O relógio
ficou esquecido no degrau de pedra à entrada da igreja, como um pequeno erro
num dia que devia ser perfeito. Antigo, de bolso, com a corrente solta e o
vidro marcado pelo tempo, tinha parado às 10:11 — a hora em que tudo deixou de
ser o que era suposto.
Dizem que
foi o noivo quem o deixou cair. Ou talvez o tenha largado sem perceber, quando
o murmúrio começou a crescer dentro da igreja, como vento antes da tempestade.
A noiva
entrou vestida de negro.
Não de
branco, como mandava a tradição, mas de negro profundo, como se levasse o luto
de algo que ainda ninguém entendia. O tecido arrastava-se pelo chão em
silêncio, e cada passo parecia apagar uma expectativa. Não havia flores no
cabelo. Não havia sorriso. Apenas uma calma estranha, quase luminosa.
O relógio
parou nesse instante.
Ninguém
soube o que aconteceu depois com clareza. Uns dizem que ela chegou ao altar e
nada disse. Outros juram que sorriu — um sorriso breve, indecifrável — antes de
se virar e sair, deixando tudo suspenso no ar, como uma frase interrompida.
O noivo não
a seguiu.
Ficou
imóvel, como o relógio.
Desde então,
o objeto permanece ali, à entrada, como um vestígio desse momento que ninguém
consegue terminar de contar. Durante o dia, é só um relógio esquecido. Mas à
noite, quando a igreja respira o silêncio, há quem diga que ele ainda guarda
aquele instante.
Se alguém o
abrir, talvez veja um véu escuro a atravessar a luz.
Ou talvez
sinta apenas isto: nem todos os começos pedem branco.
E há
promessas que só existem quando não se cumprem.
Bemmmm...!
ResponderEliminarEspetacular!
E, sim. Há promessas assim.
Promessas por cumprir é o que mais há! 😀
ResponderEliminarNarrativa muito expectante.
Afinal havia outra ou outro?
Abraço