Algures
Seguiam pela estrada secundária com as janelas do
carro abertas. Calor e cheiro a estevas, vegetação rasteiras e oliveiras,
quilómetros e quilómetros, sem verem ninguém, sem se cruzarem com outro
veículo.
Viram o letreiro a anunciar uma vila à direita e ela
disse-lhe “vira aqui”.
Fê-lo. Avistaram uma ou duas casas, passaram por elas
pouco antes de chegar ao povoado. Casas antigas, muitas vazias, e ruas
estreitas. Parou onde pôde e saíram para desentorpecer as pernas.
Ainda estava demasiado calor para que quem lá vivia
deixasse o refúgio de casa.
Havia um pequeno café e dirigiram-se para lá. A porta
estava aberta e tiveram apenas de afastar a cortina de contas coloridas para
entrarem. O calor também pesava ali e as três mesas estavam vazias. Pediram
cafés e conversaram sem pressa.
Ao saírem para a rua reparou que junto à porta se
encontrava um brinquedo, um pequeno Pinóquio de madeira. Pegou nele, tinha sido
esculpido à mão e era perfeito.
Era já mais tarde e o sol deixara de ser abrasador.
Uma senhora viu-o pegar no brinquedo e respondeu à pergunta que ele queria
colocar ´É o tio Zé que os faz, olhe este fê-lo para o meu neto” mostrou-lhe um
burrinho que tirou do avental.
Débora queria ir embora, mas ele quis ir conhecer o
tio Zé. Seguiu sozinho até à casa que lhe apontaram e não havia que enganar. Um
senhor de idade sentado à soleira da porta esculpia um cãozinho. Sentou-se ao
seu lado, aguardou que suspendesse a sua obra para lhe mostrar o Pinóquio. “Esse
também o fiz”.
“Posso guardá-lo?” O tio Zé encolheu os ombros e ele
interpretou-o como assentimento.
Levou o Pinóquio consigo e ainda o tem algures.
Anos mais tarde pensou em regressar àquela vila, mas
esquecera o caminho e o nome.
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