quinta-feira, fevereiro 10, 2022

CNEC 58/30 - 10/10 - Abriu a garrafa e

 

Abriu a garrafa e encheu os dois copos. Levou-os até à mesa onde Dawn esperava. Sentou-se à sua frente, empurrou o segundo copo para o lado dela e bebeu do seu, enquanto a olhava. Pensara primeiro que ela estava igual. Agora via as marcas do tempo no cabelo mais ralo, nas rugas finas que lhe contornavam os olhos e a boca. Ela também envelhecera.

Quando ela lhe aparecera há pouco, não dissera nada. Abriu-lhe a porta, ela entrou e sentou-se.

Sem a interpelar foi buscar as bebidas.

Houve uma altura em que a iria inundar em perguntas, para onde fora, porque não voltara, com quem estivera, porque partira, porque nem sequer se despedira dele, será que ele não lhe importava?

Agora apenas lhe ocorria vagamente interpela-la sobre porque voltara.

Sem pressa foi ela a romper o silêncio que começara a pesar nele.

- Porque me deixaste ir?

Típico. Ela não mudara. Virara tudo para o culpar a ele. Desta vez não ia resultar. Não lhe iria responder

- Porque não me procuraste?

Não se conteve:

- Foste tu que decidiste partir!

Ela não lhe respondeu e ele continuou:

- Porque voltaste?

Num tom de voz muito baixo, quase um murmúrio que mesmo assim escutou, ela respondeu-lhe “preciso de ti”.

Essas três palavras quase imperceptíveis abalaram-no mais do que qualquer grito.

Não ia ignorá-la ou rejeitá-la. Como lhe abrira a porta e a deixara entrar, mesmo tendo passado tanto tempo, e tendo-a detestado e maldito na sua ausência, em cada um dos dias, meses e anos que tinham passado, abrira-lhe a porta, deixara-a entrar, assim que a vira. Sabia que sempre o faria.

De novo a sua vida seria como uma montanha russa.

Com intensidade, voltava a sentir-se vivo.

1 comentário:

  1. Ambos envelheceram e ambos precisavam um do outro o que é muito complicado. Gostei!

    Beijos e um bom fim de semana

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