quinta-feira, abril 13, 2023

A nova casa - CNEC 64/36 - 2/10

  

A nova casa parecia ficar longe de tudo, perdida numa rua desconhecida, entre prédios iguais e cinzentos.

Para ir até à casa dos seus pais onde antes moravam, e onde ela crescera, teria de apanhar dois autocarros. Ficavam assim também longe os amigos e vizinhos conhecidos de sempre.

Nas suas memórias mais queridas de criança tinha as idas com a mãe às compras. Dava-lhe a mão, e nem atentava por onde seguiam. Sentia os cheiros de arbustos e flores dos quintais, da fruta na mercearia, de plásticos e detergentes na drogaria, do peixe, na peixaria, onde a mãe parava às vezes a conversar.

Quando casara ficaram a morar nuns anexos. Quando lhes nasceu o Filipe pensou que também o filho iria crescer ali.

Depois, o Jorge foi promovido. Comprou um carro. Uma revolução naquela rua, onde não havia muito espaço para estacionar. Quase de seguida mais uma novidade, arrendara uma casa, um espaço só para eles, e com garagem.

Não era bem nova a casa onde agora estavam, mas tinha dois quartos, um para eles e outro para o Filipe. Pela janela da sala via a rua larga e movimentada. Ali não se escutavam os pássaros ou os galos dos quintais de vizinhos. De manhã à noite sobrepunha-se o ruído dos carros a passarem, carros como o do Jorge.

O Filipe também não parecia muito contente com a mudança. Ela tentou alegrá-lo, falando-lhe da nova escola, dos novos amigos que iria fazer.  Quando lhe falou nisso ele pareceu foi lembrar os amigos que deixava para trás.

Tudo parecia sombrio quando foram lanchar. Já desencaixotara a louça e na mesa tinha o Filipe a sua chávena do mickey. Ele viu-a e agarrou-se a ela. Familiar e colorida fê-lo sorrir.

Estavam juntos e afinal não ficava assim tão longe a casa antiga.

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