quinta-feira, outubro 20, 2022

CNEC 62/34 - 2/10 - O que será feito da Laura

 

 

Havia um vidro partido na porta da entrada. Poderia alguém passar um braço, chegar à fechadura se estivesse só no trinco ou lá estivesse a chave, rodá-la e abrir a porta.

Não se viam restos do vidro no chão.

Teriam caído para dentro ou alguém os varrera, talvez até a chuva e o vento.

A casa era velha, com ar de abandonada.

Não seria mais lar de ninguém.

A última vez que ali estivera fora há muitos anos, tantos que já nem se reconhecia na pessoa que então fora. Mudara mais do que a casa. Aquele adolescente era para ele agora um desconhecido. Talvez tivesse alguma saudade da intensidade com que então vivia, dos momentos de deslumbramento, mas não dos de devastação.

 

se partisse o vidro das janelas da tua casa repararias em mim?

sentirias medo ou raiva?

chamarias a polícia?

Julgar-me-ias um ladrão ou um louco?

ver-me-ias, não te seria mais invisível e indiferente

 

Aos quinze anos a paixão pela Laura (ou obsessão como lhe disseram) fê-lo entrar noutra realidade. Rondava a casa dela, aquela casa, noite e dia. Queria vê-la. Sabia que se ela lhe desse uma oportunidade iria perceber como estavam destinados um ao outro. Começou a faltar às aulas, não vinha para casa ou saía de noite. Não conseguia explicar-se. Ninguém o entendia. Houve um incidente ali. Terá sido então que partiu o vidro?

Os pais internaram-no e quando teve alta foram morar noutra cidade. Medicado era-lhe mais fácil funcionar como os outros queriam.

Mais de vinte anos depois o que será feito da Laura?

Talvez na casa encontrasse uma pista. Voltaria noutro dia, quando não dessem pela sua falta, num dos passeios permitidos.

 

 

4 comentários:

  1. Gostei de ler . Sempre com uma imaginação incrível.
    Abraço e saúde

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  2. Incrívelmente bom tudo o que escreves...e o suspense ficou no ar! Muito bom.
    Beijos e um bom dia

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