Um
homem está, ao volante, parado diante de um semáforo vermelho.
O
semáforo passa a verde, mas ele não arranca.
Condutores
dos carros atrás dele buzinam.
Em
vão.
O
semáforo passa de novo a vermelho e continuam a buzinar.
Quando
passa a verde, ultrapassam-no e insultam-no.
Ele
permanece imóvel. Ambas as mãos no volante, o tronco direito, a face
inexpressiva.
É
então que uma mulher, jovem e bonita, abre a porta do lado do passageiro, entra
e senta-se ao seu lado.
Enquanto
ela entrava, ele lembrou-se de que deveria ter travado as portas. Sente-se tão
farto daquele dia que quase esquecera onde estava.
Não
falam um com o outro. Ela coloca o cinto num gesto automático, o rosto tão
fechado quanto o dele.
E
à terceira vez que o semáforo fica verde, ele arranca finalmente.
Segue
em frente, e sem olhar para o lado, interpela-a:
-
Onde quer que a leve?
-
Segue para onde ias.
-
Vou ao armazém falar com uns tipos, vai demorar.
Ela
não responde, ou não o faz com palavras, porque segundos depois, o som de
fungar denuncia que começou a chorar.
Ele
dá o pisca para a direita e trava:
-
Mas que quer afinal?
Como
uma represa rebentada as frases dela saem-lhe em atropelo e soluços:
-
Nunca, nunca pensei, como foste capaz?! Foste embora, foste embora! Deixaste-me
sozinha, como se não importasse, como se não fosse nada, foste embora, depois
de tudo o que fiz por ti,
Ele
interrompe-a:
-
Droga, como o que fez por mim? Nunca a tinha visto antes!
Ela
para de chorar, olha para ele e foge do carro.
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