quinta-feira, julho 08, 2021

Post 8130 - CNEC 55/27 - 6/10 - Um erro no nome ou no endereço

 Um erro no nome ou no endereço

 

 

Estava perturbada quando a escreveu. Fê-lo à mão. Riscou algumas palavras, entrelinhou uma outra, sublinhou a parte que lhe parecia mais importante. Ao olhar para o papel lembrou-se dos rascunhos do tempo de escola, mas não podia passá-la a limpo. Se o fizesse ainda perdia a coragem e não a mandava.

Fora boa aluna na escola. Cuidava bem dos livros, enchia os cadernos com uma letra redonda, substituía os pontos do “i” por corações. Onde estava aquela menina que acreditava em histórias cor-de-rosa e finais felizes?

Via-a nas fotografias e nas recordações, mas não lembrava do que sentia quando era ela, tornara-se tão irreal como as personagens dos livros de romance que já não lia.

 

Não assinou e não escreveu o seu nome no envelope. Deixou o lugar do remetente em branco.

Se a lessem, quando a lessem, corrigiu-se mentalmente, saberiam que era dela, saberiam de quem falava.

Lembrou-se de algumas frases: “ajudem-me”, sublinhou essa palavra, e a seguir numa letra mais pequena escrevera “ele ainda me mata”.

Esperou que alguém viesse. Entretanto esforçava-se para fazer tudo como ele queria, na casa e na cama. Já sabia que se ele bebia, não lhe ia servir de nada. Queria tornar-se invisível, confundir-se com os móveis. A esperança da resposta às vezes até lhe doía. Lembrava-a que podia ser diferente.

Esperou e ninguém vinha.

Não percebia porquê. Vira o nome da Associação na televisão. Ali na terra não podia recorrer à guarda. Os colegas dele nunca a escutariam.

Tentou lembrar-se do que escrevera, se escrevera mal o nome, se escrevera mal o endereço para onde iria?

Ouviu barulho. Ele vinha mais cedo para casa?

A porta abriu-se. Na mão dele a carta.

 

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