Mostrar mensagens com a etiqueta Escrita. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Escrita. Mostrar todas as mensagens

domingo, dezembro 09, 2018

Post 6924 - Desafio de Escrita 3/10 - Na praia


 Versão 2
Estava uma noite fria mas junto ao bar da praia resistiam ele e o seu alvo, meio aquecidos pela bebida, ela que bebera mais, também entorpecida.
O empregado bocejou e anunciou que ia ter mesmo de fechar. Arrumou as cadeiras que faltavam e aguardou enquanto os dois últimos clientes avançavam em direcção ao mar e se sentavam numa rocha. Desligou a música e as luzes, fechou o espaço e afastou-se pelo passadiço.
Ficaram os dois. O mar estava à frente deles, mas mal o conseguiam ver. Ouviam-no. Maré baixa, algumas ondas vagarosamente avançavam e recuavam em espuma. Tudo parecia agora muito escuro, o céu, o vazio à frente deles. Estando ela ao seu lado, mal conseguia perceber as suas feições, até o seu cabelo claro parecia agora cinzento. Abraçou-a com o pretexto de a aquecer. Ela cheirava bem, a sal, um resto de perfume fresco e álcool.
Sabia que perto, demasiado perto, se tinham espalhado pares e grupos que enchiam a praia. Todos pareciam querer agarrar-se ao resto do Verão. De vez em quando chegava até onde estavam, o som de risos e palavras soltas para o relembrar que não estavam sós.
Pensou que ainda assim poderia fazer agora tudo o que planeara. Sentia-a entregue nos seus braços.
Decidiu beijá-la. Procurou-lhe a boca, segurando-lhe o rosto. Ela estremeceu, arrotou, soltou-se dele e vomitou aos seus pés. Já não cheirava bem. A ele passou-lhe a vontade. Decidiu adiar o início da sua vida de conquistador. Ela aninhou-se ao lado da rocha. Parecia muito pequena, Hesitou um instante mas resolveu afastar-se. Ela já não lhe interessava. Não se preocupou com o que lhe podia suceder. Foi-se embora.
Na manhã seguinte começou o seu pesadelo com a notícia: “Jovem encontrada morta na praia. Polícia tem um suspeito” Droga, e ele não fizera nada.

 Versão 1
Estava uma noite fria mas junto ao bar da praia resistiam ele e o seu alvo, meio aquecidos pela bebida, ela que bebera mais, também entorpecida.
O empregado bocejou e anunciou que ia ter mesmo de fechar. Arrumou as cadeiras que faltavam e aguardou enquanto os dois últimos clientes avançavam em direcção ao mar e se sentavam numa rocha. Desligou a música e as luzes, fechou o espaço e afastou-se pelo passadiço.
Ficaram apenas os dois. O mar estava mesmo à frente deles, mas mal o conseguiam ver. Ouviam-no. Maré baixa, algumas ondas vagarosamente avançavam e recuavam em espuma. Tudo parecia agora muito escuro, o céu, o vazio à frente deles. Estando ela ao seu lado, mal conseguia perceber as suas feições, até o seu cabelo claro parecia agora cinzento. Abraçou-a com o pretexto de a aquecer. Ela cheirava bem, a sal, a um resto de perfume fresco e a álcool.
Pensou que poderia fazer agora tudo o que planeara e mais ainda. Se ela gritasse ninguém a escutaria. Poderia calá-la com facilidade, mais alto, mais forte, um homem. Enquanto ela, não passava de uma garota parva que ficava assim a beber até tarde com um desconhecido.
Decidiu começar por beijá-la. Procurou-lhe a boca, segurando-lhe o rosto. Ela estremeceu, arrotou, soltou-se dele e vomitou aos seus pés. Já não cheirava bem. A ele passou-lhe a vontade que pensara ter de abusar dela. Decidiu adiar o início da sua vida de conquistador ou criminoso. Ela aninhou-se ao lado da rocha. Parecia muito pequena, Hesitou um instante mas resolveu afastar-se. Ela já não lhe interessava. Não se preocupou com o que lhe podia suceder. Foi-se embora.
Na manhã seguinte começou o seu pesadelo com a notícia: “Jovem encontrada morta na praia. A polícia tem um suspeito.” Droga, e ele não fizera nada.

