quarta-feira, outubro 26, 2022

CNEC 62/34 - 3/10 Amor

 Enquanto crescia sempre nela perdurava aquela preocupação

Mãe, eu vou ser amada quando crescer?

Mãe, como vai ser?

Talvez porque com ela nascera tudo tão errado. Desde a ligeira paralisia infantil até ao abandono. Terá sido por isso que não a quiseram? Gostava de imaginar que simplesmente a tinham perdido e a procuravam ainda.

Cresceu em instituições onde os funcionários cumpriam turnos de corações fechados. Inventou uma mãe. Via-a na mancha do tecto parecida com a figura de Nossa Senhora. Via-a nas noites mais escuras quando fechava os olhos. Via-a quando estava sozinha e às vezes falava com ela:

Mãe, eu vou ser amada quando crescer?

Cresceu sozinha, às vezes vítima de bullying quando a palavra ainda não existia, não se falava nisso, seguia-se em frente. Seguiu em frente, cada vez mais fechada e pequena.

E só.

Foi enterrando os sonhos bem fundo para sobreviver enquanto os anos passavam.

 

Não foi um dia especial aquele em que o conheceu.

Não ouviu pássaros ou viu estrelas. Nem reparou nessa altura que ele sorrira e o sorriso era para ela.

Via-se velha e num momento explodiu nela a vida porque se apaixonou e era recíproco.

Todos os seus sonhos voltaram “Mãe, sou amada”

Entregou-se completamente a esse amor que a preenchia, sem vergonha descobriu-se e decorou o corpo dele e a sua alma.

Viu-se feliz e grata, não mais a estranha, mas igual a todos e abençoada.

Nem saber pouco depois que uma doença a devorava lhe tirou o deslumbramento.

Que estranha ironia ir morrer quando nunca tanto tinha querido viver.

O seu amor era luz e calor, podia até consumir o seu corpo, que mil vezes o escolheria.

Morria porque o amava, morria por ele,

Porque o amava, foi nele que pensou, que não sofresse, que para ele fosse sempre Amor.

 

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