A nova casa parecia ficar
longe de tudo, perdida numa rua desconhecida, entre prédios iguais e cinzentos.
Para ir até à casa dos
seus pais onde antes moravam, e onde ela crescera, teria de apanhar dois autocarros.
Ficavam assim também longe os amigos e vizinhos conhecidos de sempre.
Nas suas memórias mais
queridas de criança tinha as idas com a mãe às compras. Dava-lhe a mão, e nem
atentava por onde seguiam. Sentia os cheiros de arbustos e flores dos quintais,
da fruta na mercearia, de plásticos e detergentes na drogaria, do peixe, na
peixaria, onde a mãe parava às vezes a conversar.
Quando casara ficaram a
morar nuns anexos. Quando lhes nasceu o Filipe pensou que também o filho iria
crescer ali.
Depois, o Jorge foi
promovido. Comprou um carro. Uma revolução naquela rua, onde não havia muito
espaço para estacionar. Quase de seguida mais uma novidade, arrendara uma casa,
um espaço só para eles, e com garagem.
Não era bem nova a casa
onde agora estavam, mas tinha dois quartos, um para eles e outro para o Filipe.
Pela janela da sala via a rua larga e movimentada. Ali não se escutavam os pássaros
ou os galos dos quintais de vizinhos. De manhã à noite sobrepunha-se o ruído
dos carros a passarem, carros como o do Jorge.
O Filipe também não
parecia muito contente com a mudança. Ela tentou alegrá-lo, falando-lhe da nova
escola, dos novos amigos que iria fazer.
Quando lhe falou nisso ele pareceu foi lembrar os amigos que deixava
para trás.
Tudo parecia sombrio
quando foram lanchar. Já desencaixotara a louça e na mesa tinha o Filipe a sua
chávena do mickey. Ele viu-a e agarrou-se a ela. Familiar e colorida fê-lo
sorrir.
Estavam juntos e afinal não
ficava assim tão longe a casa antiga.
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