Luz e sombra
Para haver sombra tem de haver luz, senão cairíamos
na escuridão, tão completa que nada conseguiríamos ver.
O tema fez-me pensar na pintura, em como
através do sombreado se consegue o volume, a dimensão.
Desde criança que achava que conseguia
desenhar alguma coisa (completamente iludida, claro). Ainda no liceu descobri uma casa na
Rua Sampaio Bruno onde vendiam telas e tintas. Fui lá com a minha mãe pelo
menos uma vez, outras vezes sozinha. Para se entrar, tínhamos de passar
primeiro por um corredor barbearia, com duas ou três cadeiras onde o Barbeiro
atendia senhores e não sei se não parava por lá também um engraxador, com a
caixa de madeira com o assento para o cliente e lugar para guardar a graxa e
escova.
Subíamos por degraus de madeira inclinados
e lá em cima, numa sala pequena cheia de luz, estavam as telas e tintas, todas
bastante caras, mesmo com o desconto de estudante.
Fui para as mais baratas e fiz alguns
retratos em pastel. Depois tentei o óleo mas comprei uma única tela e
pequenina. Tentei pintar um céu, mas não correu lá muito bem. Planeei pintar
por cima alguma outra coisa, até hoje.
Bem mais tarde, inscrevi-me num atelier de
pintura indicado por um amigo. Primeiro ficava em Leça, perto de uma Casa Museu
que fui visitar. Depois mudaram-se para uma casa antiga no Marquês – também com
degraus de madeira inclinados e uma sala com muita luz e cheiro a tinta.
Adorei as aulas sobretudo pelos
professores e pelos colegas - chegámos a
ter um jantar com disfarces no dia das Bruxas e uma exposição pelo Natal.
Tentei pintar uma dona-redonda e não
correu lá muito bem, e depois, a partir de uma fotografia, um auto-retrato, com
um resultado final ligeiramente melhor (pudera, tinha a fotografia aumentada).
Talvez um destes dias volte a tentar
pintar e me lembre da luz, da sombra e deste desafio.