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quinta-feira, agosto 20, 2020

Post 7671 - CNEC 50/22 - 10/5 - Pai



Não quero despedir-me de ti, não quero dizer-te adeus.
Tento não pensar no que sucedeu.
A dor surge em vagas, algumas derrubam-me e submergem-me, insuportável e inultrapassável por instantes.
Há outras alturas em que tudo parece continuar como se nada tivesse sucedido. Se me lembrar nessa altura sinto-o como uma traição.
Caíste nas escadas e magoaste-te na cabeça. Apesar de não teres perdido a consciência podia ser um traumatismo grave.
Não queria que fosses para o Hospital por recear que apanhasses o Covid. Apanhaste outra coisa, uma pneumonia de uma bactéria hospitalar. Davam-te um remédio, irias melhorar.
Por causa do Covid não podíamos acompanhar-te ou visitar-se, apenas telefonar para saber como estavas.  Quando nos atendiam, falávamos com médicos e enfermeiros diferentes com informações distintas e opostas.
No mesmo dia em que pela manhã me disseram que brevemente ias ter alta, logo após ligam para autorizar uma visita para despedida.
Não pode ser. Não podia ser.
Fomos lá e não sei se nos reconheceste, se sentiste que ali estávamos.
Pedi-te desculpa porque não fui melhor, não sei como não vi como estavas tão frágil e não impedi o que sucedia. Disse-te como gosto tanto de ti. Não te disse adeus, disse-te até amanhã.
Ligaram de novo quando já estava em casa. Um médico a comunicar que tinhas morrido, respondeu-me que não sofreste.
Sei que sofreste sim enquanto estiveste no Hospital. Quando penso nisso, sinto-me culpada por não me ter oposto a que te levassem, não ter arriscado vigiar em casa o traumatismo, não ter evitado que caísses.
Não quero despedir-me de ti, não quero dizer-te adeus.
Quero que continues na minha vida, quero poder continuar a ver-te, ouvir-te, falar-te, estar contigo.
Vou continuar a escrever-te e a falar contigo.
Até a um reencontro, em breve, até já.

quinta-feira, julho 30, 2020

Post 7647 - Desafio de Escrita - CNEC 50/22 - 2/10 - Um Segredo


Aos cinco anos voei.
Estávamos no jardim em frente ao prédio onde morávamos e consegui que a minha irmã mais velha me emprestasse a sua bicicleta. Só tinha rodinhas de um dos lados, do outro podíamos cair se não a segurássemos, colocando a perna no chão quando parávamos.
Nesse final de tarde pedalei com força e ia depressa. Não via bem o chão, sentia a rapidez.
A roda de frente foi contra uma pedra que a travou e eu sai projectada.
Voei.
Lembro-me da sensação até à aterragem.
Ganhei um galo na testa e a vergonha de ter caído.
Depois tive de conformar-me com o meu triciclo azul. Tinha um defeito: com facilidade, levantava a frente, e caímos para trás. Depois de vários bate-cus, aprendi como fazer para o evitar. Mantinha-se o perigo para quem não o soubesse, como aconteceu ao colega que desafiou o meu aviso.
Continuei com o sonho de ter uma bicicleta, mas cresci e já não a esperava.
Tinha catorze anos, estava sol, e não deve ter sido pelos meus anos, porque nasci no Inverno.
Não me lembro de um aviso antes, nem de a escolher ou saber que aí vinha.

Para poder ser uma surpresa foi antes um segredo.

O meu pai trouxe-me uma bicicleta. Vermelha, e sem rodinhas.

Já não me lembrava de como andar. Ele estava comigo na rua quando ganhei coragem para pedalar e andei sozinha sem ele atrás a segurar-me. Acho que ele me disse para andar que ia segurar-me e eu andei. Lembrei-me de como era e de como colocar os pés no chão para não cair quando parava.
Fiz mais passeios em sonhos com essa bicicleta do que reais. Não cai com ela, só voei na minha imaginação.


Alcino Do Fundo Lopes
o melhor pai do Mundo