Enquanto crescia sempre nela perdurava aquela preocupação
Mãe,
eu vou ser amada quando crescer?
Mãe,
como vai ser?
Talvez porque com ela nascera tudo tão errado. Desde a
ligeira paralisia infantil até ao abandono. Terá sido por isso que não a
quiseram? Gostava de imaginar que simplesmente a tinham perdido e a procuravam
ainda.
Cresceu em instituições onde os funcionários cumpriam
turnos de corações fechados. Inventou uma mãe. Via-a na mancha do tecto
parecida com a figura de Nossa Senhora. Via-a nas noites mais escuras quando
fechava os olhos. Via-a quando estava sozinha e às vezes falava com ela:
Mãe,
eu vou ser amada quando crescer?
Cresceu sozinha, às vezes vítima de bullying quando a
palavra ainda não existia, não se falava nisso, seguia-se em frente. Seguiu em
frente, cada vez mais fechada e pequena.
E só.
Foi enterrando os sonhos bem fundo para sobreviver
enquanto os anos passavam.
Não foi um dia especial aquele em que o conheceu.
Não ouviu pássaros ou viu estrelas. Nem reparou nessa
altura que ele sorrira e o sorriso era para ela.
Via-se velha e num momento explodiu nela a vida porque
se apaixonou e era recíproco.
Todos os seus sonhos voltaram “Mãe, sou amada”
Entregou-se completamente a esse amor que a preenchia,
sem vergonha descobriu-se e decorou o corpo dele e a sua alma.
Viu-se feliz e grata, não mais a estranha, mas igual a
todos e abençoada.
Nem saber pouco depois que uma doença a devorava lhe
tirou o deslumbramento.
Que estranha ironia ir morrer quando nunca tanto tinha
querido viver.
O seu amor era luz e calor, podia até consumir o seu
corpo, que mil vezes o escolheria.
Morria porque o amava, morria por ele,
Porque o amava, foi nele que pensou, que não sofresse,
que para ele fosse sempre Amor.
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