Um erro no nome ou no endereço
Estava perturbada quando a escreveu. Fê-lo à mão.
Riscou algumas palavras, entrelinhou uma outra, sublinhou a parte que lhe
parecia mais importante. Ao olhar para o papel lembrou-se dos rascunhos do
tempo de escola, mas não podia passá-la a limpo. Se o fizesse ainda perdia a
coragem e não a mandava.
Fora boa aluna na escola. Cuidava bem dos livros,
enchia os cadernos com uma letra redonda, substituía os pontos do “i” por
corações. Onde estava aquela menina que acreditava em histórias cor-de-rosa e
finais felizes?
Via-a nas fotografias e nas recordações, mas não
lembrava do que sentia quando era ela, tornara-se tão irreal como as
personagens dos livros de romance que já não lia.
Não assinou e não escreveu o seu nome no envelope.
Deixou o lugar do remetente em branco.
Se a lessem, quando a lessem, corrigiu-se mentalmente,
saberiam que era dela, saberiam de quem falava.
Lembrou-se de algumas frases: “ajudem-me”, sublinhou
essa palavra, e a seguir numa letra mais pequena escrevera “ele ainda me mata”.
Esperou que alguém viesse. Entretanto esforçava-se
para fazer tudo como ele queria, na casa e na cama. Já sabia que se ele bebia,
não lhe ia servir de nada. Queria tornar-se invisível, confundir-se com os
móveis. A esperança da resposta às vezes até lhe doía. Lembrava-a que podia ser
diferente.
Esperou e ninguém vinha.
Não percebia porquê. Vira o nome da Associação na
televisão. Ali na terra não podia recorrer à guarda. Os colegas dele nunca a
escutariam.
Tentou lembrar-se do que escrevera, se escrevera mal o
nome, se escrevera mal o endereço para onde iria?
Ouviu barulho. Ele vinha mais cedo para casa?
A porta abriu-se. Na mão dele a carta.
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