Quando
eu tinha onze anos morreu a minha avó. A avó que estava a morar connosco, que
me deu a minha boneca favorita, a Joaninha, que nos contava histórias, dava-nos
a sopa, fez-nos cafuné nas sestas, tinha mais tempo e paciência para nós, dava
os melhores chi-corações do mundo.
Os
dias a seguir foram estranhos. Vi a nossa mãe tão triste. Fui percebendo o que
a morte implicava, não podermos mais estar com a nossa avó, e a ideia que
acontecia connosco. À mesa passámos a ser cinco em vez de seis. Mas para onde
tinha ido? Para onde é que vamos? Será o fim? Pode existir algo sem ter sido
criado, como o Universo e o que é o fim?
Comecei
a ter sonhos com ela. Num dos sonhos, era-me dito, a mim que sentia saudades do
seu abraço, que no mundo inteiro existem duas pessoas capazes de dar o mesmo
abraço. Se a minha avó tinha desaparecido eu podia ir à procura da pessoa que
daria um abraço igual.
Uma
ideia estranha, porque mesmo que o abraço fosse igual não seria ela, mas
ajudou-me, talvez por implicar que não perdera tudo, algo ficara, como a
recordação para reconhecer a semelhança de um abraço.
.
Continuo a querer guardar seja o que for que possa ter restado, e segurar
momentos, por isso também comecei vários Diários.
Um
consolo pequenino, como um abraço parecido, e uma razão para escrever.




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