Havia um vidro partido na porta da entrada. Poderia alguém
passar um braço, chegar à fechadura se estivesse só no trinco ou lá estivesse a
chave, rodá-la e abrir a porta.
Não se viam restos do vidro no chão.
Teriam caído para dentro ou alguém os varrera, talvez
até a chuva e o vento.
A casa era velha, com ar de abandonada.
Não seria mais lar de ninguém.
A última vez que ali estivera fora há muitos anos,
tantos que já nem se reconhecia na pessoa que então fora. Mudara mais do que a
casa. Aquele adolescente era para ele agora um desconhecido. Talvez tivesse
alguma saudade da intensidade com que então vivia, dos momentos de
deslumbramento, mas não dos de devastação.
se
partisse o vidro das janelas da tua casa repararias em mim?
sentirias
medo ou raiva?
chamarias
a polícia?
Julgar-me-ias
um ladrão ou um louco?
ver-me-ias,
não te seria mais invisível e indiferente
Aos quinze anos a paixão pela Laura (ou obsessão como
lhe disseram) fê-lo entrar noutra realidade. Rondava a casa dela, aquela casa,
noite e dia. Queria vê-la. Sabia que se ela lhe desse uma oportunidade iria
perceber como estavam destinados um ao outro. Começou a faltar às aulas, não vinha
para casa ou saía de noite. Não conseguia explicar-se. Ninguém o entendia.
Houve um incidente ali. Terá sido então que partiu o vidro?
Os pais internaram-no e quando teve alta foram morar noutra
cidade. Medicado era-lhe mais fácil funcionar como os outros queriam.
Mais de vinte anos depois o que será feito da Laura?
Talvez na casa encontrasse uma pista. Voltaria noutro
dia, quando não dessem pela sua falta, num dos passeios permitidos.
Gostei de ler . Sempre com uma imaginação incrível.
ResponderEliminarAbraço e saúde
Obrigada Elvira, um abraço e muita saúde
EliminarIncrívelmente bom tudo o que escreves...e o suspense ficou no ar! Muito bom.
ResponderEliminarBeijos e um bom dia
Obrigada Fatyly, um beijinho e bom Domingo
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