Olhando para trás o tempo parece ter passado num ápice, os dias a sucederem-se, cada vez mais depressa, sobressaindo mais os acontecimentos funestos. Recordo melhor as mortes, que o casamento e aniversários. Talvez pelo vazio que foi crescendo a cada perda.
Fomos jovens. Tivemos sonhos. Do
nosso grupo, a Carla foi a primeira a casar. Via-a tão apaixonada. Quando nos
apresentou o Luís, resplandecia, e essa luz como se apagava quando estava sem
ele. Talvez por isso o detestei desde o início. Era um estranho a quem não
reconhecia quaisquer qualidades para mudar assim a minha amiga.
Emigraram e durante anos não soubemos
mais uma da outra. Reencontrámo-nos graças ao Facebook. Passámos a trocar
mensagens, a actualizar os eventos da vida com a ajuda das fotografias. Ambas
já divorciadas, com os filhos crescidos, à espera dos netos (e da morte, como
me ocorre nos dias cinzentos).
Avisou-se que viria a Portugal. Vinha resolver
uns problemas com uma herança. Poderíamos ver-nos por meia hora. O tempo entre
voos. Chegava de África, e antes do voo para o Porto, ficaria no Aeroporto.
Perguntou-me se poderia passar por lá. Respondi-lhe logo sem pensar que sim.
Depois pensei no transtorno que
implicava. Tinha de pedir a um dos meus filhos para me levar. Seria melhor ir
de táxi. Ainda seriamos amigas? Parecia fácil sê-lo no Facebook. Com tanto que
sucedera o que nos ligava agora?
Tive sorte e cheguei cedo. Esperei no
Café perto das saídas. Quando ela me apareceu não a reconheci logo. Vi uma
mulher de idade, mais larga e baixa do que recordava da figura dela. Mas os
olhos, os olhos eram os mesmos. Com ela voltei a ter quinze anos, quando falámos
dos nossos pais que então eram vivos, e dos sonhos que tínhamos. Abraçamo-nos
na despedida. Continuamos amigas, sempre.
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