quinta-feira, novembro 29, 2018

Post 6914 - Desafio de Escrita 1/10 e 2/10 - A Chave e Sim, mãe


      Tinha acabado de passar por aquela rua enlameada e chovia copiosamente quando se pespegou à janela.
       E já escurecia, mas algo lhe chamou a atenção para que voltasse a envergar a gabardina, calçasse as galochas e fortemente agarrada ao guarda-chuva de novo saísse para enfrentar a borrasca.
     Em passos curtos, frágeis mas decididos, chegou onde pretendia, curvou-se e com a ponta dos dedos elevou da lama escura o objecto cuja ponta brilhava.
       Fora o seu prateado resplandecente que lhe chamara a atenção.
       Meio decepcionada apercebeu-se que não passava de uma pequena chave.
       Guardou-a na algibeira impermeável e trouxe-a consigo.
    Já em casa, limpou-a cuidadosamente com um lenço de papel e olhou-a com mais atenção. Era uma chave pequena, mas trabalhada, apesar de brilhante não parecia nova.                Que será que abriria?                  
        Talvez um cofre de jóias preciosas. A dama que a deixara cair estaria agora desesperada e nunca mais poderia abrir o cofre. Não mais poderia usar qualquer uma das jóias ali guardadas, o que iria entristece-la, deixá-la-ia desesperada no luto da sua vaidade, contribuiria para o seu óbito, e no epitáfio seria recordada a chave preciosa perdida…
        Mas poderia ser também a chave do cofre de um chantagista, uma alma negra que se tentara esconder ou iludir com a bela chave escolhida. Ter perdido a chave seria a libertação das suas vítimas, não mais poderia ameaçá-las com a divulgação do que escondia no cofre…excepto se rebentasse com ele.
         Enquanto divagava, deambulava pela casa e nem se apercebeu quando a porta se abriu e chegou o seu marido. Ele sacudiu o capote e logo procurou por ela, estranhando não a ter visto à janela, hábito antigo entre muitos outros que os ligavam.
       Viu-a e ao seu minúsculo achado e no seu rosto abriu-se meio-sorriso: “que sorte, encontraste a chave do correio.”


- Tens de prestar mais atenção ao que te dizem Inês…mas estás-me a ouvir?
- Sim, mãe.
- O que é que eu acabei de dizer?
- Sim, mãe
- Não me ouviste! Queres largar o Iphone? Dá-me o aqui
- Mas mãe!
- Vou ficar- te com ele até amanhã
- Não pode ser, mãe. Como é que vou falar com os meus amigos? A minha vida acabou!!!
- Prometes prestar atenção ao que te dizem?
- Sim, mãe!
- Prometes mesmo?
- Prometo, mãe!
- Bem, aqui o tens de volta, mas deixa-o quieto um bocadinho enquanto converso contigo agora,
- Sim, mãe.
- Temos de ver se precisas de roupa nova agora que o Inverno está a começar, estás a crescer de dia para dia, com doze anos pareces ter quinze, vais ser alta como o teu pai…
- Sim, mãe.
- Mas estás de novo com o Iphone…
- Não mãe, estava só a acabar uma conversa, a dizer que agora não podia falar…
- A dizer a quem?
- À Sara, à Joana e ao Gábi.
- Mas com quantos é que conversas ao mesmo tempo?
- Estávamos reunidos, mas era para estudar, mãe, claro.
- Sim, sim, estou mesmo a ver que era… E acabaste a conversa?
- Suspendi-a…Vamos então falar de roupa, preciso de um casaco, de calças e vi umas botas super giras, iguais às que a Sara tem, mas de outra cor…
- Bem, pelo menos esta conversa interessa-te…
- Interessa-me, sim, mãe, quero ser alta como o pai, mas linda como tu!
- Estás-me a dar graxa, mas resulta, vamos lá ver como são as botas de que gostas…
- Sim mãe.

quinta-feira, novembro 15, 2018

Post 6888 - Desafio de Escrita 10/10 - Edna


Atirou-se para a linha quando avistou o comboio mas alguém saltou atrás dele e puxou‑o.
Afastou-se sem ver o seu salvador ou agradecer-lhe, esbracejando para afastar os curiosos que não pareciam humanos, mas robôs.
Assim que se viu sozinho, parou para pensar o que fazer a seguir.
Ansiara pela sua própria morte para se ver livre do tumulto que o perseguia.
Agora tinha de planear outra saída, talvez não tão definitiva, mas não via qual, não sabia o que fazer.
Antes tinha sido um homem feliz ou pelo menos era assim que se via no passado, uma infância e adolescência felizes, o casamento com a namorada da escola, um filho já adulto e o divórcio porque ele a e a mulher se tinham distanciado a tal ponto que nem discutiam.
A cessação do seu casamento surgira-lhe como uma libertação que lhe permitiria voltar a viver, fazer tudo o que quisesse sem ter de prestar contas a ninguém, sem ter de pensar no que esperavam dele.
A última vez que estivera com a ex-mulher fora no casamento do filho.
Ambos com novos companheiros, ela com o segundo marido, ele com a namorada da altura, a terceira ou a quarta, desde o divórcio, sentaram-se em mesas diferentes, mal se falaram.
Até que conhecera a Edna.
Acreditara numa feliz coincidência, depois apaixonado, pensara que tinha sido o destino.
A Edna era tudo o que sonhara, se tivesse sonhado alguma vez, jovem, desejável, bem-humorada, sempre disponível e divertida com o que ele dizia.
Amou-a, ou pensou que a amava, partilhou com ela o que tinha.
Acordou um dia sozinho e descobriu que ela lhe levara tudo.
A vergonha por ter sido enganado torturava-o.
A sua vida fora poupada pela intervenção de um estranho, talvez devesse almejar outro caminho.
Antes de morrer, decidiu então, vingar-se-ia.

