Quando eu nasci, o mundo era belo e perfeito. Saí da
fábrica com o meu par, e por todo o lado, para onde olhava, todos saíam em
pares. Ele era lindo, e o inverso de mim. Ao olhá-lo e sabê-lo simétrico,
permiti-me o orgulho de achar-me também bonito. Chegámos à loja e fomos logo
para a montra, os dois, juntos. Brilhámos.
Mal sabia eu então quão breves seriam aqueles
momentos.
Naquele mesmo dia entrou na loja a razão da minha
desgraça. Chamou-me a atenção pelo andar diferente, apoiado em canadianas. Não
apenas por qualquer mera entorse ou fractura, faltava‑lhe mesmo uma perna. Quis
experimentar o meu par no pé que lhe restava e … serviu-lhe.
Com o coração nas mãos (se os tivesse) aguardei
ansioso. Pedi sem palavras para que me levasse também. Podia ser para ficar na
caixa, aguardaria calado e na escuridão que ao final de cada dia regressassem.
Viveria para o que depois me iria contar sobre o seu dia. Onde tinham ido, o
que tinham feito. Não teria inveja, nem ciúme. Lamentá-lo-ia pelo desgaste,
tentaria alertar o estranho para quando necessitasse de solas novas. Se não
fossemos o inverso um do outro, dar-lhe-ia as minhas.
Mas não, o estranho não quis levar-me. Deixaram-me na
montra, sozinho. Riram que poderia vir outrem a quem faltasse a outra perna. E
lá fiquei eu, único no meio de pares, a ganhar pó, sem brilho, só.
Todavia, posso sonhar, recordar o passado e fantasiar com
o dia em que o estranho ganhe uma prótese com pé, e se lembre então do sapato
que abandonou na loja.
Tadinho do sapato :))))
ResponderEliminarBeijinho, bfds
Pois...
ResponderEliminarCada vez mais criativa, amiga. Eu com tantos problemas de saúde, meus e do mais-que-tudo, estou a secar a criatividade.
Abraço e saúde
Excelente texto com uma imaginação só tua. Adorei!
ResponderEliminarBeijos e um bom dia
Tenho andado desaparecida...
ResponderEliminarTu continuas a escrever!
MUITO BEM!!!!
:D