Natal
Num tempo em que o Natal não era o
que é hoje (embora o que é hoje não o seja para todos) o que reunia as famílias
à mesa era celebrar um nascimento.
No hoje, trocam-se prendas, enchem-se
as ceias com polvo ou bacalhau, aletria ou arroz doce, filhoses e rabanadas, os
dias mais curtos são iluminados pelas decorações nas casas e nas ruas, corre-se
antes e depois, nas preparações, trocas e promoções.
Para as crianças mais pequenas o Natal
deveria chegar com calor, comida e presentes, mesmo às casas sem chaminé onde
um Pai Natal não caberia, e para elas deveria haver sempre alguém que fosse
casa.
E no fundo todos sabemos que o
importante é estar com aqueles de quem gostamos.
Era noite de Natal e estavam já
mais do lado de lá do que de cá - Pais, marido, um dos filhos, as suas amigas
de infância - restava a filha preterida e a filha desta, as duas fechadas e caladas.
No final de contas eram três mulheres
solitárias, em três idades da vida, a encontrarem-se numa casa velha pelo peso
de uma tradição vazia ou por não terem encontrado uma alternativa.
Havia comida, prendas em dinheiro
para a neta, nada de decorações, que ali não havia crianças, e para ela, o peso
da assombração da memórias de natais passados, a falta e a saudade daqueles que
lhe morreram.
A filha começou a falar dos planos que
tinha para a empresa. A neta mergulhada no telemóvel, consolava-se com a ideia
do que iria passar o dia 25 com o pai e a nova madrasta e poderia depois era
estar com os amigos em planos para a passagem do ano.
A voz monocórdica da filha e a
pouca luz da sala começaram a ensoná-la.
Não queria dar parte de fraca e esforçava-se
por permanecer acordada quando um relâmpago e um estrondo do lado da lareira a
despertaram. À frente delas abria-se um portal.
Soube com uma certeza inexplicável
que podiam passar para o outro lado.
Apesar de mais ágil e aventureira
recuou a neta agarrada às suas perspetivas -
na passagem do ano ia finalmente assumir a relação com o Flávio, o outro
lado nebuloso e desconhecido nada lhe prometia.
A filha cética e ocupada com os
negócios queria era fechar aquele buraco estranho que não compreendia.
Só ela, com o vagar que as suas articulações
lhe permitiam, se levantou na poltrona onde quase dormitara e avançou na
direção da lareira.
O portal aumentara para as
dimensões de uma porta, do lado de lá ondulavam cores, mas nada de nítido se via
ou percebia. Talvez fosse a sua morte, talvez reencontrasse os pais, ou a si
numa outra idade, ou se tratasse de um outro mundo.
Ainda conseguiu dar três passos
quando sentiu que a filha e a neta a agarravam. Queria que a largassem, ouviu
as suas vozes alarmadas, “mãe” e “avó”, chamavam por ela. Não queriam que atravessasse
para o outro lado, não queriam perdê-la. E não era para a contrariarem, mas por
gostarem dela.
Conseguiram trazê-la de volta para
o sofá, viu que portal se encerrava e desaparecia,
cansada pelo esforço, quase luta que perdera, fechou os olhos por instantes.
Quando voltou a abri-los, voltara a
filha a falar da empresa e a neta a mergulhar no telemóvel. Representavam que
nada se passara. Ainda meio dececionada resolveu desculpá-las porque afinal tinham agido por amor e era Natal.
E
A
Loja dos Natais Esquecidos
Naquela rua estreita, onde as lojas fechavam cada vez mais cedo e os vizinhos quase já não se cumprimentavam, existia uma pequena loja de antiguidades que parecia ter ficado esquecida no tempo.
Chamava-se
«O Tempo das Coisas» e pertencia a Gabriel, um homem de sessenta anos que
afirmava não vender objectos, mas histórias. Tinha relógios que já não marcavam
as horas, molduras ornamentadas sem fotografias, bonecas de porcelana, brinquedos
de corda e caixas de madeira cujo conteúdo ninguém conhecia.
Na
véspera de Natal, tinha já fechado a loja, quando ouviu três pancadas na porta.
Do
lado de fora não estava ninguém. Apenas uma pequena caixa de madeira, pousada
no degrau da entrada, coberta por uma fina camada de neve. Gabriel olhou para a
rua. Não se lembrava de alguma vez ter nevado naquela cidade.
Pegou
na caixa e levou-a para o balcão. Não tinha fechadura, nem inscrição, nem
qualquer sinal de quem a pudesse ter deixado. Quando levantou a tampa,
encontrou uma pequena chave dourada e um cartão onde se lia:
«Para
aquele que ainda acredita que o tempo pode ser visitado.»
Gabriel
ficou só um pouco surpreendido - quando do trespasse da loja o anterior dono,
um senhor de idade com um ar distinto e misterioso, dissera-lhe que a chave
iria aparecer quando não contasse com ela.
Dirigiu-se
à parede do fundo, afastou uma velha tapeçaria e revelou uma porta que ninguém,
nem mesmo os clientes mais antigos, alguma vez tinha visto.
Não
ligara à falta da chave porque a porta ali não fazia sentido – dava para a
parede de separação de outro prédio, uma barbearia antiga onde já entrara para confirmar que daquele
lado não havia porta alguma.
Introduziu a chave na fechadura. Ouviu-se um
estalido, seguido de um ruído profundo, semelhante ao de um comboio a
atravessar um túnel.
Quando
abriu a porta, a loja desapareceu.
Do
outro lado estendia-se uma praça iluminada por milhares de lanternas. As casas
tinham telhados cobertos de neve, as janelas brilhavam com luz de velas e, ao
longe, uma enorme árvore de Natal parecia tocar as estrelas. Havia música,
gargalhadas e o cheiro inconfundível de bolos acabados de cozer.
Gabriel
passou pela porta.
Não
era apenas outro lugar. Era outro tempo.
No
centro da praça estava um relógio gigantesco, cujos ponteiros giravam em todas
as direções. Por baixo, uma inscrição explicava: «Aqui, todos os Natais existem
ao mesmo tempo. Basta saber qual procurar.»
Naquele
mundo encontravam-se os Natais que tinham desaparecido da memória das pessoas:
o Natal de uma família que nunca mais voltou a reunir-se, o de um homem que
perdera a capacidade de sonhar, o de uma mulher que nunca chegara a conhecer a
mãe e até o de alguém que passara a vida inteira convencido de que não gostava
do Natal.
Cada
porta que se abria na praça conduzia a uma recordação diferente.
Gabriel
caminhou até encontrar uma pequena casa com uma janela iluminada. Lá dentro
estava uma criança sentada junto à lareira, a desembrulhar um presente.
Reconheceu imediatamente o rapaz: era ele próprio, com dez anos, no último
Natal que passara com os pais.
Ficou
a observá-lo durante muito tempo. Lembrava-se daquele dia, mas tinha esquecido
o som da voz do pai, o riso da mãe e a sensação de segurança que sentia quando
os três estavam juntos.
Uma
mulher aproximou-se dele e tinha o vestido de flores que ele quase esquecera e os
olhos que ele procurara em tantas fotografias antigas.
—
Demoraste a chegar, meu filho — disse ela.
Gabriel
não conseguiu responder.
Abraçaram-se.
Não houve perguntas sobre os anos passados, nem explicações sobre a estranha
viagem. Apenas aquele abraço que a vida lhe tinha negado durante tanto tempo.
—
Posso ficar? — perguntou ele.
A
mãe acariciou-lhe o rosto.
—
Podes voltar sempre que quiseres. Mas não te esqueças de que o teu tempo ainda
não terminou.
Quando
regressou à loja, o relógio da parede marcava exactamente a mesma hora de
quando saíra. Sobre o balcão estava a pequena caixa de madeira, agora vazia.
Gabriel
sentou-se na sua velha cadeira. Pela primeira vez em muitos anos, não se sentia
sozinho.
Na
manhã de Natal, encontrou à porta um envelope sem remetente. Dentro havia uma
fotografia da praça iluminada e uma frase escrita numa letra desconhecida:
«Os
lugares mágicos não desaparecem. Esperam apenas que alguém se lembre deles.»
A
partir desse dia, nunca mais fechou a loja na véspera de Natal.
E,
curiosamente, nesse dia, começou a receber visitas de pessoas que não
procuravam antiguidades, relógios ou brinquedos antigos. Procuravam qualquer
coisa que tinham perdido, mesmo sem saberem exactamente o quê.
Gabriel
nunca lhes explicava o segredo da loja. Limitava-se a perguntar:
—
Se pudesse visitar um Natal da sua vida, qual escolheria?
Depois,
acendia a pequena lanterna, abria a porta do fundo e deixava que o tempo
fizesse o resto.
Porque,
naquela loja, os objectos não envelheciam, os Natais não acabavam e até o
impossível tinha uma morada.
E
talvez fosse o único lugar do mundo onde o passado oferecia presentes.
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