quarta-feira, setembro 08, 2021

CNEC 56/27 - 7/10 - A caixa de gomas

  

Lento a falar, um bocadinho para o forte e óculos. Pelo trabalho do pai várias vezes tivemos de mudar de cidade e de escola. Parecia quase que sempre que ele arranjava um amigo voltava a ser necessário mudarmos. Para piorar, este ano não ia estar na mesma escola que ele, não o poderia proteger ou encontrar-me sequer com ele no recreio. Se ao menos os outros o vissem como eu. Uma alma boa, nunca guardava rancor, nunca culpava os outros, tinha sempre esperança que seria diferente no dia seguinte.

Foi para nova escolinha com entusiasmo. Deixei-o lá e segui para a minha. No regresso tinha a mochila rasgada. Contou aos pais que caíra. Talvez por estarem tão preocupados com os problemas do dia-a-dia, acreditaram ou fizeram por isso. Eu tinha mais tempo ou podia estar mais atenta. Reparei como pouco a pouco a luz nele se apagava. Ele nem sabia inventar que estava doente para não ir à escola. Eu tinha onze e ele sete anos. Também não sabia bem como ajudar. Lembrei-me que poderia conquistar os colegas com prendas. Arranjei-lhe uma caixa de gomas A caixa tinha-a feito eu em trabalhos manuais. Comprei as gomas doces e coloridas, morangos, bananas e ursinhos na Mercearia.

Na manhã seguinte estava eu mais entusiasmada que ele, com a ideia que iria resultar.

À tarde quando passei pela escola ele tinha a roupa rasgada, mas saiu com dois colegas. Não estava sozinho e aqueles dois olhavam para ele como respeito.

Em casa perguntei-lhe o que se passara.

- “O Zé (um dos que o perseguia) ia pisar a tua caixa.”

- E?

- Empurrei-o. Caiu e fugiu.”

O meu irmão continuou a ser uma alma boa, mas passou também a defender as caixas de gomas e voltou a gostar da escola.

2 comentários:

  1. Não era meu irmão, era colega na escola primária.
    Estava doente e dizia que "era muito grave".
    Ganhei um carro com comando a pilhas numa rifa.
    E dei-lho a ele.
    Felizmente melhorou.
    Mas não terá sido por causa da minha oferta.
    Foi há mais de cinquenta anos.
    Beijinho

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  2. Passei o mesmo na "antiga" quarta classe com um coleguinha acabado de chegar da "metrópole" e que era tão mal tratado por dois de uma outra turma. Sabia quem eram e um dia fiz-lhes uma espera "longe dos portões da escola devido ao regime" e fiz o que nem quero contar e levei-os ao portão puxando um de cada lado e disse: estes só querem bater nos mais fracos. Foram ao diretor e mudaram do dia para a noite.
    Enfim e já cá com a minha filha mais nova por volta dos seus 6/7 anos uma colega e um colega só lhe davam carolos e resolvi tudo dando um carolo a cada um perante os pais de ambos. Admirados e quase irados só lhes disse: passem pf a vossa mão pela cabeça dela e depois podem ir fazer queixa.
    Passaram-se anos e não é que o rapaz é colega do meu meu genro? Ele reconheceu-me numa festinha do meu neto...e minha nossa disse-me que a lição que lhe dei valeu muito a pena. Agora tem dois filhos e um deles é traquina como o pai:)))

    Beijocas e um bom dia

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