quarta-feira, agosto 24, 2022

CNEC 61/33 - 5/10 - Parado no semáforo

  

Um homem está, ao volante, parado diante de um semáforo vermelho.

O semáforo passa a verde, mas ele não arranca.

Condutores dos carros atrás dele buzinam.

Em vão.

O semáforo passa de novo a vermelho e continuam a buzinar.

Quando passa a verde, ultrapassam-no e insultam-no.

Ele permanece imóvel. Ambas as mãos no volante, o tronco direito, a face inexpressiva.

É então que uma mulher, jovem e bonita, abre a porta do lado do passageiro, entra e senta-se ao seu lado.

Enquanto ela entrava, ele lembrou-se de que deveria ter travado as portas. Sente-se tão farto daquele dia que quase esquecera onde estava.

Não falam um com o outro. Ela coloca o cinto num gesto automático, o rosto tão fechado quanto o dele.

E à terceira vez que o semáforo fica verde, ele arranca finalmente.

Segue em frente, e sem olhar para o lado, interpela-a:

- Onde quer que a leve?

- Segue para onde ias.

- Vou ao armazém falar com uns tipos, vai demorar.

Ela não responde, ou não o faz com palavras, porque segundos depois, o som de fungar denuncia que começou a chorar.

Ele dá o pisca para a direita e trava:

- Mas que quer afinal?

Como uma represa rebentada as frases dela saem-lhe em atropelo e soluços:

- Nunca, nunca pensei, como foste capaz?! Foste embora, foste embora! Deixaste-me sozinha, como se não importasse, como se não fosse nada, foste embora, depois de tudo o que fiz por ti,

Ele interrompe-a:

- Droga, como o que fez por mim? Nunca a tinha visto antes!

Ela para de chorar, olha para ele e foge do carro.

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