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quinta-feira, agosto 27, 2020

Post 7679 - Desafio de Escrita - CNEC 22/50 - 6/10 - O meu erro foi




O meu erro foi não ter percebido a tempo.
Devo ter morrido. Não sinto nenhuma dor, não sinto o meu corpo.
A minha última memória foi a da arma nas suas mãos. Acho que consegui até ver o tiro, ouvi-o sem dúvida, e senti depois a bala como uma pancada. Então, não vi a minha vida inteira, pensei apenas como era possível ter-me enganado tanto sobre alguém.
Será talvez melhor começar pelo início. Após o serviço militar passei a prestar serviços para o meu tio Júlio, detective particular. Ensinou-me tudo e deixou-me o seu escritório quando se reformou. Ao contrário do que se poderia pensar era uma vida pacata. Normalmente procuravam-me para investigar o crédito de terceiros com quem os clientes pretendiam celebrar contratos. Ocasionalmente era contactado por homens ou mulheres que se achavam enganados e quase sempre eram-no realmente.
Quando João me procurou no escritório foi um encontro impactante. A sua beleza e ingenuidade seduziram-me. Concordei com tudo o que propôs. No dia seguinte mudei‑me para sua casa e iniciei a investigação. João disse-me que estava em perigo por uma herança cobiçada pelos primos. Sentia-me como se tivesse entrado num livro, mas não um policial e sim um romance.
Um dos primos teve um acidente na garagem, desmaiou quando ia abrir a porta com o carro a trabalhar. Quando o descobriram ainda estava vivo, mas ficou em coma. Um outro foi picado por uma vespa e era alérgico. Teve morte imediata. Havia um terceiro que desaparecera há anos e corria o processo para a morte presumida.
João queria que libertasse o primeiro do seu sofrimento. Só teria que ir ao Hospital e pôr um fim ao seu corpo, porque o seu espírito já o tinha deixado.
A sua insistência fez‑me suspeitar, mas quando recusei foi tarde demais para mim…

quinta-feira, agosto 20, 2020

Post 7671 - CNEC 50/22 - 10/5 - Pai



Não quero despedir-me de ti, não quero dizer-te adeus.
Tento não pensar no que sucedeu.
A dor surge em vagas, algumas derrubam-me e submergem-me, insuportável e inultrapassável por instantes.
Há outras alturas em que tudo parece continuar como se nada tivesse sucedido. Se me lembrar nessa altura sinto-o como uma traição.
Caíste nas escadas e magoaste-te na cabeça. Apesar de não teres perdido a consciência podia ser um traumatismo grave.
Não queria que fosses para o Hospital por recear que apanhasses o Covid. Apanhaste outra coisa, uma pneumonia de uma bactéria hospitalar. Davam-te um remédio, irias melhorar.
Por causa do Covid não podíamos acompanhar-te ou visitar-se, apenas telefonar para saber como estavas.  Quando nos atendiam, falávamos com médicos e enfermeiros diferentes com informações distintas e opostas.
No mesmo dia em que pela manhã me disseram que brevemente ias ter alta, logo após ligam para autorizar uma visita para despedida.
Não pode ser. Não podia ser.
Fomos lá e não sei se nos reconheceste, se sentiste que ali estávamos.
Pedi-te desculpa porque não fui melhor, não sei como não vi como estavas tão frágil e não impedi o que sucedia. Disse-te como gosto tanto de ti. Não te disse adeus, disse-te até amanhã.
Ligaram de novo quando já estava em casa. Um médico a comunicar que tinhas morrido, respondeu-me que não sofreste.
Sei que sofreste sim enquanto estiveste no Hospital. Quando penso nisso, sinto-me culpada por não me ter oposto a que te levassem, não ter arriscado vigiar em casa o traumatismo, não ter evitado que caísses.
Não quero despedir-me de ti, não quero dizer-te adeus.
Quero que continues na minha vida, quero poder continuar a ver-te, ouvir-te, falar-te, estar contigo.
Vou continuar a escrever-te e a falar contigo.
Até a um reencontro, em breve, até já.

quinta-feira, agosto 13, 2020

Post 7633 - CNEC 50/22 - 4/10 - A caneta




O papa queria a sua caneta.
Não me lembrava bem de como era, nem sabia onde estava.
Procurei-a nos lugares mais prováveis: as gavetas da secretária na sala e da cómoda no quarto. Não a encontrei.
Fui buscar uma minha nova que nunca tinha usado. Fora-me oferecida por uma amiga porque sim ou por colegas num aniversário.
Não a quis.
A dele escrevia muito bem. Muito melhor do que aquela que lhe trouxe e não quis sequer experimentar.
A dele acompanhou-o nos anos em que trabalhou como médico veterinário, mais de quarenta anos, para escrever e assinar receitas. Tê-la-á usado também nos contratos para compra de carro e da casa e na emissão de cheques – o meu pai não queria cartões. Tinha uma letra muito bonita, quando escrevia ou quando assinava o seu nome: Alcino Do Fundo Lopes.
Quando éramos crianças ainda não havia telemóveis e aprendemos a atender e a anotar as chamadas. Tínhamos de ficar com o nome e o número de telefone e uma ideia do que era preciso, como “tirar as secundinas” - algo relacionado com um parto complicado de uma vaca. Às vezes íamos com ele. Metia o carro por estradas secundárias  ou caminhos de terra até chegar onde era preciso. Vinha ter com ele o lavrador ou criador. Quando havia cães a ladrar eu tinha medo e preferia ficar no carro, mas cheguei a brincar com os filhos quando estavam por lá.

Disse-lhe que o ajudaria a encontrar a caneta no dia seguinte. Não o fiz. Porque me esqueci ou tinha algo muito importante a fazer.
Dias depois o meu pai morreu.
Se agora encontrar a caneta acho que vou chorar.
Queria ter sido melhor e queria ter-lhe mostrado muito mais como gosto tanto dele.

quinta-feira, agosto 06, 2020

Post 7656 - CNEC 50/22 - 3/10 - Nascemos um para o outro



  Não fiz a barba, nem sei bem o que vesti, a roupa com que dormi e um casaco que enfiei à pressa. Mal me reconheci no espelho do elevador quando descia. O cabelo despenteado, olheiras e olhos vermelhos, a roupa enxovalhada.

Há pouco tempo éramos felizes. Soube desde o início que tínhamos nascido um para o outro.

Disse-lhe logo no primeiro encontro. Pensei que ela o tinha compreendido também, mas depois algo sucedeu. Alguém lhe fez a cabeça. Talvez aquele seu colega de trabalho que anda sempre a rondá-la. Como é que ele se chama? O Pedro, acho que é isso. Nunca gostei dele.

Disse-lhe que precisava de saber sempre por onde ela andava. Assim se ela precisasse de ajuda poderia ir logo ter com ela. Vivemos num mundo perigoso. Não pareceu ter percebido. É demasiado ingénua, mas notei como quando ia ter com ela para a surpreender ela ficava era assustada.

Deve ter sido por algo que aquele Pedro lhe disse que ela deixou de responder às minhas mensagens. Não me atendia o telemóvel. Queixou-se que estava sempre a ligar‑lhe, mas se atendesse mais, isso já não sucederia.

Disse que precisava de um tempo. E eu? Não precisava de a ver? Procurei-a em casa, não abriu a porta, mas sei que estava lá, tinha o carro estacionado em frente. Deve ter sido o Pedro que a convenceu a apresentar uma queixa. Disseram-me que tenho de ficar longe dela. Como é possível? Nem ela o pode querer. Ela precisa de mim.

Ontem decidi, vou ter com ela junto ao prédio onde trabalha, no centro da cidade. Encontrei aqui estacionado um Land Rover. Atrás dele, até ela aparecer, apenas tenho de me dobrar um pouco para que não me vejam.

Só temos de conversar. Ela vai perceber que devemos ficar juntos.


quinta-feira, julho 30, 2020

Post 7647 - Desafio de Escrita - CNEC 50/22 - 2/10 - Um Segredo


Aos cinco anos voei.
Estávamos no jardim em frente ao prédio onde morávamos e consegui que a minha irmã mais velha me emprestasse a sua bicicleta. Só tinha rodinhas de um dos lados, do outro podíamos cair se não a segurássemos, colocando a perna no chão quando parávamos.
Nesse final de tarde pedalei com força e ia depressa. Não via bem o chão, sentia a rapidez.
A roda de frente foi contra uma pedra que a travou e eu sai projectada.
Voei.
Lembro-me da sensação até à aterragem.
Ganhei um galo na testa e a vergonha de ter caído.
Depois tive de conformar-me com o meu triciclo azul. Tinha um defeito: com facilidade, levantava a frente, e caímos para trás. Depois de vários bate-cus, aprendi como fazer para o evitar. Mantinha-se o perigo para quem não o soubesse, como aconteceu ao colega que desafiou o meu aviso.
Continuei com o sonho de ter uma bicicleta, mas cresci e já não a esperava.
Tinha catorze anos, estava sol, e não deve ter sido pelos meus anos, porque nasci no Inverno.
Não me lembro de um aviso antes, nem de a escolher ou saber que aí vinha.

Para poder ser uma surpresa foi antes um segredo.

O meu pai trouxe-me uma bicicleta. Vermelha, e sem rodinhas.

Já não me lembrava de como andar. Ele estava comigo na rua quando ganhei coragem para pedalar e andei sozinha sem ele atrás a segurar-me. Acho que ele me disse para andar que ia segurar-me e eu andei. Lembrei-me de como era e de como colocar os pés no chão para não cair quando parava.
Fiz mais passeios em sonhos com essa bicicleta do que reais. Não cai com ela, só voei na minha imaginação.


Alcino Do Fundo Lopes
o melhor pai do Mundo



quinta-feira, julho 23, 2020

Post 7638 - Desafio de Escrita 22/50 - 1/10 - O dia em Tu disseste


O Dia em que tu disseste


Querias o divórcio e não me amavas.

Deve ter havido uma altura em que fui feliz.
Talvez no início, mas não me lembro de como era.

Levantara-se vento e o nevoeiro descera sobre a vila. Casas velhas e vazias. Em algumas o vento levava a que batessem as janelas mal fechadas. Seguia-te com dificuldade. Ia pedir-te para que fosses mais devagar, mas voltava a ver-te, ao teu vulto magro e despachado, um pouco mais à frente.
Quando finalmente paraste, não demorei a alcançar-te. Tinhas esperado por mim, antes de com um encontrão empurrares a porta. Entrámos.
Estava escuro. Lá perduravam os odores dos enchidos antigamente pendurados na chaminé e da lenha ardida em lumes há muito extintos. Ligaste a lanterna que trazias. A luz fez-me piscar os olhos.
Entráramos para a cozinha. Sabia que ao lado ficavam a sala e os quartos, e sabia o que querias de mim. Passei por ti, e levei a lanterna. Estranhei que não me seguisses. Sob os meus pés rangiam as tábuas do chão. Ia recordando o caminho à medida que avançava. A arca estava no segundo quarto, atrás da porta. Tirei-lhe de cima a roupa com teias de aranha e pó, que a escondia. Lá dentro, na caixa pequena onde o deixara, estava o anel falso, mas por baixo dele, apenas embrulhado num lenço, também se encontrava o verdadeiro, o que tu querias. Guardei-os em bolsos opostos nas calças. Regressei para te anunciar que já o tinha, e saímos.
Pediste-mo no carro. Mostrei-te um deles e prometi-te, “é teu quando sair a sentença.”

Disseste que não me amavas, mas querias dinheiro ou uma joia da minha família para me libertares.
Falso anel para falso amor.
Nesse mesmo dia fui lá esconder os dois e inventei a história.


quinta-feira, julho 16, 2020

Post 7631 - CNEC 49/21 - 10/10 - Um Casamento (não estava inspirada)




Nós os convidados fomos chegando. Estrelicadas e encafuados em vestidos e fatos de cerimónia, juntámo-nos em pequenos grupos enquanto nos reconhecíamos e nos dividiamos do lado da noiva e do noivo.
Esperávamos.
O Padre também, lá dentro e com ele, o noivo e o padrinho. Não havia maneira da noiva chegar e há muito se ultrapassara o atraso desculpável. Alguns dos convidados desfaleciam, e vinham procurar abrigo do sol e calor na Igreja. Misturaram-se os dois lados. Ninguém sabia o que se passava.
A madrinha da noiva surgiu então empunhando o telemóvel. Chamada da noiva para o noivo. Ele atendeu, afastando-se para privacidade. Via-se que estava sério. Quando desligou, comentou que tinha de sair. Não deu explicações. Em passos largos, quase a correr saiu da Igreja. O que fazemos?
Esperamos.
O Padre aborrecido clamou que a seguir tinha outro casamento, só podia esperar mais meia hora.
Esperámos.
Começaram a chegar os convidados do outro casamento. A certa altura vemos uma noiva rodeada pelas damas de honor. Os parentes do nosso noivo que não conheciam a noiva animaram-se, mas era a noiva do casamento seguinte.
Do nosso casamento, nada. Esgotada a meia-hora, seguimos todos para o copo de água. Afinal já estava pago.
Só lá ficámos a saber que a noiva, com a ansiedade e os nervos, não tinha querido vir, mas estava tudo bem. Não lhes faltava amor e paixão. Tinham fugido e iam casar-se em Las Vegas.
Brindámos por eles e na nossa festa de casamento não faltou nada, nem comida, nem dança e mesmo o bolo de casamento marchou.

quinta-feira, julho 09, 2020

Post 7619 - CNEC 49/21 - 9/10 Um estranho bate à porta


A casa era rosa, um pouco elevada, e tinha um quintal à volta que nos escondia do que se passava em redor, um jardim encantado, com roseiras, caracóis, pintos e galinhas.
Primeiro, era preciso abrir um portão lateral, e a seguir percorria-se um caminho cimentado também rosa até à entrada. Entre duas janelas largas estava a porta de ferro, com losangos de vidro fosco e o botão da campainha branco. Quando vinha da escola pendurava-me num dos ferros para tocar.
Eu e a minha irmã mais nova estávamos sozinhas em casa com a nossa avó quando ouvimos a campainha. Acho que a minha irmã ainda nem andava na escola. Não sabia ler, mas sabia abrir a porta. Corremos as duas em direcção ao som e ela abriu.
A nossa avó estranhou que alguém tocasse àquela hora, mas andava devagarinho e só chegou depois, já com a porta aberta.
Do lado de lá, um homem estranho.
Não sei se o cheguei mesmo a ver ou se o lembro como o imaginei. Seria jovem, mas para o meu eu criança, “velho, mais de vinte anos”. Com cabelo para o comprido e bigode escuros.
Não havia razão para estar ali e parecia querer entrar, enquanto procurava confirmar se em casa só estávamos as três.
Facilmente conseguiria empurrar a minha avó e ela sabia disso, mas manteve-se calma. Perguntou-lhe o que queria e se era para ir chamar lá dentro o filho. A nossa avó, mãe da nossa mãe, ali não tinha um filho, e a sua filha e genro estavam longe.
Acreditou nela. Assim conseguiu fechar a porta e ele foi-se.
Imagino como a avó logo a seguir ficou branca com o susto, mas com a bondade que tinha, não nos repreendeu muito. É preciso ver quem é, antes de abrirmos a porta.

quinta-feira, julho 02, 2020

Post 7605 - Desafio de Escrita CNEC 49/21 - 8/10 - A noite em que a luz falhou




Perto da meia-noite falhou a luz.
Quer dentro de casa, quer lá fora, tudo se apagou.
Dir-se-ia que um poço negro caíra sobre a casa e ruas em redor.
Não tinha lanterna nem velas, apenas o telemóvel com a bateria quase gasta. Não ligara aos pios de aviso e no derradeiro apagou-se.
Pensava que estava sozinha quando ouviu um ruído.
Perto, muito perto, no quarto ao lado, alguém arrastava os pés em passos pesados e vinha na sua direcção.
Adivinhou que era um fantasma antes de o ver.
Um sopro gélido antecedeu-o.
Não conseguia mover-se, não conseguia falar. Somente olhava para onde estava a porta. Aguardava, sem saber o quê. Mal respirava enquanto o coração lhe disparava no peito. Não queria ser ouvida, mas não conseguia emudecer o coração. Queria fundir-se nas paredes ou nas mobílias. Tornar-se invisível para quem vinha.
Mas deixou de o ouvir, o som arrastado cessou. Teria parado antes de assomar à porta. Quereria prolongar a sua agonia.
Pesou-lhe a escuridão.
Tentava ver e nada via.
Tentava escutar e nada ouvia.
Nada além dos sons do seu próprio corpo, do rápido inalar, inspirar, expirar, o latejar do sangue a percorrer-lhe as veias, a batida alta do coração, tum, tum,tum.
Poucos segundos duraram horas.
Até que,
Tão subitamente como falhara a luz voltou.
O frigorifico fez-se de novo ouvir num zumbido intermitente. A máquina de lavar iniciou a sua rotação. A luz surpreendeu-a, piscou para recomeçar a ver, reconhecer o que a rodeava,
Conseguia de novo mexer-se e avançou decidida até à porta. Moveu-se tão rapidamente que ele não teria tempo para escapar. Empurrou a porta e olhou.
Nada.
Fundira-se nos móveis ou paredes. Levara com ele o frio e o medo.

quinta-feira, junho 18, 2020

Post 7579 - Desafio de Escrita CNEC 49/21 - 6/10 - Chove


Chove

Não precisaria de me aproximar da janela para o saber.
Ouço a chuva e os respingos da água quando os carros passam.
Estar perto de uma poça na passagem de uma viatura destas, acelerada e indiferente, pode deixar-nos encharcados.
Olho pela janela. Vejo o céu cinzento e claro, e as gotas de água pesadas e verticais porque não há vento.  Um gato branco pula de um muro, atravessa a rua e encontra abrigo do outro lado, por baixo de um arbusto.
Já o vi antes, ao longe. Terá adoptado este bairro, mas mantém-se sempre distante.
A chuva iluminou as cores, deixou o verde mais verde, e o azul e rosa das flores de alguns quintais mais vivos e brilhantes.
Se fosse lá para fora sentiria o cheio da terra e da erva molhadas.

Há algo de estranho que só reparo por me manter a olhar. No 2º andar do prédio em frente não vejo à janela a viúva. Costuma estar sempre lá, o cortinado desviado a anunciar a sua presença.

Reparo então que se abre a porta do prédio e é ela.
E a ela se dirige o gato branco. Nunca antes o vi tão perto de ninguém.
Ela trouxe-lhe algo de comer que coloca à frente dele como uma oferenda. Não o tenta prender ou atrair para mais perto. Percebo a confiança entre os dois e o respeito dela pela liberdade do gato silvestre.

Vejo chegar o carro do meu namorado e não vejo mais nada. Vou para a rua ter com ele. Os dois lá fora à chuva no quadro que se vê da janela.


quinta-feira, junho 11, 2020

Post 7566 - Desafio de Escrita/CNEC 49/21 - 5/10 - O que faço?



O que faço?

O quarto de hotel tem uma varanda com vista para o mar. Quando cheguei, logo na recepção, ao entregarem-me o cartão-chave, louvaram aquela vista, “um dos nossos melhores quartos”. Só depositei lá a mala e saí para jantar.
Quando regressei tinha anoitecido. Abri a porta e saí para a varanda. Estava já demasiado escuro para ver alguma coisa. Na brisa acho que cheirei a maresia e ouvi gaivotas.
Pensava retornar ao ar condicionado do interior quando ouvi gritos.
- É sempre a mesma coisa Não te posso levar a lado nenhum que te vestes como uma puta.
Uma voz fininha retorquiu algo.
- O quê? Tu cala-te mas é caladinha, não me faças perder a paciência.
Ela terá respondido algo, porque logo a seguir o barulho pareceu de bofetadas e seguiram-se gritos – “puta” e “ai que me matas”.
O que faço?
Grito também – “O que se passa aí? Vou chamar a polícia!”
Calaram-se os dois.
Será que devia chamar mesmo a polícia? E de onde vinham as vozes e sons? Do quarto ao lado como me pareceu primeiro, ou do de baixo, ou do de cima?
Resolvo espreitar à volta. Nada. Nem luzes, nem vozes. Os quartos parecem estar todos vazios. Não há estrelas no céu.
Quedo-me em silêncio, até resolver ir deitar-me. Custa-me adormecer e quando o consigo é meio em sobressalto. Estranho a cama e o ar condicionado do quarto.
Mal desperto de madrugada, recordo o incidente da noite anterior.  Além dos sons de chuveiros e de vozes abafadas, tudo parece tranquilo.
Ao pequeno almoço tento em vão reconhecer os intervenientes.
Volto ao quarto para ir buscar a mala, e vou à varanda. Estamos rodeados por prédios e nessa altura reparo que de lá, por entre os edifícios, apenas se vê uma nesga de mar.


quinta-feira, junho 04, 2020

Post 7552 - CNEC 49/21 - 4/10 - Não



- “Então, alinhas?”
- “Não, não contes comigo.”
- “És um cortes, pá.”
O Bruno foi-se embora chateado com ele.
Era para ser fácil.
Depois dessa noite muitas vezes pensou como teria sido se tivesse ido.
Se estivesse lá, ter-se-ia apercebido antes dos outros? Teria dado o alerta para que fugissem sem problemas?
A verdade é que hesitou. O dinheiro dar-lhe ia jeito. Há algum tempo que estava sem trabalho. Ele, os irmãos mais novos e a avó, viviam, ou antes, sobreviviam e mal, com a reforma desta.
A avó andava meio adoentada. Foi mais por isso que ficou. Não queria dar-lhe mais uma preocupação. Deixá-la a pensar para onde ia. Vê-la depois triste se o visse com dinheiro sujo, como ela o chamava, “somos pobres, mas honestos, não te quero malandro, Zé.”
Era para ser fácil. Uma casa de férias vazia, com equipamento e talvez algumas joias, relógios e dinheiro.
Só que não foi.
O dono estava lá e meteu-se a valente.
Contaram-lhe mais tarde que agarrou no chavalo que o Bruno levara com ele, a berrar que dali não saiam, que ia chamar a policia, e o Bruno espetou-o.
Viram-nos e reconheceram-nos. O miúdo abriu logo o jogo quando os detiveram. Por ser menor escapou. O Bruno já com antecedentes, apanhou com seis anos, e porque o homem não morreu.
Foi ao julgamento como testemunha do seu mano. Sentiu-se esmagado pela culpa e alivio por não ter ido. Quando saiu depois dali para fora, soube-lhe até bem o ar que respirava e saber que podia ir para casa.
Naquela noite disse não.
Lembrar-se do que sucedeu fê-lo dizer não noutras noites.


quinta-feira, maio 28, 2020

Post 7538 - CNEC 49/21 - 3/10 - Fechado


Estou fechado.
Fui condenado sem provas.
As testemunhas mentiram, as gravações foram falsificadas.
O meu advogado, defensor oficioso, desde o começo dizia que era difícil. Estava tudo contra mim.
Não admitiram o recurso dizendo que estava fora de prazo.
Ainda pensei em fugir, mas para onde iria?
Quem não deve, não teme, ainda que o céu me caia em cima.
Não fiquei à espera que viessem a minha casa deter-me.
Eu próprio me fui apresentar na prisão. E foi algo inédito. Disseram-me para esperar.  Estranhos minutos esses. Sentei-me lá à entrada a ver o tempo passar. Desconfio que terão pensado em mandar-me embora. Depois disseram-me que podia ficar.
Fui revistado. Vi-me despojado da minha roupa, relógio e cinto. 
Conduziram-me a uma cela, com grades na janela e na porta.
Essa sala em que estava, sem ser estreita, apertava-me.
Deram-me um calmante que escolhi tomar.
Fiquei à espera.
Com o tempo que passou, mudaram-me de cela. Na nova somos cinco. Não há espaço para se estar sozinho. Só o consigo fazer dentro da minha cabeça, normalmente à noite.
Já fiquei a saber que aqui todos somos inocentes. Condenados sem provas porque as testemunhas mentem e o sistema está contra nós. Quem rouba um pão vai dentro, quem desvia um milhão anda livre por aí. Criminosos são os guardas que nos perseguem e os juízes que nos atiram para aqui.
Espero.
Escrevo e envio requerimentos para o meu processo. Ninguém me responde.
Sem família ou companheira, não tenho visitas.
Estranho a comida, a imposição de horários, a companhia irrecusável dos colegas de cela.
Emagreço e espero.
A vida que tinha parou, partiu-se em pedaços que não sei se conseguirei voltar a juntar. Era outro lá fora que já não reconheço.
Também nesta cela há uma janela com grades.
Estou fechado e espero.

segunda-feira, maio 18, 2020

Post 7509 - CNEC 48/20 - 10/10 História em perguntas



Teria sido possível evitar o que se passou?
Onde é que se terão encontrado pela primeira vez?
Porque estava calor, terá sido numa praia?
Qual dos dois terá tido a iniciativa de se dirigir ao outro?
Poderão tê-lo pensado no mesmo instante?
Terão as palavras fluído entre os dois?
Ter-se-ão reconhecido como almas gémeas logo nesse primeiro encontro?
Em todos os outros encontros que se sucederam, terá crescido a chama?
De tal forma que não sobrava espaço para mais nada ou ninguém?

Porque não foram simplesmente embora?
Será que o tentaram?
Ou nem pensaram nisso?

A mulher dele e o marido dela terão sabido o que se passava?
Terão implorado para que terminassem a relação que começava?
Tê-lo-ão exigido?
Será que isso os juntou?
Ou também já se conheciam antes?

Como lhes terá ocorrido o que decidiram fazer?
Ter-se-ão lembrado de algum livro ou filme?
Terão envolvido mais alguém?
Tê-lo-ão executado apenas os dois?
Como terão arranjado o veneno?
Como terão feito para que fosse ingerido?
Tê-lo-ão escondido numa bebida ou numa refeição?
Não lhes deveria ter ocorrido que seria suspeito?
Terão acreditado que depois poderiam ficar juntos?
Terão pensado que ninguém suspeitaria da estranha “coincidência”?
Qual a probabilidade de algo assim suceder?
Poderiam dois amantes perder ou ganhar a sua liberdade ao mesmo tempo assim?
E o que é que correu mal depois?
Será que um dos dois se arrependeu?
Ou calcularam mal a dose?

Foi no Hospital que o marido dela e a mulher dele perceberam o que tinha sucedido?
Apoiaram-se um ao outro na denúncia?
Não tinham já descoberto que havia algo mais a ligá-los?
Quando o casal dos amantes loucos desvairados e homicidas foi preso, perceberam que o outro casal se juntava?

