"Quem tropeça é sempre alguém que se distrai a olhar para as estrelas" Vladimir Nabokov (nome do blogue veio do livro para crianças de Virgínia de Castro e Almeida)
quinta-feira, outubro 31, 2019
Post 7243 - CNEC 4/10 Parados no Elevador
Pensei para mim, onde é
que eu vi este senhor, sei que é Engenheiro. Gentilmente deixou-me entrar
primeiro e ao menino, talvez seu filho.
Carreguei no 6º, ele no
7º e o menino começou a carregar nos botões todos!
Ele interpelou a criança:
- Atenção meu rapaz,
assim ainda paramos em todos os andares!
O menino continuou e ele
não se conteve:
- Srª Drª não seria
melhor impedir o seu filho…
- Como meu filho? Pensei
que fosse seu? Lembrei-me de onde o conhecia, há anos fora sua advogada no
processo de divórcio e ele não tinha filhos.
- “Não é seu?” Virou-se
para a criança: “Ó miúdo mas queres parar com isso?”
Nessa altura sentimos
todos uma valente sacudidela, a luz apagou, voltou a ligar e ficámos parados
- Pronto, fizeste-a
bonita e eu estou com pressa!
O menino encostou-se a um
canto do elevador a olhar para o chão.
O Sr. Engenheiro aliviou o
nó da gravata, tirou o casaco: “Não me estou a sentir nada bem…
A criança começou a
fungar
Resolvi tocar no botão no
alarme…Ouviu-se uma voz distante:
- O que é que se passa?
- Estamos parados no
elevador – respondemos os dois ao mesmo tempo, eu e o Sr. Engenheiro
- “Experimentem carregar
no botão do 1º Andar”. O Sr Engenheiro fê-lo de imediato, e nada.
A voz fez-ouvir: “E
então?”
- “Nada, continuamos
parados”, respondi eu. O Sr. Engenheiro empalidecia e não respondeu.
- Já vamos enviar ajuda.
O já vamos prolongou-se
por meia hora. Entretanto tentei entreter o Sr. Engenheiro e o miúdo até para
que o primeiro não assassinasse o segundo ou não caísse para o lado, e o miúdo
parasse de fungar.
Falar sobre o tempo não
ajudou.
De repente, nova
sacudidela. A porta abriu-se e saímos todos apressados.
quarta-feira, outubro 30, 2019
Post 7239 - Colectânea Lugares e Palavras de Natal
O meu texto (enviado no último dia, de novo procrastinei :( ) foi seleecionado para a Colectânea
Natal no Mundo ao contrário
Ainda não está muito frio, mas as árvores
já estão despidas de folhas.
Há sítios em que neva, mas em outros
locais há calor.
O Mundo ao contrário.
Tanto quanto o estado do tempo nos vários
países, o passado e o presente.
O que fazer se no presente há ausências
tão dolorosas e imensas que nos fazem desejar partir,
E mesmo quando parece que o depois é o
nada, querer ainda assim partir para que deixe de doer.
Como se para curar a enxaqueca se cortasse
a cabeça.
Não posso ter de volta comigo a quem quero
e de quem sinto a falta, então deixo também de viver.
Sei de momentos felizes nos Natais
passados. Posso também lembrar outros distintos. Mas no presente é nas
recordações que encontro o calor de alguns abraços.
Sentir no vento, afagos,
Na chuva, toques dos dedos, não frios, mas
frescos.
Posso não ver quem caminha ao meu lado.
Pressentir que é
temporário, que está perto, quem parece insuportavelmente inalcançável.
Pé ante pé, talvez a adormecer, sentir que
está ali presente
Um momento assim seria Natal.
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domingo, outubro 27, 2019
Post 7238 - Filmes no cinema e na televisão
Anjo Perdido (Angel of Mine) de Kim Farrant (com Naomi Rapace, Yvonne Strahovski, Luke Evans)
Paradise Hills de Alice Waddington, com Eiza González, Emma ROberts, Danielle Macdonald, Milla Jovovich
Agora Estamos Sozinhos (I Think We're Alone Now) de Reed Morano, com Peter Dinklage, Elle Fanning, Charlotte Gainsburg

"Num futuro não muito distante, algo deixou o planeta devastado. Durante muito tempo Del (Peter Dinklage) julga-se o último representante da Humanidade. Habituado à solidão, ele quase se sente feliz com a tranquilidade dos dias. Até que, inesperadamente, o seu caminho se cruza com Grace (Elle Fanning). A partir desse momento toda a existência de Del, até aí tão calma e silenciosa, se altera..."
sexta-feira, outubro 25, 2019
Post 7237 - Desafio dos Pássaros 7 - Máscara de compota
A Constança precisava duma máscara capilar e veio ter comigo
porque sabia que eu andava a vender qualquer coisa.
Eu disse-lhe: “Constança, o meu patrão só quer que eu venda
compota de abóbora com amêndoa.
E ela respondeu-me: “Está bem”.
Foi o inicio de uma bela amizade porque clientes assim não
são fáceis de encontrar.