domingo, novembro 11, 2018

Post 6884 - Desafio de Escrita 9/10 - Era uma vez


No fim queriam que voltasse tudo ao princípio.
Como um conto de fadas.
Durante o resto das suas vidas
Viveriam felizes para sempre.
Enquanto durou, o seu amor foi eterno.
Apaixonaram-se.
Descobriram afinidades e diferenças que os fascinaram.
Antes ela andava meio perdida.
A princesa que não era loura, nem bela, nem prendada.
O príncipe que não sabia que o era, até que a conheceu.
Nunca mataria dragões, mas gostaria de os fotografar.
Ele, não tinha um cavalo branco, estava a pagar ainda um Corsa preto
Primeiro, ele achou-a orgulhosa, ela achou-o convencido.
Quando se conheceram, detestaram-se um ao outro.
Foram forçados a conviver por razões de trabalho.
Porque contratados pela mesma empresa.
Pouco a pouco descobriram que os animava verem-se simplesmente.
Interessavam-se pelo que fazia o outro.
Uma história de amor como muitas outras.
Encontrarem-se.
Foi suficiente.
Um príncipe e uma princesa.
E tudo começou com:
Era uma vez.


E ler depois do final para o início...

segunda-feira, novembro 05, 2018

Post 6879 - Desafio de Escrita 8/10 - Padre




Tudo começou há muitos anos atrás, era ele um jovem Padre, mas Anglicano.
O país atravessava mais uma crise económica e começaram a surgir pela Igreja, sobretudo à noite, várias pessoas, almas perdidas.
Não eram praticantes,  não tinham sido educados na fé cristã. Pouco sabiam de religião, ou sobre a Igreja em que entravam.
Deparavam com um edifício antigo, de tectos altos, filas alinhadas para os fiéis direccionadas para o Altar.
Mais do que consolo, queriam esperança. Convenciam-se que para recomeçar com as suas vidas, tinham primeiro de confessar os seus pecados, ser perdoados.
Viam-no com o traje de padre e exigiam que os ouvisse. Alguns levavam a mal quando tentava explicar-lhes onde estavam. Não havia ali sequer um confessionário, os protestantes não se confessam a um Padre, mas a Deus. Havia outros tão surdos à razão que nem esperavam para despejar um ou outro pecado. Não lhes podia dar a absolvição mas guardava os seus segredos.
Foi-lhe permitido exercer outra profissão e a ironia que sempre o definira levou‑o a enveredar pelo entretenimento como humorista.
Levava aquilo a que assistia no Clube para a Igreja. Conseguiu que os seus sermões chegassem melhor aos crentes.
E fez também o contrário. Passou por episódios estranhos, e gosta de lembrar alguns. Como o grupo a quem mais uma vez tivera de negar a confissão e encontrou à noite no Clube onde se estreava. Não se riram das anedotas que escolheu contar até inventar uma onde eles entravam. Aí riram meio a medo. Terão ficado convencidos que afinal ele não era Padre de todo e deixou que assim pensassem.
Um dia, se não fosse pelo segredo da “confissão” a que se obrigara, gostaria de escrever um livro em que contasse tudo o que lhe acontecia, nos dois mundos, do sacerdócio e do entretenimento.

segunda-feira, outubro 29, 2018

Post 6870 - Desafio de Escrita 7/10 - Carta




Escrevemos e trocámos cartas mesmo quando nos encontrávamos quase todos os dias.
Acho que fui eu que escrevi a primeira, praticamente um bilhete, porque podias passar pela minha casa quando eu tinha de sair e assim poderias levar algo meu, algo escrito por mim. Foste tu que tiveste a ideia de escrever eu em papel cor-de-rosa e tu, em azul e de colocarmos data nas cartas.
Estas cartas tornaram-se uma continuação, às vezes uma sublimação do que falávamos quando estávamos juntos, do que vivíamos. Descrevemos o que fazíamos, escrevemos sobre o que pensávamos e sentíamos.
Escreveste a tua última carta dias antes de ires embora.
No depois, não a encontrava e quase entrei em pânico com a ideia de a ter perdido. Não podia ter perdido a tua última carta. Encontrei-a por fim numa gaveta da mesinha-de-cabeceira. Tinha-a guardado ali para a ter perto.
Comecei um diário também porque queria continuar a conversar contigo. O que aí escrevia às vezes era como se fossem cartas, mas cartas imensamente tristes.
Devolveram-me as cartas que te tinha escrito e tinhas guardado. Reli as tuas, as que escreveste, enquanto via fotografias antigas e às vezes chorava baba e ranho. Das que te escrevi só li uma ou duas, não gostei delas. Ou me lembravam, embora não o esqueça, o que tinha perdido – eu tive tanta sorte – ou criticava-me pelo que escrevia, pelo que não fiz. Devia ter agora mais momentos contigo, mesmo que o final chegasse quando chegou.
Se fosse desafiada para escrever uma carta como as que escrevi para ti, tantas, tinha de ser para ti.
Espero que haja um depois, que possas estar a ler esta carta enquanto a escrevo e vou terminá-la como as outras,
 a… muitíssimo (não escrevia a palavra mas fui eu que te o disse primeiro)


