quinta-feira, março 10, 2022

CEC 59/31 - 4/10 - Um sapato só

 

Quando eu nasci, o mundo era belo e perfeito. Saí da fábrica com o meu par, e por todo o lado, para onde olhava, todos saíam em pares. Ele era lindo, e o inverso de mim. Ao olhá-lo e sabê-lo simétrico, permiti-me o orgulho de achar-me também bonito. Chegámos à loja e fomos logo para a montra, os dois, juntos. Brilhámos.

Mal sabia eu então quão breves seriam aqueles momentos.

Naquele mesmo dia entrou na loja a razão da minha desgraça. Chamou-me a atenção pelo andar diferente, apoiado em canadianas. Não apenas por qualquer mera entorse ou fractura, faltava‑lhe mesmo uma perna. Quis experimentar o meu par no pé que lhe restava e … serviu-lhe.

Com o coração nas mãos (se os tivesse) aguardei ansioso. Pedi sem palavras para que me levasse também. Podia ser para ficar na caixa, aguardaria calado e na escuridão que ao final de cada dia regressassem. Viveria para o que depois me iria contar sobre o seu dia. Onde tinham ido, o que tinham feito. Não teria inveja, nem ciúme. Lamentá-lo-ia pelo desgaste, tentaria alertar o estranho para quando necessitasse de solas novas. Se não fossemos o inverso um do outro, dar-lhe-ia as minhas.

Mas não, o estranho não quis levar-me. Deixaram-me na montra, sozinho. Riram que poderia vir outrem a quem faltasse a outra perna. E lá fiquei eu, único no meio de pares, a ganhar pó, sem brilho, só.

Todavia, posso sonhar, recordar o passado e fantasiar com o dia em que o estranho ganhe uma prótese com pé, e se lembre então do sapato que abandonou na loja.

4 comentários:

  1. Tadinho do sapato :))))
    Beijinho, bfds

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  2. Pois...
    Cada vez mais criativa, amiga. Eu com tantos problemas de saúde, meus e do mais-que-tudo, estou a secar a criatividade.
    Abraço e saúde

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  3. Excelente texto com uma imaginação só tua. Adorei!
    Beijos e um bom dia

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  4. Tenho andado desaparecida...
    Tu continuas a escrever!
    MUITO BEM!!!!
    :D

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