Ela perguntou-me o que achava de ela usar a compota de
abóbora com amêndoa como mascara capilar.
Lembrei-me da coca-cola que era para ser um xarope, e
disse-lhe para ir em frente.”
E ela foi.
Não resultou assim muito bem, o cabelo ficou um bocado pegajoso,
mas pelo menos cheirava muito bem a abóbora e a amêndoa.
Como agora somos amigas e já era hora, fomos almoçar juntas.
Não sei bem porquê mas apeteceu-nos às duas sopa de abóbora e tarte de amêndoa.
Contei-lhe do Desafio dos Pássaros e ela ficou muito
interessada, as duas vamos agora aguardar para ler o que foi escrito pelos
desafiados…
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Post 7236 - Desafio de Escrita 3/10 - O Mercedes amarelo
Abri a persiana e
procurei-o.
Tinha reparado nele, a primeira vez, por acaso. Como a rua do meu lado
estava cheia, fui estacionar o carro do outro lado e à frente. Pelo espelho
retrovisor vi então aquele mercedes antigo, amarelo e bem conservado, com o
emblema à frente orgulhosamente destacado.
Interroguei-me sobre a quem pertenceria. Naquela rua de prédios novos, a
maior parte dos vizinhos, se não todos, eram relativamente jovens, com pequenos
carros utilitários e preocupados com a hipoteca das casas. Não via nenhum deles
a comprar aquele carro, em vez dum Fiat ou dum Opel, que por ali abundavam.
Talvez em segunda mão. Ou uma herança.
Decidi nessa altura, quase subconscientemente, que ficaria atento, para
descobrir a quem pertencia. No entanto, os dias iam passando e o carro continuava
parado. À frente do prédio, via-o pela janela. Até que uma certa noite,
apercebi-me que traçando o paralelo com a fachada do prédio à frente, estava um
pouco mais de um metro à frente do sítio da noite anterior. Durante a noite
alguém devia estar a sair com o Mercedes. Regressava depois para o estacionar
no mesmo sítio ou próximo.
Nessa noite decidi deitar-me mais tarde e bebi um café.
Até à uma da manhã, nada. Apesar do café, comecei a sentir sono. Por uns
segundos, ou assim me pareceu, fechei os olhos. Foi então que escutei o barulho
do motor. Voei até à janela: uma mulher lindíssima estava ao volante…estremeci
e percebi que adormecera, mas ouvia de verdade o motor. Levantei-me e fui até à
janela.
Era o Mercedes, e estava a chegar. O
condutor saiu do carro. Era um homem careca e baixinho.
Reconheci-o. Era o empreiteiro, pai do vizinho do quarto andar. Nada
parecido com a deusa do meu sonho.
Alguns mistérios não devem ser desvendados…
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sexta-feira, outubro 18, 2019
Post 7234 - Desafio dos Pássaros 6 - O Amor, uma cabana e um frigorífico
A nossa primeira viagem
não foi bem o que estava à espera.
O Paulo vendeu-me tudo
como um sonho, os dois e uma choupana, no meio da natureza…que mais poderíamos
desejar?
Eu que andava meio
desconfiada que ele queria desviar os nossos subsídios de férias para o
televisor de ecrã panorâmico de não sei quantas polegadas, “assim vejo a bola
em casa, fofa”, e “está em promoção, é uma oportunidade única”, até fiquei
aliviada. Afinal sempre íamos ter férias. Burra. Mas que férias?!
Seguimos para lá no jipe
do avô dele, que não estava lá muito bem e não durou muito depois, o jipe,
claro.
Não havia dúvidas que
ficava no meio da natureza. Tão no meio que nunca mais chegávamos, era só árvores
e caminhos de terra e lama.
No final da tarde
avistámos a choupana, que não chegaria sequer ao patamar de uma cabana. Se não
fosse tão tarde e não estivesse tão cansada teria dito para darmos meia-volta e
desistirmos de ali ficar. Assim resolvi dar-lhe uma oportunidade. Entrámos e não
tinha electricidade, mas tinha um frigorífico. Pensei que funcionasse com bateria,
mas não, era mesmo para funcionar ligado a uma tomada que não existia. Assim
servia de armário para conservas. Mas para ser positiva estava tanto frio ali
que não precisávamos de frigorifico, bastaria colocar o que quiséssemos gelado
lá fora, na janela ou encostado à porta. E o Paulo não conseguiu ligar a
lareira. Disse que a madeira e os fósforos estavam húmidos. Deveríamos tê-los
guardado no frigorífico.
Comemos as sandes que tínhamos
levado e fomos dormir. Durante a noite, a escuridão pesava e não vi estrelas no céu. Assim que consegui
adormecer acordei em sobressalto. Alguém andava aos empurrões à porta. Não
fomos abrir para descobrirmos quem era e fizemos bem, porque de manhã algo
deixara marcas de garras na porta, talvez um urso.
Pelo menos com tanto frio
dormimos bem agarradinhos.
Nos anos seguintes passei
eu a tratar das férias e lá para casa arranjei um frigorífico parecido. Tinha
muita arrumação.
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