sexta-feira, novembro 15, 2019

Post 7255 - Desafio de Escrita dos Pássaros 10º Tema: Já chegámos, já chegámos?


- Já chegamos, já chegamos?
- Ainda não, mas não perguntaram ainda há pouco? Respondia pacientemente a minha mãe.
Olho pela janela. Sabia que ainda não tínhamos chegado, que faltava ainda muito, tanto! Uma das minhas irmãs dormia, a outra também parecia que ia adormecer, mas eu permanecia acordada (ao meu lado, a minha boneca Joaninha, que levava para todo o lado, e tinha inclusive uma pequena mala improvisada, com um pijama e dois vestidos: um azul feito pela minha avó e um com bolinhas amarelas, feito pela costureira de um retalho de tecido). Pela janela do lado direito via ora a estrada, ora os carros com que nos cruzávamos, pela do lado esquerdo, árvores, erva, monte. A paisagem ia mudando. Primeiro, muitos edifícios, depois só algumas casas, árvores altas e verdes, depois também rareavam as árvores, via mais erva e monte, espaçadas as oliveiras, e restos de incêndios, chagas castanhas e despidas no meio dos montes.
Os meus pais pareciam concentrados na viagem, o meu pai na condução, a minha mãe em mil e uma coisas para que tudo corresse bem.
Mais perto, sentíamos o cheiro das estevas – não havia ar condicionado, pelas janelas entreabertas entrava calor.
Sabia que quando chegássemos à aldeia, iria reencontrar os meus avós, alguns primos e primas que não reconhecia, e o meu pai iria rejuvenescer no papel de filho.
Por lá estava também a burrinha, que a minha irmã mais nova iria querer logo ver, os biscoitos em argola, o pão de trigo, a lareira, o chão da casa com tabuas compridas e não muito direitas, o silêncio à noite, e o cantar do galo de madrugada.
Queria hoje poder fazer essa viagem, o durante, enquanto não chegamos e o depois, vivo-o nas recordações.

4 comentários: