, e levei a lanterna. Estranhei que não me seguisses. Sob
os meus pés rangiam as tábuas do chão. Ia recordando o caminho à medida que avançava.
A arca estava no segundo quarto, atrás da porta. Tirei-lhe de cima a roupa com
teias de aranha e pó, que a escondia. Lá dentro, na caixa pequena onde o
deixara, estava o anel falso, mas por baixo dele, apenas embrulhado num lenço, também
se encontrava o verdadeiro, o que tu querias. Guardei-os em bolsos opostos nas
calças. Regressei para te anunciar que já o tinha, e saímos.
Pediste-mo no carro. Mostrei-te
um deles e prometi-te, “é teu quando sair a sentença.”
Disseste que não me
amavas, mas querias dinheiro ou uma joia da minha família para me libertares.
Falso anel para falso
amor.
Nesse mesmo dia fui lá
esconder os dois e inventei a história.