domingo, outubro 21, 2018

Post 6866 - Desafio de Escrita 6/10 Email


queridos pais este email é enviado por mim o Martim, com a ajuda do mano, mas ele não vai ler o que eu escrevo
ele ajudou-me a criar um email , que não é este, este é o do mano, ele disse-me que para já é melhor mandar do dele porque se mandasse do novo poderiam pensar que era lixo e não o receberem ou lerem – o meu email é martim21@gmail.com – nunca pensei que existissem tantos martins, comecei só com martim e já estava tomado, fui crescendo martim1, martim2, desisti ao Martim 8, pulei logo para o 21 e deu J
por isso nos próximos que eu enviar será já com aquele email, não pensem que é lixo e leiam!!!
gosto de falar convosco com o skype e de morar com os avós e o mano
mas gostava mais de ir morar aí convosco
o mano também podia ir, mesmo tendo uma namorada aqui, ela podia vir também
os avós tentam e são grandes avós mas não é a mesma coisa
e no skype vocês parecem um pouco um filme, não parecemos nós, não dá para jogar à bola com o pai como fazíamos ou ter um abracinho vosso como quando vivíamos todos juntos, eu, vocês e o mano
mas se vocês não podem voltar porque não têm trabalho cá mas só aí
então queria ir para aí morar convosco e com o mano
e podia vir também a namorada do mano e podiam vir também os avós
pensem nisso, sim?
do vosso filho Martim
queria pôr aqui uns corações mas ainda não aprendi como o fazer
beijos
Martim



domingo, outubro 14, 2018

Post Desafio de Escrita, 5/10 Um abraço



Tudo começou com um abraço.
Não vi primeiro quem me abraçava, mais exactamente quem tentava abraçar-me as pernas, senti-o, tive de baixar o olhar para o ver e depois ajoelhei-me para estar mais perto dele e vê-lo melhor.
Estávamos ali para conhecer o bebe porque esperávamos há anos.
Quando casei com o Pedro, sabíamos que queríamos ter filhos, dois ou três. Pelo menos um, pensámos ao fim de três anos sem que engravidasse.
Eu com endometriose, ele com azoospermia, tentámos a fertilização in vitro e a inseminação artificial, duas vezes.
Em vão.
Passo seguinte, inscrever-nos para a adopção. Queríamos um bebé. Esperámos cinco anos.
Até ao telefonema que nos trouxera ali, uma Instituição que acolhia crianças até aos dois anos.
 Enquanto esperávamos algo me atraiu para uma sala de onde vinham risos e gritinhos de crianças a brincar. Terão talvez pensado que eu era uma auxiliar. Não me barraram o caminho, ninguém parecia ter reparado em mim, ou assim pensei até sentir que dois bracinhos me rodeavam as pernas. Estava a ser abraçada por um garotinho de cabelo espetado e óculos de lentes muito grossas.
Quando me ajoelhei, veio para os meus braços como se nos conhecêssemos. Não falou mas não foram precisas palavras para que me fizesse sentir que confiava em mim.
Tinha também problemas numa perna e suspeitavam de um ligeiro atraso mental, que depois felizmente não se confirmou. Já ultrapassara a idade limite para aquela instituição, mas com quatro anos aparentava dois e pelos problemas que tinha, ninguém o queria.
Até nós chegarmos.
Peguei nele ao colo e levei-o comigo até ao Pedro, que percebeu.
Naquele dia não levámos connosco nenhum bebe, mas encontrámos o nosso primeiro filho, o meu garotinho de cabelo espetado que ainda hoje dá os melhores abraços do mundo.


quinta-feira, outubro 04, 2018

Post 6855 Desafio de Escrita 4/10 Monólogo


Não devia falar comigo mesmo, especialmente porque o faço em voz alta. Se alguém passasse por aqui, pensaria que sou louco, um velho louco, abrigado da chuva por baixo de uma arriba, a falar sozinho. Há avisos que pode ruir, a impor a distância, mas daqui vejo o mar, aqui estou abrigado da chuva.
Com o ruído das ondas e da água a cair, bem tenho de falar alto para me ouvir.
Gosto destes dias de Inverno, cinzentos e escuros. Gosto de ver quando chove, assim como espadas geladas e quebrarem-se nas águas revoltas.
Pouco a pouco, mesmo abrigado, vou ficando enregelado. Não me apercebo de quão gelado estou até me mover. Nessa altura o frio dói-me. Sei que devo ir embora. Mas, quando o faço sinto-me limpo, como se tivesse lavado a alma.
Ainda não estou assim, posso continuar aqui mais algum tempo.
Hoje passei por um homem aborrecido por ter o carro riscado, Queixava-se de o ter raspado na porta da garagem. Ao ouvi-lo pensei que tinha um carro, uma garagem e uma casa, imaginei-o como uma família dentro dessa casa. Tomava-os como certos, não lhes dava valor. Estragou-lhe o dia o sucedido.
Ele passou por mim sem me ver. Enquanto velho vagabundo ganhei o poder da invisibilidade. Se me dirigisse a ele, tal como estou, iria evitar-me, zangar-se-ia.
Mas se eu cortasse o cabelo, a barba, me vestisse de outra forma, talvez me visse como seu semelhante. Rir-se-ia se tentasse aconselhá-lo a dar valor ao que tem.
Sou mais livre agora que não me preocupo com trabalho, ter uma casa, pagar as contas.
Tento viver o momento, mas carrego as dores das perdas. Morreram-me os poucos que me conheciam. Por isso gosto de vir para aqui e falo sozinho, para não me perder de mim próprio.

terça-feira, outubro 02, 2018

Post 6850 - Desafios de Escrita - 10/10 OE, 4/10 CNEC

Recomeçaram as aulas e no início da semana Eva apanhou o comboio para Coimbra. Com a prática de muitas viagens rapidamente guardou a mala e enfiou-se no seu lugar.
O seu olhar não se fixou na paisagem que corria perante si: campos cor-de-terra, poucas casas e árvores.
Nem nas gotas de chuva que escorriam pela janela.
Muito menos no reflexo do seu rosto iluminado no vidro quando passavam por um túnel.
Ou ainda no que se passava na carruagem, meio vazia, meio ocupada por desconhecidos.
Tinha-se deitado tarde na noite anterior. Com sono foi-se desligando de como era em família e vestindo o papel de estudante empenhada.
Reviu o “programa” para o dia. Quando chegasse teria de correr para chegar ao quarto, deixar lá a mala, comer alguma coisa e não perder a primeira aula.
Com o movimento cadenciado do comboio, pouco a pouco, deixou de ouvir a voz da senhora à sua frente que ao telemóvel contava a sua vida e a dos colegas a alguém que a escutaria do outro lado. Pelo que contava não pareciam vidas interessantes mas muito ocupadas em competir em bens e férias de facebook.
Adormeceu.
Um calor confortável e macio acolheu-a, juntamente com um cheiro bom a roupa lavada e algo mais.
Até que um balanço do comboio que acelerava a fez pensar que caía e abriu os olhos.
Tinha estado encostada a alguém e esse alguém era um rapaz um pouco mais velho que ela.
Endireitou-se-num ápice, envergonhada e pediu-lhe desculpa. Começaram a falar.
Estava a simpatizar com ele até que ele lhe disse o nome. Inacreditável entre os milhares de nomes possíveis para estranhos interessantes.
Não quis revelar-lhe o dela. Inventou que se chamava Maria.
Reduziu-o a mero episódio de uma viagem no comboio.
Nem pensar em envolver-se com um Adão.

A vida simplesmente acontece.
Num momento podemos estar a pensar em como será.
E parece que pouco depois, temos um passado.
Subitamente é demasiado tarde.
Apercebemo-nos de tudo o que não vamos fazer, de tudo que não seremos.
Creio que os momentos mais marcantes serão os dos nascimentos e das mortes.
Abomino a morte, não suporto a ideia que seja definitiva.
Disseram-me que se aprende com o sofrimento, nem que seja a compaixão.
Continuo a pensar que é quando estamos felizes que é mais fácil ser-se bom.
Não queria que a dor me tornasse uma pessoa má.
Sabê-lo-ei no derradeiro momento, se ainda tiver consciência e tempo para me lembrar de pensar nisso.
Então vou escolher os primeiros e lembrar momentos que são de nascimento sem o ser.
São-no porque nasce em nós a paixão, a admiração, o afecto, o amor por alguém que antes nos era estranho. Cada pessoa é um mundo, algumas até parecem ser mais
No tempo de pensar como será, o que desejava para a minha vida era viver um grande amor.
Desde os contos de fadas, aos romances no cinema, apenas príncipes e princesas, os personagens interpretados por belos actores e actrizes pareciam dignos de o sentir, de amar e ser amados. Aos outros, para o resto do mundo, restaria os papéis secundários, dos escudeiros, bruxas, ou melhores amigos.
Desejo não assumido ou revelado por o crer impossível. 
Até que não sendo eu nada de especial tropecei num príncipe.
E ele também gostou de mim.
Cada pessoa é um mundo, algumas até parecem ser mais.
Ele foi mais. É mais.
Momento marcante por todos os momentos que se seguiram.
Em que o que pensava e queria no tempo do pensar como será, foi como queria que fosse.
Queria lembrá-lo e senti-lo até esse último momento.

sábado, setembro 22, 2018

Post 6841 - Desafio de Escrita (CNEC) 1/10 e 2/10 Eu e Nas tuas lágrimas vejo

Eu gosto de histórias de amor reais com finais felizes. Colecciono-as, esquecendo muitas vezes os nomes ou quem eram os intervenientes.
Lembro-me, por exemplo, de uma apresentada nos flagrantes da vida real. A narradora tinha presenciado um acidente de viação em que uma rapariga bonita batia com o seu carro no de um rapaz simpático. Enervada e em lágrimas, apesar de ter sido dela a culpa, gritava-lhe “vou fazê-lo pagar por isso”. Mais tarde a narradora ficava a saber que iam casar e não conseguia evitar pensar que ela realmente o tinha feito pagar por aquilo.
Havia depois um caso contado pelo próprio interveniente. Contava como quando jovem, estando a passear num cais, tinha sentido a vontade irresistível de empurrar para a água, uma rapariga que por acaso também lá estava. Fê-lo a pressentir que se ela voltasse à superfície a sorrir ia casar com ela. Ele não a conhecia e ela podia até nem saber nadar. Mas felizmente ela sabia nadar e voltou mesmo à superfície a sorrir. Casaram e continuavam felizes (se fosse comigo como nado mal, ou afundava ou decididamente não emergiria a sorrir).
Ainda noutra história, um rapaz simpático, mas que não se achava atraente, tinha ido a um baile e começava a reparar como uma rapariga bonita desprezava todos os que iam convidá-la para dançar. Ele resolvia fazê-lo também para a criticar ou gozar por vir para um baile e não dançar, mas quando a abordou, ela que tinha estado sempre séria com todos os outros, abriu-lhe um grande sorriso e aceitou logo dançar com ele. Mais uma vez, muitos anos depois continuavam juntos e felizes.
Histórias assim fazem-nos crer que o amor, ainda que apenas enquanto dure, é para sempre, e desejar poder sentir algumas vezes o “nós” em vez de o somente eu.



Nas tuas lágrimas vejo as minhas.
As que chorei, as que não choro.
Passámos a linha invisível.
Sabemos que não acontece só aos outros. Sabemos como é.
Hoje sonhei com o J. Estava a precisar de ajuda e sem que me pedisse ia ter com ele. Estava jovem, bonito, frágil e corajoso. Tal como era.
Fecho os olhos e vejo-o no meu sonho. Passaram tantos anos. Se fosse possível reencontrarmo-nos, será que me reconheceria?
Quis ver sinais em coincidências.
Mas não há volta ou regressos.
Para os que ficam não é o fim. Mudamos. Rejeição, raiva, medo, saudade, dor. Em avanços e retrocessos, às vezes em simultâneo. Aceitar foi apenas acreditar que tinha sucedido, saber que a vida continua (como é possível que continue como se nada tivesse sucedido quando um mundo acaba?)
Não há nada que possamos fazer.
A dor passa a fazer parte de nós.
Antes não queria pensar que podia acontecer. Agora não quero pensar que sucedeu.
Antes evitava funerais. Agora percebi o que as presenças podem significar para os que ficam.
O último gesto por um amigo. Estar lá. Estar lá apenas, ainda que em silêncio, para escutar as lágrimas da sua família, dos que lhe eram queridos.
Por isso nas tuas lágrimas estão as minhas.

Post 6840 - Desafio de Escrita (0E) 7/10 e 8/10Sobre as redes sociais e Carta


 Com as redes sociais como o Facebook podemos reencontrar amigos e conhecidos do passado, descobrimos como estão actualmente (às vezes eles com barriguinha e menos cabelo, elas, bronzeadas e louras - outras vezes, não), ver as fotografias das casas, carros, férias e festas.
Com o Linkedin poder-se-á procurar trabalho – não sei se alguém já o conseguiu assim.
Podemos ser recordados dos aniversários, chamados para as partilhas e encontros – nos quais podemos colocar “gosto” e “talvez”, do talvez vá, mas depois não vai dar para ir.
Podemos concordar com ideias em cartazes como: não deixes para amanhã, aproveita hoje, quem quer arranja tempo, mas continuarmos sem o fazer.
Podemos ter amigos que nunca encontrámos, nem vamos encontrar, que falam outras línguas, vivem em países longínquos e alguns até nos começam a seguir.
Podemos também partilhar fotografias nossas, tiradas por nós ou de nós mesmos, os famosos “selfies”, ideias e citações, e contar os “likes”.
Receber um “like” de alguém famoso e descobrir depois que afinal era um perfil falso.
Entrarmos na roda de querer impressionar e deixar-nos iludir por quem nos quer impressionar a nós. Ou perder-nos em discussões sem sentido.
E sabemos agora também que por exemplo através do facebook ocultas entidades poderão obter e lucrar com os nossos dados – para tentar influenciar-nos a adquirir ou a votar ou a pensar.
Em vez de simples “likes” poderá de lá advir o mal anónimo, cobarde, e gratuito, o “bullying”. Ou a solidão de descobrir que nenhum dos duzentos, ou dos trezentos ou dos mil e tal amigos, está disponível quando precisamos de um.
Como em quase tudo, haverá o bom e o mau, mas se nos permite conhecer, contactar com algo ou alguém que de outra forma não encontraríamos, só por essa oportunidade, com discernimento e cuidado, viva as redes sociais!

Queridos pais o prometido é devido por isso aqui vai a carta que vos disse que escreveria.
Hoje foi o meu primeiro dia de aulas na escola primária.
Fui o primeiro! Já estava lá quando chegaram todos os meninos com os pais.
Alguns olhavam para mim de frente, a maior parte fazia-o de lado. Não por estarem intimidados, mas a querer avaliar‑me.
Quase me senti intimidado eu, mas procurei enfrentar a situação, sorrindo-lhes. Não obtive muitos sorrisos de volta, mas acolhi como carinho todos os que consegui.
Não houve choros. Estes meninos vêm da pré-primária ao lado. Têm mantido a turma. O único de novo ali, era eu. Vinte crianças, doze meninas, oito rapazes. Quando a porta da sala se fechou – fui eu que a fechei logo a seguir a tocar a campainha – ficaram calados a olhar para mim.
Por instantes apenas olhei também para eles.
Depois e como tinha sido aconselhado resolvi começar com voz e ar severos. Para que percebam que estão ali para aprender, e para ganhar e manter a autoridade, Mais tarde podemos brincar porque são ainda tão pequenos.
Incrível pensar que um dia fui assim. Tive a idade deles, um percurso semelhante. Infantário, pré-primária, escola primária.
Não me lembro como foi o meu primeiro dia, pouco recordo da Professora. Lembro o seu nome, as duas reguadas que me deu, o sabê-la ríspida, mas escapar normalmente aos seus castigos por ser dos bons alunos, em comportamento e notas.
Quero ensinar e inspirar estes meninos. Conseguir que aprendam tudo o que está no programa e que me vejam como um amigo e professor, o seu primeiro professor.
Se não me lembro do primeiro dia como aluno, sei que nunca esquecerei este dia como professor.

Obrigada pais por terem estado sempre ao meu lado e pelo vosso amor.

quarta-feira, setembro 05, 2018

Post 6834 - Desafio de Escrita (OE) 6/10 A viagem



Ainda faltavam vinte dias e de manhã ele tinha ido para o trabalho quando tive de lhe ligar.
Contou-me depois que saiu disparado. Chovia e trovejava e à sua frente só deparava com condutores lentos. Quando chegou eu estava pronta, à sua espera.
Ele ajudou-me a sentar no banco ao seu lado e a colocar o cinto sobre a minha enorme barriga e pusemo-nos a caminho. Ficava perto, mas parecia que nunca mais chegávamos.
Foi então que comecei com contracções mais fortes e o carro foi-se abaixo, sem que ele conseguisse que voltasse a pegar.
Saiu para a rua exasperado mas felizmente parou uma carrinha de caixa aberta. Aceitaram levar-nos. Eu fui à frente, entre o condutor e a mulher dele, e ele atrás, à chuva, a segurar-se de lado.
Quando chegámos quase me carregou pelas Urgências. Porque era um hospital pequeno ou porque o temporal levara a que grande parte dos habituais pacientes ficasse em casa, estava quase vazia. Levaram-me para dentro. O bebé estava atravessado, não tinha completado a volta e eu não estava a fazer a dilatação. A obstetra optou pela cesariana. Até me levarem para a sala foi mais uma eternidade, com dores e medo. Houve complicações, perdi a consciência, mas acabou por correr bem.
Depois trouxeram-me o bebé. Já limpo e embrulhado num lençol parecia-me um bebé igual a tantos outros. Até que com a minha mão segurei a sua mão minúscula.
Nessa altura percebi que nada a partir dali seria igual porque naquele dia e após uma viagem bem acidentada, começávamos outra, tinha nascido o nosso filho.




quarta-feira, agosto 29, 2018

Post 6823 - Desafio de Escrita (6/10) O assalto

Um homem abre a carteira e dela retira um cartão que lhe entrega:
- “Se depois se lembrar de mais alguma coisa ligue-me.”
Viu-o afastar-se com o colega, os dois Inspectores da Polícia Judiciária. Imaginava que seriam diferentes, que não seria possível confundirem-se com qualquer pessoa. Mas também imaginava que um criminoso, um homicida, o deveria ser.
Seremos todos iguais ou estarei em choque?
 Aquela parecia uma madrugada igual às outras.
Parara na Confeitaria Doce para o seu habitual galão e meia torrada.
Àquela hora, não era raro ser a única cliente. O Lucas veio à sua mesa trazer-lhe o pequeno-almoço sem que tivesse de o pedir.
Ouviu a porta abrir-se atrás de si. Registou-o sem pensar nisso, depois é que respondeu que teria pensado ser outro cliente. Nada de estranho.
 Logo a seguir, o som, o tiro, a tornar silencioso tudo o demais, a cortar o tempo, a separá-la para sempre do que deveria ser um dia normal.
 Pareceu-lhe que ao mesmo tempo viu o Lucas a ser atingido, o olhar espantado de quem como ela estaria a viver uma manhã comum até àquele instante.
Ela baixou-se como se o tecto estivesse para lhe cair em cima e virou-se
Viu-o. Viu-lhe a arma e congelou. Não gritou. Não fugiu. Ele poderia ter atirado de novo. Não o fez. Saiu.
Foi então que começou a gritar, “ajudem-me”. Pessoas entraram, não sabia se pelos seus gritos. Depois, veio o Inem, a Polícia e a PJ.
Falaram de um assalto falhado, mas não podia ser. Ele nem falou, não exigiu dinheiro. Entrou e disparou.
Agora como estava, suja de sangue, nervosa, e pelo que era, jovem, não a levavam a sério. Mas devia ao Lucas tentar que investigassem sem aquele preconceito.
Talvez pela Internet pudesse identificar ou atrair o homicida.
Decidiu fazê-lo.

