quinta-feira, outubro 13, 2022

CNEC 62/34 - 1/10 - A encantadora de gatos

         Em criança mudamos muitas vezes de cidade e de casa por causa do trabalho do meu pai.

Quando olho para trás há uma morada que sobressai, embora apenas lá tivéssemos estado alguns meses. A casa era velha e tudo nela precisava de obras, desde o soalho às canalizações. Contudo, mesmo ao lado, havia uma casa encantada, meio escondida por árvores e silvas, tinha uma torre e um quintal cheio de gatos. Na mercearia soube a minha mãe que “ali vivia uma mulher, que não tinha ninguém, e era uma velha bruxa”.

Quando me mandavam brincar lá para fora colava-me ao muro, e tentava chamar os gatos. Sentia-me às vezes observada e um dia vi-a, a nossa vizinha. Perguntei-lhe se os gatinhos eram todos dela. Respondeu-me que só o Mr Gray o era, apontando para o lado, mas apenas lhe vi os olhos, fixos em mim, “ele só se deixa ver a quem gosta”. Ao ouvir isto fiz tudo para conquistar o Mr Gray, desde falar-lhe ou falar para onde pensava que estava, a trazer-lhe prendas.

Demorou, mas consegui vê-lo e tive noção do importante que era ser reconhecida como alguém digno de o ver.  

Pouco depois fomos embora e muitos anos passaram até que por acaso reencontrei a rua. Prédios novos tinham substituído as casas velhas, excepto a da nossa antiga vizinha. A porta abriu-se quando passava e saiu de lá uma jovem gótica, que era parecida com ela. Contudo, ela não tinha filhas ou netas. O mais estranho foi parecer-me que me reconhecia, mas não o queria mostrar. Poderia para ela ter o tempo corrido ao contrário? E eis que ao seu lado surgiu o Mr. Gray.

Não voltei lá, mas desconfio que a casa permanece ali, igual e encantada, refúgio dos gatos silvestres, numa rua perdida da cidade.

2 comentários:

  1. Até onde vai a memória e em que momento ela se perde e começa a invenção? Há outro dado importante: é "uma história passada" da perspectiva do adulto, que preenche os vazios, as lacunas imbricando as duas vertentes: a do adulto e da criança. Gostei da "personificação" e a personalidade do gato: "e tive noção do importante que era ser reconhecida como alguém digno de o ver". Vejo uma ambiguidade no período aludido. Mas o leitor se descobre algo mais pelas entrelinhas ou cria, risos!
    É sempre bom ler suas narrativas.
    Abraços, minha amiga!

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  2. Muito obrigada Caderno de San
    um abraço

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