sexta-feira, outubro 30, 2026

Dois Mini-contos para tentar participar em Coletânea de Natal

 


Natal

 

Num tempo em que o Natal não era o que é hoje (embora o que é hoje não o seja para todos) o que reunia as famílias à mesa era celebrar um nascimento.

No hoje, trocam-se prendas, enchem-se as ceias com polvo ou bacalhau, aletria ou arroz doce, filhoses e rabanadas, os dias mais curtos são iluminados pelas decorações nas casas e nas ruas, corre-se antes e depois, nas preparações, trocas e promoções.

Para as crianças mais pequenas o Natal deveria chegar com calor, comida e presentes, mesmo às casas sem chaminé onde um Pai Natal não caberia, e para elas deveria haver sempre alguém que fosse casa.

E no fundo todos sabemos que o importante é estar com aqueles de quem gostamos.

 

Era noite de Natal e estavam já mais do lado de lá do que de cá - Pais, marido, um dos filhos, as suas amigas de infância - restava a filha preterida e a filha desta, as duas fechadas e caladas.

No final de contas eram três mulheres solitárias, em três idades da vida, a encontrarem-se numa casa velha pelo peso de uma tradição vazia ou por não terem encontrado uma alternativa.

Havia comida, prendas em dinheiro para a neta, nada de decorações, que ali não havia crianças, e para ela, o peso da assombração da memórias de natais passados, a falta e a saudade daqueles que lhe morreram.

A filha começou a falar dos planos que tinha para a empresa. A neta mergulhada no telemóvel, consolava-se com a ideia do que iria passar o dia 25 com o pai e a nova madrasta e poderia depois era estar com os amigos em planos para a passagem do ano.

A voz monocórdica da filha e a pouca luz da sala começaram a ensoná-la.

Não queria dar parte de fraca e esforçava-se por permanecer acordada quando um relâmpago e um estrondo do lado da lareira a despertaram. À frente delas abria-se um portal.

Soube com uma certeza inexplicável que podiam passar para o outro lado.

Apesar de mais ágil e aventureira recuou a neta agarrada às suas perspetivas -  na passagem do ano ia finalmente assumir a relação com o Flávio, o outro lado nebuloso e desconhecido nada lhe prometia.

A filha cética e ocupada com os negócios queria era fechar aquele buraco estranho que não compreendia.

Só ela, com o vagar que as suas articulações lhe permitiam, se levantou na poltrona onde quase dormitara e avançou na direção da lareira.

O portal aumentara para as dimensões de uma porta, do lado de lá ondulavam cores, mas nada de nítido se via ou percebia. Talvez fosse a sua morte, talvez reencontrasse os pais, ou a si numa outra idade, ou se tratasse de um outro mundo.

Ainda conseguiu dar três passos quando sentiu que a filha e a neta a agarravam. Queria que a largassem, ouviu as suas vozes alarmadas, “mãe” e “avó”, chamavam por ela. Não queriam que atravessasse para o outro lado, não queriam perdê-la. E não era para a contrariarem, mas por gostarem dela.

Conseguiram trazê-la de volta para o sofá, viu que  portal se encerrava e desaparecia, cansada pelo esforço, quase luta que perdera, fechou os olhos por instantes.

Quando voltou a abri-los, voltara a filha a falar da empresa e a neta a mergulhar no telemóvel. Representavam que nada se passara. Ainda meio dececionada resolveu desculpá-las porque  afinal tinham agido por amor e era Natal.


E


A Loja dos Natais Esquecidos

 


Naquela rua estreita, onde as lojas fechavam cada vez mais cedo e os vizinhos quase já não se cumprimentavam, existia uma pequena loja de antiguidades que parecia ter ficado esquecida no tempo.

Chamava-se «O Tempo das Coisas» e pertencia a Gabriel, um homem de sessenta anos que afirmava não vender objectos, mas histórias. Tinha relógios que já não marcavam as horas, molduras ornamentadas sem fotografias, bonecas de porcelana, brinquedos de corda e caixas de madeira cujo conteúdo ninguém conhecia.

Na véspera de Natal, tinha já fechado a loja, quando ouviu três pancadas na porta.

Do lado de fora não estava ninguém. Apenas uma pequena caixa de madeira, pousada no degrau da entrada, coberta por uma fina camada de neve. Gabriel olhou para a rua. Não se lembrava de alguma vez ter nevado naquela cidade.

Pegou na caixa e levou-a para o balcão. Não tinha fechadura, nem inscrição, nem qualquer sinal de quem a pudesse ter deixado. Quando levantou a tampa, encontrou uma pequena chave dourada e um cartão onde se lia:

«Para aquele que ainda acredita que o tempo pode ser visitado.»

Gabriel ficou só um pouco surpreendido - quando do trespasse da loja o anterior dono, um senhor de idade com um ar distinto e misterioso, dissera-lhe que a chave iria aparecer quando não contasse com ela.

Dirigiu-se à parede do fundo, afastou uma velha tapeçaria e revelou uma porta que ninguém, nem mesmo os clientes mais antigos, alguma vez tinha visto.

Não ligara à falta da chave porque a porta ali não fazia sentido – dava para a parede de separação de outro prédio, uma barbearia  antiga onde já entrara para confirmar que daquele lado não havia porta alguma.

 Introduziu a chave na fechadura. Ouviu-se um estalido, seguido de um ruído profundo, semelhante ao de um comboio a atravessar um túnel.

Quando abriu a porta, a loja desapareceu.

Do outro lado estendia-se uma praça iluminada por milhares de lanternas. As casas tinham telhados cobertos de neve, as janelas brilhavam com luz de velas e, ao longe, uma enorme árvore de Natal parecia tocar as estrelas. Havia música, gargalhadas e o cheiro inconfundível de bolos acabados de cozer.

Gabriel passou pela porta.

Não era apenas outro lugar. Era outro tempo.

No centro da praça estava um relógio gigantesco, cujos ponteiros giravam em todas as direções. Por baixo, uma inscrição explicava: «Aqui, todos os Natais existem ao mesmo tempo. Basta saber qual procurar.»

Naquele mundo encontravam-se os Natais que tinham desaparecido da memória das pessoas: o Natal de uma família que nunca mais voltou a reunir-se, o de um homem que perdera a capacidade de sonhar, o de uma mulher que nunca chegara a conhecer a mãe e até o de alguém que passara a vida inteira convencido de que não gostava do Natal.

Cada porta que se abria na praça conduzia a uma recordação diferente.

Gabriel caminhou até encontrar uma pequena casa com uma janela iluminada. Lá dentro estava uma criança sentada junto à lareira, a desembrulhar um presente. Reconheceu imediatamente o rapaz: era ele próprio, com dez anos, no último Natal que passara com os pais.

Ficou a observá-lo durante muito tempo. Lembrava-se daquele dia, mas tinha esquecido o som da voz do pai, o riso da mãe e a sensação de segurança que sentia quando os três estavam juntos.

Uma mulher aproximou-se dele e tinha o vestido de flores que ele quase esquecera e os olhos que ele procurara em tantas fotografias antigas.

— Demoraste a chegar, meu filho — disse ela.

Gabriel não conseguiu responder.

Abraçaram-se. Não houve perguntas sobre os anos passados, nem explicações sobre a estranha viagem. Apenas aquele abraço que a vida lhe tinha negado durante tanto tempo.

— Posso ficar? — perguntou ele.

A mãe acariciou-lhe o rosto.

— Podes voltar sempre que quiseres. Mas não te esqueças de que o teu tempo ainda não terminou.

Quando regressou à loja, o relógio da parede marcava exactamente a mesma hora de quando saíra. Sobre o balcão estava a pequena caixa de madeira, agora vazia.

Gabriel sentou-se na sua velha cadeira. Pela primeira vez em muitos anos, não se sentia sozinho.

Na manhã de Natal, encontrou à porta um envelope sem remetente. Dentro havia uma fotografia da praça iluminada e uma frase escrita numa letra desconhecida:

«Os lugares mágicos não desaparecem. Esperam apenas que alguém se lembre deles.»

A partir desse dia, nunca mais fechou a loja na véspera de Natal.

E, curiosamente, nesse dia, começou a receber visitas de pessoas que não procuravam antiguidades, relógios ou brinquedos antigos. Procuravam qualquer coisa que tinham perdido, mesmo sem saberem exactamente o quê.

Gabriel nunca lhes explicava o segredo da loja. Limitava-se a perguntar:

— Se pudesse visitar um Natal da sua vida, qual escolheria?

Depois, acendia a pequena lanterna, abria a porta do fundo e deixava que o tempo fizesse o resto.

Porque, naquela loja, os objectos não envelheciam, os Natais não acabavam e até o impossível tinha uma morada.

E talvez fosse o único lugar do mundo onde o passado oferecia presentes.

 

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