quinta-feira, abril 06, 2023

CNEC 64/35 - 1/10 Algures

 

Algures

 

Seguiam pela estrada secundária com as janelas do carro abertas. Calor e cheiro a estevas, vegetação rasteiras e oliveiras, quilómetros e quilómetros, sem verem ninguém, sem se cruzarem com outro veículo.

Viram o letreiro a anunciar uma vila à direita e ela disse-lhe “vira aqui”.

Fê-lo. Avistaram uma ou duas casas, passaram por elas pouco antes de chegar ao povoado. Casas antigas, muitas vazias, e ruas estreitas. Parou onde pôde e saíram para desentorpecer as pernas.

Ainda estava demasiado calor para que quem lá vivia deixasse o refúgio de casa.

Havia um pequeno café e dirigiram-se para lá. A porta estava aberta e tiveram apenas de afastar a cortina de contas coloridas para entrarem. O calor também pesava ali e as três mesas estavam vazias. Pediram cafés e conversaram sem pressa.

Ao saírem para a rua reparou que junto à porta se encontrava um brinquedo, um pequeno Pinóquio de madeira. Pegou nele, tinha sido esculpido à mão e era perfeito.

Era já mais tarde e o sol deixara de ser abrasador. Uma senhora viu-o pegar no brinquedo e respondeu à pergunta que ele queria colocar ´É o tio Zé que os faz, olhe este fê-lo para o meu neto” mostrou-lhe um burrinho que tirou do avental.

Débora queria ir embora, mas ele quis ir conhecer o tio Zé. Seguiu sozinho até à casa que lhe apontaram e não havia que enganar. Um senhor de idade sentado à soleira da porta esculpia um cãozinho. Sentou-se ao seu lado, aguardou que suspendesse a sua obra para lhe mostrar o Pinóquio. “Esse também o fiz”.

“Posso guardá-lo?” O tio Zé encolheu os ombros e ele interpretou-o como assentimento.

Levou o Pinóquio consigo e ainda o tem algures.

Anos mais tarde pensou em regressar àquela vila, mas esquecera o caminho e o nome.

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