quinta-feira, abril 07, 2022

CNEC 31/59 - 8/10 - Bety

 

   

Quando lhe deram a Bety, primeiro não acreditou que pudesse ser mesmo para ela. Era a coisinha mais linda, rosa e quente. Deu-lhe de comer, aconchegou-a. A Bety passou a segui-la por todo o lado. Ensinou-a a ficar, sentar-se, deitar-se.

Os pais riam-se, “mas pensas que é um cão?” A Bety era muito mais que um cão, era a sua melhor amiga. Confiava-lhe os seus problemas. Ela sentia quando estava triste e ouvia-a. Quando estava alegre, brincavam as duas. Podia ser uma porquinha, mas só de nome, era tão limpa quanto ela, gostava de tomar banho.

Às vezes na quinta passavam perto da família da Bety, ela não os conhecia, também não a reconheciam. Estavam confinados, cheiravam mal.

Começou a preocupar-se quando viu como a Bety crescia. Parecia-se com os seus primos e tios no chiqueiro, se não fosse pelos olhos que a compreendiam. Os pais já não riam quando as viam juntas, era com um ar severo que lhe diziam “essa porca não é um cão!”. A própria Bety apercebera-se frieza dos pais, parecia andar com medo. Já não cabia nos sítios por onde antes passava e se calhava derrubar alguma coisa, assumia ela a culpa, preferia que os pais se zangassem com ela. Chegou uma noite, na lua minguante, em que acordou sem saber porquê e foi buscar água. Passou pelo quarto dos pais e calhou ouvi‑los falar. O pai disse “um destes dias tenho que matar a porca”, e respondeu-lhe a mãe “aproveita quando a miúda não estiver em casa, assim custa-lhe menos e logo lhe passa”. Voltou para a cama em pânico. Tinha de salvar a Bety, tinham de fugir

E fugiram as duas.

Andaram perdidas quase um dia.

No regresso a mãe aliviada decidiu: ninguém mata a Bety.

Bety viveu com eles até morrer.

6 comentários:

  1. Não como coelho nem cabrito.
    Porque, como a Bety, os criei.
    E apareceram no meio da mesa.
    NUNCA MAIS!!!
    Beijinho

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  2. Um conto encantador e recuei até aos meus 5/6 anos com uma cabritinha bebé que me deram e morreu de velha porque os meus pais nunca puseram a ideia de a abater. Cresceu com dois cães que tínhamos e ladrava como eles algo nunca visto.
    Beijos e um bom dia

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  3. Bom dia Gabi.
    Um conto que é uma ternura.
    Muito bonita a amizade que se manifesta e cresce quando o carinho e o respeito acontece.
    Beijinhos (1 abraço ao Paulo)

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  4. Gostei da ternura inserta no conto. Os meus pais criavam coelhos e depois matavam-nos para serem cozinhados. Eu como de tudo sem restrições de nada que seja comestível.
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    Cumprimentos poéticos
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    Pensamentos e Devaneios Poéticos
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  5. Belo conto!
    Por enquanto só como carne de frango e de peru...talvez acabe por deixar de comer carne.

    Abraço

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  6. Que maravilha de conto.
    Gostei tanto tanto.
    A Bety,, teve muita sorte.
    brisas doces **

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