Horas negras
Não quis ficar sequer com uma fotografia. Guardou a que estava com os pais, mas rasgou-o dela.
Primeiro namorado. Saíam sempre com alguém de vela. Pensou que fosse um homem direito, que gostasse dela. Depois, nem lua de mel tiveram. Ele logo mostrou como era. Durante a semana trabalhava e queria o comer na mesa. Ao fim-de-semana ia caçar ou para os copos com os amigos e o vinho perdia-o. Voltava mau, embirrava com ela, começou a acertar-lhe. Batia-lhe por tudo e por nada.
Fugiu-lhe uma vez. Foi para casa dos pais. Coitados, não sabiam o que lhe fazer. Ela tinha sido a raspa do tacho, com uma grande diferença para os irmãos. Os seus pais iam à Igreja, respeitavam-se um ao outro. Estavam velhos e frágeis. Não percebiam. Para eles, tinha casado, pertencia ao marido. E ele trabalhava, mantinha a casa. Tinha lá o seu feitio, mas era a cruz dela.
Quando lhe morreram, acabou-se mesmo o consolo que tinha em vê-los.
Sentiu que não tinha mais ninguém, que não suportava mais aquele inferno, mais lhe valia morrer.
Com a última tareia, passou-lhe uma coisa má pela cabeça. Nem sabia bem se era para agarrar na caçadeira e apanhá-lo a dormir ou atirar-se a um poço.
Levantou-se, mas calhou ouvir o filho. Na altura o Zé estava com cinco anos. Acordou com um pesadelo. Viu-o sem ela porque desgraçara a sua vida e fora presa, ou porque tinham dado com ela no poço.
Foi ter com o filho e abraçou-o. Arrumou algumas coisas numa trouxa e foram-se embora.
Nunca mais o quis ver. Só voltou à aldeia quando soube que tinha morrido.
Antes sozinha que com aquele diabo. Deus lhe perdoasse, que ela não conseguia.
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