O marido dela, a mulher dele, será que conseguirão ser felizes juntos para sempre?

quinta-feira, maio 14, 2020

Post 7500 - CNEC 49/21 - 1/10 - Praia




Depois do último exame tinham ido para os copos. Ainda não sabiam o resultado mas já sonhavam com as férias, e a certa altura pareceu-lhes uma óptima ideia assaltarem a escola e raptar o esqueleto, aliás, libertá-lo, para lhe darem o repouso que merecia.
Da ideia passaram à acção.
Não contavam com o alarme, mas não desanimaram. Sabiam o caminho, foram até à sala onde o guardavam, enfiaram-no num saco e correram, fugindo pela janela por onde tinham entrado antes que aparecesse alguém.
Foram festejar com mais cervejas, e o Sérgio ficou encarregue da última missão de honrar o Óscar, como a dado momento o baptizaram. Já não se lembrava bem de como chegara depois à casa.
Na manhã seguinte, acordou com dor de cabeça e sem saber bem se não teria sonhado com tudo.
A mãe conseguiu convencê-lo que seria bom irem até à praia com o irmão mais novo, "para celebrarem o primeiro dia de férias", e lá foram.
Manhã enevoada e a nortada a instalar-se numa praia por isso meio vazia. Enterraram o guarda-sol e o toldo, ele aterrou na toalha e adormeceu.
Quando despertou perto do meio dia tinha rompido o sol e tinha-se enchido a praia.
Reparou como perto deles um grupo de pessoas crescia. Algo tinha sucedido e pelas atitudes e rostos fechados seria algo grave.
- “Vai lá ver o que se passa”. Disse-lhe a mãe apreensiva. E ele foi.
Ouviu comentários e sussurros – “já chamaram a polícia”, “foi morte violenta sem dúvida”, “já terá sido há algum tempo”, “malandros, deixarem-no ali”, “isto não se faz a um cão”.
Mais próximo conseguiu finalmente ver alguma coisa, por entre o círculo dos que o guardavam e esperavam a polícia, na areia, meio desenterrado, estava ali o Óscar…

segunda-feira, maio 11, 2020

Post 7497 - CNEC 48/20 - 9/10 - A Corrida




Estava cansado e a ficar para trás quando sentiu aquele impulso.
Sabia do atalho que lhe pouparia um km, só teria de ter cuidado para que não o vissem e para não aparecer muito à frente. A meio, já estaria bem. Assim não chegava em último e não levantaria suspeitas.
Hesitou, quase parou, mas ganhou o diabinho em vez do anjo que lhe soprava haver maior mérito em ser honradamente o último.
Enfiou-se pelo atalho.
Ia reconhecendo as pedras e as árvores mais velhas. O coração aos pulos. Parecia que ouvia o sangue que lhe corria nas veias. Alguns ramos inesperados arranharam-lhe a cara, assim como as silvas as pernas. Tropeçou numa pedra, quase caiu. Ergueu-se, mas não conseguiu evitar logo a seguir um arbusto escondido e estatelou-se no chão.
Sangrava-lhe o joelho. Quando se tentou pôr de pé, uma dor lancinante quase o fez baixar-se de novo. A custo ergueu-se. Devia ter feito uma entorse. Não conseguia apoiar o pé direito no chão. Procurou em redor e teve a sorte de encontrar um ramo mais comprido e grosso que usou para se apoiar como numa bengala para passos curtos. Ainda estava longe, mas tinha de seguir em frente. Ali ninguém o viria procurar e que vergonha se o encontrassem. Não iriam acreditar se dissesse que se tinha perdido. Queria chorar. Pensou, fui castigado. Continuou com os passos coxos a aproximar-se do ponto do trilho da corrida. Quando pensava que talvez conseguisse chegar à pista sem levantar suspeitas ouviu uma voz conhecida:
- Bruno que fazes aqui?
Era o Miguel, seu irmão mais velho. Seguia bem adiantado à frente, devia ter voltado atrás à sua procura.
Trocaram um olhar e ele percebeu.
- Apoia-te a mim. Não contaremos a ninguém.
Nunca mais faria batota nem esqueceria o apoio do irmão.