terça-feira, agosto 21, 2018

Post 6815 - Desafio de Escrita (OE) 4/10 Era uma vez


Estava uma senhora dentro do Roupeiro.
Viu-a meio de lado, muito quieta.
Tinham vindo ficar em casa da avó. O irmão bebe ficaria no quarto com os pais, mas ela ia ter um quarto só para ela, o quarto das visitas. Tinha uma cama de ferro e um roupeiro antigo em madeira, com portas que rangiam e um espelho amarelo nos lados a reflectir a sua imagem, muito séria, mas não assustada, porque ela, ao contrário do irmão, já era crescida.
Mas porque se lembrara de ir espreitar o armário?
Era bom ou não tê-la descoberto ali?
Muito quieta entre os vestidos e casacos de Inverno da avó que cheiravam às bolinhas brancas de naftalina que os protegiam das traças.
Dizia ou não à avó?
Mas quem seria a senhora? E o que faria ali?
Primeiro só lhe parecera estranho, mas agora à medida que escurecia  e chegava a hora de ir para a cama começava a preocupá-la.
Pouco comeu ao jantar a sentir-se cada vez mais pequena e agoniada. Quase que a invejar o berço onde dormiria o irmão.
Os pais a falarem de assuntos sérios e chatos não se aperceberam, mas a avó, sim.
Veio ter com ela para conversarem só as duas. E então à avó conseguiu contar.
Foram as duas até ao quarto, a sua mão aconchegada na mão da avó. A avó  acendeu a luz e abriu as duas portas do armário. Desviou os casados e descobriu um velho manequim de madeira. Nele pendurado um velho chapéu de senhora e enlaçado um lenço cinzento.
- “Esta é a Matilde” contou-lhe a avó. “Foi feita para segurar os chapéus e guardar colares” E riram as duas.
A avó ensinou-lhe que podia inventar histórias e criar senhoras de cabides. Tudo podia acontecer começando com: “Era uma vez…

Post 6814 - Desafio de Escrita (OE) 3/10 - Poema




O que define um homem
não é o que possui ou acumula,
como se os bens fossem memórias
ou garantias (que se revelam vazias),
com eles, não se compra saúde,
 juventude ou vida,

Inventamos laços que nos prendem
para nos sentirmos seguros,
quando no final, despojados,
nos descobrimos iguais

Serão antes os actos,
o que pensámos e fizemos,
os nossos únicos legados

quinta-feira, agosto 02, 2018

Post Desafio de Escrita (40/12) 10/10 - Email


Para: Hell Angel
Assunto: Revelação no final

Caríssimo, já não nos falamos há para aí dois mil anos…e ponderei bem, durante umas dezenas de anos pelo menos, contactar-te de novo, até que surgiu este inovador meio.
Por aqui continua tudo muito parado: céu azul celeste, relva verde, música de harpas por todo o lado, o habitual. Só muito de vez em quando chega alguma alma. Mesmo assim têm-se acumulado e é também por isso que revolvi escrever-te.
As novas almas aparecem-me cheias de perguntas e reivindicações: questionam‑Me sobre os cataclismos, a não salvação dos inocentes, o sentido da vida, etc. etc., Jesus já não aguenta os Judeus que quem pô-lo em causa mesmo aqui, os politeístas exigem ver os “outros deuses”, os muçulmanos querem as suas setenta virgens…só os ateus e agnósticos é que inicialmente parecem felizes por descobrirem que afinal sempre há um depois e um céu…
Agora resolveram organizar-se em associações sindicais e “exigir os seus direitos”.
Praticamente todos querem escolher a música e pretendem direitos de visita a familiares e descendentes (e os muçulmanos não abdicam das virgens por mais que tente explicar‑lhes que não existe nenhuma por aqui).
Discursam para aliciar novos membros, debatem e discutem programas, até têm eleições com votos secretos…não há pachorra.
Então aqui vem o Assunto, revelação deste email.
Comecei a pensar que preciso de férias…
E cheguei à conclusão que apenas Tu Me poderás substituir.
Falei com o Jesus e ele não se importa de ficar algum tempo a tomar conta do Inferno para ti.
Que me dizes? Topas?

D.

Post Desafio de escrita OE (2ª Edição) - 1/10 Sim

“Sim à vida” foi o nome de que se lembraram para baptizar o seu grupo de jovens cristãos. Reuniam-se no final das tardes, liam passagens do Livro Sagrado, ensinavam o Evangelho aos mais novos para os prepararem para a comunhão e no final do liceu tiveram um retiro no Gerês.
Depois entrou para a Faculdade, licenciou-se e começou a trabalhar. Queria permanecer fiel aos seus ideais. Primeiro parecia nunca ter tempo, até que percebeu que perdia a fé.
Enquanto crescia passara por diversas tentativas de diários, cadernos às vezes escolares que abandonava com somente as primeiras páginas manuscritas e depois destruía. Sentia a necessidade de escrever para desabafar quando algo o afligia, depois envergonhava-se do que escrevera ou de como o escrevera.
Não queria perder alguns momentos que via como essenciais e definidores. Acreditava que a forma de os guardar seria lembrar, não os dados objectivos, quando, onde, com quem estava, mas o que sentira na altura.
Decidira por isso voltar a escrever um diário e tencionava fazê-lo com regularidade.
Naquela noite, saíra para uma volta a seguir ao jantar. Em pleno Inverno, apenas se cruzou com dois ou três cães que passeavam os donos.
Alguém tinha pintado aquela frase “Sim à vida” nas paredes enegrecidas da velha fábrica. Não era a única frase e havia também desenhos ou riscos que o pretenderiam ser. Por ali tinham passado vários artistas de grafiti, e tinham conseguido assinar as suas obras pela cor e pelo traço, às vezes com o nome ou um pseudónimo/alcunha. O autor do “Sim à vida” aparentemente escrevera apenas aquela frase, não reincidira noutra obra, nem assinara o nome.
Com o iPhone fotografou a frase na parede. Elegeu-a como o título e o rumo do que pretendia, uma crónica da vida, resposta à questão sobre continuar vivo. Sim!