quinta-feira, setembro 01, 2022

CNEC 61/32 - 6/10 - Amigas

        Olhando para trás o tempo parece ter passado num ápice, os dias a sucederem-se, cada vez mais depressa, sobressaindo mais os acontecimentos funestos. Recordo melhor as mortes, que o casamento e aniversários. Talvez pelo vazio que foi crescendo a cada perda.

Fomos jovens. Tivemos sonhos. Do nosso grupo, a Carla foi a primeira a casar. Via-a tão apaixonada. Quando nos apresentou o Luís, resplandecia, e essa luz como se apagava quando estava sem ele. Talvez por isso o detestei desde o início. Era um estranho a quem não reconhecia quaisquer qualidades para mudar assim a minha amiga.

Emigraram e durante anos não soubemos mais uma da outra. Reencontrámo-nos graças ao Facebook. Passámos a trocar mensagens, a actualizar os eventos da vida com a ajuda das fotografias. Ambas já divorciadas, com os filhos crescidos, à espera dos netos (e da morte, como me ocorre nos dias cinzentos).

 Avisou-se que viria a Portugal. Vinha resolver uns problemas com uma herança. Poderíamos ver-nos por meia hora. O tempo entre voos. Chegava de África, e antes do voo para o Porto, ficaria no Aeroporto. Perguntou-me se poderia passar por lá. Respondi-lhe logo sem pensar que sim.

Depois pensei no transtorno que implicava. Tinha de pedir a um dos meus filhos para me levar. Seria melhor ir de táxi. Ainda seriamos amigas? Parecia fácil sê-lo no Facebook. Com tanto que sucedera o que nos ligava agora?

Tive sorte e cheguei cedo. Esperei no Café perto das saídas. Quando ela me apareceu não a reconheci logo. Vi uma mulher de idade, mais larga e baixa do que recordava da figura dela. Mas os olhos, os olhos eram os mesmos. Com ela voltei a ter quinze anos, quando falámos dos nossos pais que então eram vivos, e dos sonhos que tínhamos. Abraçamo-nos na despedida. Continuamos amigas, sempre.

Sem comentários:

Enviar um comentário