quarta-feira, setembro 14, 2022

CNEC 61/33 - 8/10 Não é verdade que

 Não é verdade que sabia de tudo

Suspeitava.

Apenas isso, suspeitava.

De manhã tudo calmo. Elas estariam a dormir ou saíam para irem ao Cabeleireiro. Andavam sempre todas bem arranjadas.

Mas à noite, à noite era uma pouca vergonha.

Eu nem dormia. Eram tantas as entradas e saídas no prédio. Tudo homens, muitos com idade para serem pais de família ou avós. Bem vestidos, com dinheiro. Havia os envergonhados que deixavam os carros longe e falavam baixo. Não queriam ser reconhecidos. Havia outros, esses sem vergonha, a agirem como se tudo lhes pertencesse. A mandarem bocas até a mulheres decentes. Eu já nem descia sozinha, mesmo para levar o lixo, dizia ao meu Jaime para vir comigo ou levá-lo ele. Pior foi o dia em que um me abordou. Gritei-lhe que era uma mulher honesta e ele respondeu-me que ninguém me ia querer mesmo.

Foi a gota de água.

Tinha de fazer alguma coisa e fiz. Se as chamadas anónimas para a polícia não faziam efeito, fui lá em pessoa. Contei sobre o que se passava e assinei a queixa.

O agente que me atendeu foi muito educado. Disse-me que já estavam a investigar.

Talvez estivessem, mas demoravam muito. Estavam a precisar de um empurrãozinho. Foi isso que fiz, só isso. Liguei-lhes a contar que ouvira gritos, gritos de uma mulher que a matavam.

Minutos depois chegavam. Vi-os primeiro da janela e ouvi as sirenes que não se calavam. Depois foi uma confusão com os “clientes” a tentar fugir como ratos. Houve um que se queria enfiar na nossa casa, mas não lhe abri a porta.

Levaram-nos a todos, os homens e as mulheres.

Agora isto tem estado quieto, nem parece o mesmo prédio. Vamos lá a ver quanto dura.

 

4 comentários:

  1. Como não é verdade? É verdade sim. Pintado com cores tão vivas que não é possível negá-lo (o quadro, a situação). Se o tocamos, borraremos as mãos com tintas tão frescas. Bom é sabê-la que usas tão bem o pincel para cena tão viva, tão real. Ou a pena! Não importa. Seu cabedal não depende de pincel ou caneta, não escreves com a mão.
    Agora baixinho, me responda até quando a vizinhança vai aguentar a monotonia?
    Gostei da força e da beleza da narrativa, Gábi!

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    1. :) o comentário está incrível - quero comentar assim também mas ao invés normalmente só consigo dizer que gosto ou não gosto,
      obrigada e um beijinho

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  2. Os céus não conhecem fúria maior que a de uma mulher desprezada....rsrsrs

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